domingo, 7 de julho de 2013

Anarquia, Estado e Utopia de Robert Nozick

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"Na manutenção do seu monopólio do uso da força e da proteção de todos dentro de um território, o Estado tem que violar direitos individuais e, por conseguinte, é intrinsecamente imoral." (Robert Nozick) 

Questionar o papel do Estado é tarefa permanente, sobretudo quando testemunhamos tão forte desejo coletivo de ilegitimar a presença de quem tradicionalmente vem governando. Há livros do momento e há livros de todos os tempos. Deixo aqui minha sugestão de leitura que, sem dúvidas, já faz parte da categoria perene e que pode ajudar a gerir o afluxo gigantesco de ideias e emoções que fizeram, de alguma maneira, acordar a sociedade civil. 



domingo, 23 de junho de 2013

Brasileiros, mais um esforço se quiserdes ser livres.


Confeccionar juízos sob o domínio das paixões, sobretudo no atual momento, é produzir convicções de curtíssima duração. Mas vamos arriscar. Finalmente, começamos a entrar em modo de estranhamento em relação aos fundamentos pétreos e às verdades oficiais da nossa política. Finalmente, de forma concreta, desejamos ilegitimar e retirar do poder os tradicionais embusteiros. É hora de arrancar as raízes, é o momento de questionar as essências. O título do presente texto é uma paródia de um escrito político do Marquês de Sade. Este deu tudo o que pôde intelectualmente para ajudar a derrubar um regime monárquico em seu país. Tendo visto e vivido o extremo sucesso do 10 de agosto de 1792, clamava prudentemente aos seus compatriotas que era necessário, ainda, um esforço para extirpar os vapores da monarquia que continuavam a infectar os ares franceses. A indecisão popular de como organizar a república, deu espaço para a retomada do poder central na figura de Napoleão em 1804. O que isso tem a ver com o nosso país? Tudo. É hora de derrubarmos a nossa própria Bastilha (sem vandalizá-la?). Temos ainda o recente exemplo das revoluções árabes que estão indubitavelmente mudando o mundo, derrubando os desmandos sufocantes de poderes centrais. A entrega vital daqueles povos deve servir para nós como um arquétipo de busca de liberdade (no sentido mais genuíno da palavra). Ainda que não haja expressamente em marcha uma Primavera Brasileira - para além de pautas específicas (partidárias ou apartidárias) -, há um sentimento geral, que deveria permitir a inclusão de todas as cores e bandeiras, que nos une e que fez uma enorme fração do país tomar as ruas: a vontade de REFORMA POLÍTICA. PEC 33, 37 e 99, transporte público, Feliciano e a cura gay, salário dos vereadores, Renan Calheiros, saúde, segurança e educação. O grito coletivo contra as bizarrices políticas pedem uma e só mudança drástica: REFORMA POLÍTICA



Todos nós sabemos, e o célebre Sócrates já o indicava, que a democracia talvez não seja a mais descomplicada forma de governo. Não se trata de proposições ditatoriais e nem de uma proposta de algum império de poder central. Interessante que esteja no ar uma paranoia de golpe militar. Mais curioso ainda é a criação tardiamente oportunista do PMB (Partido Militar Brasileiro). Platão, sucessor do envenenado, desejava ardentemente a presença de gente capacitada para gerir um regime de poder descentralizado. Qualquer um sabe que nosso pitoresco país nunca foi governado por gente capacitada. Gente capacitada é uma espécie de raça superior? Não. Dizer que alguém é capacitado é dizer que é necessariamente letrado? De maneira alguma. Se assim fosse, o retórico e cretino Fernando Collor teria sido o melhor até então. É hora de pensar como as crianças. Logo, é hora de pensar como filósofos e indagar o óbvio. A luz da obviedade ofusca a compreensão mais profunda da realidade. É hora das questões simplórias. Que estas não sejam respondidas por especialistas em política e estatística. O império da ciência não é a salvação da totalidade do mundo. É hora de questionar os fundamentos! Quem é gente capacitada para governar? Gente capacitada é gente com olhar de progresso e alívio entre os desiguais socialmente. Gente capacitada é a que luta para que não paguemos impostos altos em qualquer bem de consumo, inclusive a água! Gente capacitada não desvia dinheiro de instituições públicas, não escraviza humanos em fazendas, não manda assassinar gente honesta, não desrespeita o meio ambiente, não enriquece com dinheiro público, não paga motéis de luxo para desfrutar de boas prostitutas com o dinheiro do contribuinte, não privilegia banqueiros, preocupa-se em minorar o sofrimento de comunidades carentes, não lava dinheiro em loterias, não utiliza a fé como fator de exploração financeira, não manipula a mídia, não se interessa que a população continue analfabeta. Gente capacitada enxerga a educação como panaceia de cura da burrice induzida. Os que são genuinamente capacitados a governar são aqueles que sofrem ao ver uma criança habitando as ruas e passado fome. Um indivíduo capacitado a governar não é, sob hipótese alguma, acusado de sonegação fiscal, nunca é pego em falsidade ideológica, não nomeia laranjas para acumular riquezas ilícitas, nunca comete apropriação indébita, não se mancha com peculato, não é comparado a nenhum ser vivo parasitário como os sanguessugas, não comete improbidade administrativa, não sofre acusação de crime eleitoral, não compra voto com sacos de feijão e cimento, não declara imposto de renda falso, não comete crime contra a ordem tributária, não empreende crimes contra o consumidor e nunca precisa passar pela inquisição de uma CPI. Essa lista de obscuridades comportamentais é infinita? A prática da corrupção no Brasil será eterna? Ficaremos eternamente passivos diante dessa realidade? O gigante acordou, mas ainda é uma criança. Poderá ficar acordado até tarde? Terá medo dos monstros do armário congressista? Ou vencerá os medos infantis e passará de uma vez por todas à uma adolescência corajosa e livre? 




domingo, 14 de abril de 2013

O homofóbico pecado mortal de não ser gay nem evangélico no Brasil de hoje

O que de fato é uma Minoria?

No Brasil de hoje há dois tipos de minorias: as minorias irrelevantemente menores e as minorias majoritariamente intocáveis. Estas últimas são as bancadas cujas vozes sustentam os mais elevados níveis de decibéis políticos do país. Um momento... Não espere nesse texto uma sofisticada teoria política, uma filosofia inócua, uma sociologia psiquiátrica ou uma antropologia messiânica. Nem mesmo uma masturbação intelectual defendendo seja lá o que for. É um escrito dietético, produto do nosso tempo. Por Deus e em nome da sexualidade mundial: eu não quero confusão! Nem Marco Feliciano quer confusão! O cidadão é somente a mais sofisticada arma de desvio de atenção em massa já criada por Brasília. Deixo aqui meus parabéns aos peixes grandes por esta belíssima e feliciana manobra! Pretendo apenas convocar o leitor para uma simples tarefa do pensamento. Parto do princípio de que qualquer ativismo é perigoso. A "verdade" em excesso, mesmo para propagar um suposto bem, pode passar por cima de outros interesses "universais". Prometo ter cuidado: as teorias criam tantos fanáticos quanto a religião. Permitam-me um momento de discurso clichê: tenho amigos gays, evangélicos, ateus, agnósticos, alvirrubros, tricolores, paulistanos, paraenses, negros, asiáticos, cadeirantes, porteiros, militantes neoliberais e comunistas de grife. O predicado imputado ao ser humano basicamente não altera minhas relações com os indivíduos. Talvez eu precise, vez ou outra, adaptar o discurso para que nossos diálogos sejam harmoniosos. Eu disse harmonioso, ou seja, um meio termo entre o diplomático e o dócil. A recíproca é verdadeira dado que também tenho minhas manchas predicativas. Sou nordestino, proletário, pedestre, diabético, oriundo da anciã área de humanas, barbado e usuário de linguagem semiesquizofrênica. Amigos, sejamos honestos: existe uma diferença abissal entre tolerância e aceitação. A tolerância está para a razão assim como a aceitação está para o sentimento. Se não se aceita a diferença, resta apenas tolerar.  Não estou tratando aqui de vizinhos, amigos, alunos, parentes, gente da minha circunvizinhança. O perigo é o ativismo e toda sorte de violência oriunda daí. Na política, a verdade é a informação que mais impressiona, o conceito mais eficientemente invasor. Vivemos tempos de tantas verdades, que o excesso de iluminação acaba por nos ofuscar e não percebemos nenhuma com nitidez. Impõe o discurso quem tem a voz mais alta e não necessariamente aos berros. A atual disputa entre a bancadas evangélica e LGBT é, como se costuma dizer, briga de cachorro grande. Não existem mais as antigas lutas das minorias. A maioria, doravante, são as minorias. Honestamente, sabemos quem merece a alcunha de Minoria. Mulheres não são minoria, negros tampouco. Homossexuais e evangélicos são instâncias minoritárias? Não! São discursos numerosamente sólidos. Minorias são os cadeirantes, os que portam deficiências visuais, os ciclistas, as doulas e as mulheres que desejam parir em casa, os que pregam o bem-estar animal, os que anseiam por privacidade na internet, os portadores da Síndrome de Tourette, Síndrome de Down, os indígenas expropriados de uma existência digna. Perdoem-me as atuais “minorias majoritárias”, mas discursos outros também precisam de microfones, de produções audiovisuais, de palanques, de financiamentos, de Ministérios, de Comissões e de cargos públicos. Polarizações políticas são nocivas e ações afirmativas podem ameaçar a autonomia. O que sobra no jogo político para quem não é gay ou evangélico? Atenção! Eu disse no jogo político, ou seja, dinheiro público, partidos, sessões parlamentares, tuitaços, marchas, bancadas e refregas do poder. Apenas um imbecil ousa afirmar que a luta LGBT é ilegítima ou que as reivindicações religiosas são inválidas. É ainda menos inteligente sugerir qual das causas está com a razão. Admiro a coragem irrefreável do deputado Jean Wyllys e a obstinação retórica do conservador Silas Malafaia. Entretanto, seria agradavelmente democrático o entendimento de que há outras prioridades, outros discursos e outras minorias a serem postas em pauta num país que é abrigo de um sem número de desigualdades crônicas.



quarta-feira, 10 de abril de 2013

A lição das bananas sobre o tempo


Olá, O final vai chegar. O breve, o efêmero, o transitório, o perecível, Heráclito, o faiscar do momento. Absoluta regulamentação da provisoriedade. Constante mudança? Paradoxo. O que é uma constante? O que permanece. Homem: espécie metafórica. O que muda, dura. O que dura, muda. Pura intuição, angústia no sentido mais natural do termo. Quanto lhe falta para que o amarelo vivo saia de cena? Adeus, chegamos ao final. Já? 

Deitch Projects, Banana Wall





domingo, 7 de abril de 2013

Aforismos (36) - Do cinismo





Aforismos (35)

Um especialista nem de perto é um sábio. Entretanto, especializar-se é montar num pequeno bote capaz de evitar o afogamento no indomável oceano das generalidades. Bem por isso que uma das principais características dos especialistas é navegar de forma ingênua no todo da existência.   




segunda-feira, 1 de abril de 2013

A (con)fusão entre o público e o privado nas redes sociais



Não é novidade que vivenciamos uma era majoritariamente individualista. Vivemos uma situação histórica na qual o cuidado de si, o autocentramento e a egoidade regem o comportamento dos sujeitos. Como afirma acertadamente Nelson Saldanha, deixamos de ser cidadãos da praça e nos transformamos em indivíduos do jardim[1]. Ou seja, a esfera privada não só se projetou por sobre a esfera pública, como se (con)fundiu com esta última. Você é o que você compartilha, assegura Gil Giardelli[2], especialista em sociedades em rede. Esse gigantesco afluxo de informações - tanto públicas quanto privadas - começa a demandar um novo modus operandi social. Isso se deve ao fato de que o que é de caráter privado se publiciza e o que deveria estar em domínio público se privatiza. Você que começa a ler esse ensaio tem uma grande chance de ser usuário de alguma rede social e sabe de antemão do que estamos falando. Quantas horas por dia você gasta nesse tipo de ambiente? Com quantas pessoas você se comunica exclusivamente pelas redes? Já conseguiu algum emprego através delas? Já foi desligado de algum trabalho por emitir opiniões inadequadas? Criou algum laço afetivo? Ou, ao contrário, teve um relacionamento destruído? Nos últimos anos, temos testemunhado um verdadeiro apogeu das redes sociais. Ainda muito recentemente, o fenômeno tinha pouco alcance. Rede social, um conceito lá não muito novo, existe desde que o homem abandonou o estado de natureza e passou a habitar socialmente. Família, amigos, comunidade, escola, faculdade, trabalho, ou seja, todas as redes que são evidentes desde sempre - e que sempre tiveram clara a fronteira entre os costumes públicos e os privados – plasmaram-se em convívio virtual, provocando uma confusa e perigosa combinação. Como antecipou Eric Hobsbawm, historiador britânico, a internet transformou tudo e tem apenas 17 anos de existência. As redes sociais online se transformaram em um elemento relacional muito importante para algumas pessoas, o que as leva a ir muito além da escrita de mensagens ou a realizarem uploads de conteúdos simples. Doravante, se converteram em complexas organizações de comunicação, de movimentações coletivas, de publicidade e propaganda, de empregabilidade, de política, de educação, de gestão, de diversão e, não podemos esquecer, de intrigas éticas. Muitas empresas e centrais de informação passaram a depender destas ferramentas.

Nas Redes, o público e o privado vêm sofrendo perigosa fusão.

A vida social de milhões de pessoas se faz pautar pelas tendências que se sucedem em meio às timelines. Crises éticas, escândalos morais, tensões relacionais, desocultação de segredos, conflitos trabalhistas e quiproquós em geral encontram terreno fértil nas redes. Abalos conjugais aumentam devido à condutas pouco devotadas no Facebook e um número considerável de demissões têm origem nas animosidades criadas entre empregados e empregadores nos ambientes virtuais. Em suma, muitas das funcionalidades oferecidas por essas redes têm caráter útil e benéfico. Entretanto, onde há luz avizinha-se o obscuro. Não se trata mais de simples entretenimento. As redes fazem parte do ethos dos indivíduos, molda subjetividades e – mais uma vez - vêm causando confusão entre as esferas pública e privada. Divórcios expostos, costumes domésticos exibidos indiscriminadamente, a vida como vitrine. A rede social simboliza a apoteose da queda do homem público, ou seja, o cidadão ligado aos antigos costumes públicos. As redes têm a substância mesma da necessidade da intimização das relações. Esse claustro relacional é condição do aparecimento do espaço público vazio de sentido nos grandes centros urbanos. Os condomínios que se fecham à cidade são um bom exemplo. Não é o caso que elementos como o Facebook, Twitter, Youtube, entre outros, sejam a causa em si da decadência da esfera pública, da ascensão da esfera privada e da crise entre ambas. As redes sociais simplesmente se encaixam nessa nova lógica. Os lofts e flats são a imagem arquitetônica da progressiva necessidade isolacionista do homem contemporâneo. Carros Smart, fast-foods, shoppings, academias de ginástica, aniversários pré-prontos, cerimônias cada vez mais informais. A rede social é apenas mais uma das respostas ao processo de interiorização do Eu. Como alega Richard Sennet, sociólogo e historiador norte-americano, “o desenvolvimento da personalidade hoje em dia é o desenvolvimento da personalidade de um refugiado”[3]. Visto isso, podemos levar algumas questões. No que consiste a mudança estrutural da esfera pública? Por que a figura do “homem público” está em declínio? Como se dá a interpenetração progressiva da esfera pública como o setor privado? Como se deu a polarização da esfera social e da esfera íntima? Por que o público pensador de cultura passou a ser um público consumidor de cultura? Ademais, a necessidade de se expor parece uma exigência inevitável ao homem. Sendo assim, é possível concordar com Guy Debord, escritor fracês, quando afirma que todos nós estamos imersos numa verdadeira sociedade do espetáculo[4] em que tudo é passível de objetificação, onde tudo pode ser vendido: a vida e a morte. A exposição da intimidade, não seria diferente, faz nascerem fetiches de consumo. As Redes Sociais são fenômenos que se encaixam perfeitamente no espírito do tempo que, segundo o psicanalista Christian Dunker, é um tempo no qual “antes de conhecer-se, é preciso cuidar de si, ocupar-se consigo”[5]. O atual costume de “publicar” os fatos cotidianos começa a nos exigir antigas virtudes, entre elas a prudência. Toda ética é uma ótica, por isso pode tornar-se uma ciência: a da conduta. Dado que vivemos uma espécie de “ditadura das intimidades”, novas identidades vêm sendo fomentadas e “vividas” no mundo que não é mais tão virtual assim. Cabe discutir por que vivemos essa época sem precedentes na história e como normativizar comportamentos onde problemas de conduta num plano virtual (pessoais ou profissionais) interferem cotidianamente no desenvolvimento das relações ditas “reais”. É possível pensar uma ética, material ou formal, para a era das Redes Sociais? É possível suscitar uma “netiqueta”? Como pensar uma deontologia para as relações em rede? Como vimos, torna-se difícil detectar quem não as utilize. Seja para fins profissionais, familiares, informativos, sociais, estéticos ou sentimentais. O impacto desse novo elemento estrutural de coexistência pede análise e direcionamento do “saber viver”. É preciso discutir, analisar e propor códigos de conduta condizentes com esse recente nicho comportamental. A sociedade burguesa, completamente marcada pela lógica do comércio e das facilidades do consumo, depauperou os costumes públicos e tradicionais, tornando os laços sociais frágeis, instantâneos e “líquidos”, no sentido que dá o sociólogo polonês Zygmunt Bauman[6]. Como o costume exige que a sociedade trabalhe em seu favor, as Redes Sociais acabaram por se tornar um receptáculo ideal dessa confusão entre o íntimo e o público, em que ambas se fundem inevitavelmente. Se as redes interferem tão decisivamente em nossa subjetividade e intersubjetividade, nos cabe o aperfeiçoamento da conduta. Exercemos no mundo digital o que outrora exercitávamos no espaço público das grandes cidades. As redes mostram como deixamos de ser uma plateia, no sentido de testemunhas, ou seja, a força da opinião pública, para passarmos apenas ao status de espectadores. Mesmo com todos os riscos éticos, as redes nos trazem novas e positivas perspectivas de interação. Luiz Felipe Pondé, pensador conservador, afirma em tom irônico que “as redes sociais são a maior vitrine da humanidade, nelas vemos sua rara inteligência e sua quase hegemônica banalidade.”[7] Segundo ele, as “revoluções” realizadas via redes são insurreições de boutique ou, como se veicula pela internet, protestos de gente sentada. Mesmo assim, é possível observar um funcionamento substancial de mobilizações coletivas, petições, protestos pacíficos, veiculação de críticas, aumento das vendas, sofisticação do marketing, valorização das marcas, entre outros inúmeros processos de otimização social. Todos esses elementos foram facilitados pela fluidez da informação espraiada nas social networks. Esses fenômenos não podem ser simplesmente preteridos. Pelo certo ou pelo errado, pelo ser ou pelo dever-ser, as redes fazem parte da nossa realidade, no sentido mais amplo do termo. Logo, nos exigem um novo ethos, ou seja, novos procedimentos sociais. 




[1] SALDANHA, Nelson. O jardim e a praça: o público e o privado na vida social e histórica. Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 2005. 
[2] GIARDELLI, Gil. Você é o que você compartilha. E-agora: como aproveitar as oportunidades de vida e trabalho na sociedade em rede. São Paulo: Editora Gente, 2012.
[3] SENNETT, Richard. O Declínio do Homem Público: as tiranias da intimidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 318.
[4] DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo: comentário sobre a sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
[5] DUNKER, Christian. Estrutura e constituição da clínica psicanalítica. Uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento. São Paulo: Annablume, 2011. p. 198.
[6] BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido. Acerca de la fragilidad de los vínculos humanos. Madrid: Fondo de Cultura Económica, 2005.



sábado, 30 de março de 2013

[Resenha] Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet

Uma leitura que pode lhe deixar positivamente paranoico.
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“Onde mora o perigo, é lá que também cresce o que salva.” (Friedrich Hölderlin)



“Este livro é o grito de advertência de uma sentinela na calada da noite”. De fato, não se trata de mais uma obra sobre o alcance e o poder do conhecimento desenvolvido no mundo da internet. Dessas possibilidades já se tem demasiada ciência e muito desse saber flui fortuito, lôbrego, debaixo de um véu de interesses de vigilância e controle. Uma guerra, ou melhor, uma ciberguerra está em curso e movimentos como o Wikileaks e o Anonymous vêm tentando expor ao mundo um verdadeiro jogo sujo, oriundo da nociva militarização do ciberespaço. “Nenhuma descrição do mundo sobrevive ao primeiro contato com o inimigo”, afirma Julian Assange, o cérebro por trás do Wikileaks. Quem é o inimigo? Os Estados? As corporações? A Esquerda? A Direita? Para entender de onde parte o perigo é preciso se munir de certa dislexia política. Sabemos quem é o inimigo e ele está claramente oculto, sub-reptício, se move camuflado, um fenômeno ameaçador a ser combatido. O que é um fenômeno? Aquilo que se manifesta. O que tem se manifestado sub-repticiamente e que tanto preocupa os cypherpunks, entusiastas da criptografia como via de mudanças sociopolíticas? Uma distopia palpável: o crônico cerceamento da liberdade, o controle da vida íntima, a invasão do jardim moral e o abandono das praças éticas. Estamos falando da iminência de uma sociedade de vigilância totalitarista global. Não temos mais privacidade. Nossas comunicações podem ser interceptadas, armazenadas e, eventualmente, usadas contra nós. O inimigo da internet é a vigilância. A humanidade como um todo está sendo controlada. Cartões de crédito, smartphones, aviões não tripulados e redes sociais. Todos a serviço de uma cultura da espionagem em massa. O Facebook, instrumento de comunicação aparentemente inofensivo, é um quintal onde se é convidado a tirar as roupas e isso é feito de modo voluntário em troca de uns créditos sociais. É o perfeito panoptismo! Eis a motivação primeira do esforço cypherpunk: privacidade aos fracos, transparência para os poderosos. Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, entregue ao público de língua portuguesa pela Boitempo Editorial, é uma verdadeira atualização de um diálogo em estilo platônico, uma vez que os interlocutores mostram-se preocupados com o desvirtuamento de um ideal: a liberdade. A internet, um espaço inicialmente livre, se vê agora sob o cerco dos tentáculos de interesses que são o produto de um ameaçador laço de amizade entre Estados (e suas facções) e megaempresas de vigilância em massa. A conversação entre Assange e os ciberativistas Jacob Appelbaum, Andy Müller-Maghun e Jérémie Zimmermann é a indicação da saída de uma caverna em que sedutoras sombras com aparentes contornos de liberdade sustentam, na verdade, um conteúdo perigosamente escravizador. O que existe hoje fora do alcance dos braços do Estado ou das armadilhas das grandes corporações? Aos leigos, ou seja, a maior parte de nós, o livro é um convite, do ponto de vista de insiders, ao conhecimento de alguns desses tentáculos como o SOPA (Stop Online Piracy Act), o PIPA (Protect IP Act), o ACTA (Anti-Counterfeiting Trade Agreement), a NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA), O Patriot Act, o WTF (Wikileaks Task Force), o SCA (Stored Communications Act), entre outras forças de caráter repressivo. A criptografia é a última tentativa não beligerante de ação contra a vigilância transnacional. A geografia das relações em rede e as facilidades de mapeamento e rastreamento de pessoas e grupos tornaram-se, doravante, uma perigosa máquina de guerra. Os cypherpunks são os espartanos e a criptografia suas Termópilas. O elemento criptográfico estará em tudo e pode-se dizer que será cada vez mais um dos elementos principais por trás das guerras físicas. “A criptografia pode resolver o problema da interceptação em massa que ameaça a civilização do mundo inteiro”. Cada página é um esforço de explicação de como criar ferramentas de uma nova democracia – como a popularização de softwares e hardwares livres - e estimular a desalienação do indivíduo para que tome as próprias medidas de segurança e anonimato enquanto as políticas de privacidade ainda estão insipientes ou obscuras. É impossível não se sentir paranoico ao final da leitura deste livro. Todavia, uma paranoia no sentido positivo dado que o objetivo da obra é nos instalar o medo, ministrar um curto-circuito em nossa letargia coletiva, ensinar através de uma pedagogia da antecipação aos riscos, acordar através de uma heurística do temor e educar na escola do domínio próprio.









sexta-feira, 2 de novembro de 2012

"Morremos na morte de outrem" (Evaldo Coutinho)

Morremos na morte de outrem
Falecido em 2007 no Recife, Evaldo Coutinho, um dos únicos filósofos brasileiros no sentido genuíno do termo, erigiu um pensamento interpessoal acerca da morte e da finitude. Arquiteto, esteta, advogado e membro da Academia Pernambucana de Letras, deixou nove obras oficiais que sustentam um sistema filosófico que mescla filosofia, arte, estética, arquitetura e cinema. Trabalhou uma fenomenologia com sentimento brasileiro, com aroma de Engenho, com visual de arquitetura Neocolonial e com sensação de pontes sobre rios. A tanatologia nesse pensador é social e ao mesmo tempo ensimesmada. Um homem velho, se pode depreender, tendo conhecido diversas outras pessoas, leva consigo ao morrer todas as lembranças e as vivências que possuía junto aos outros no mundo. Suponhamos que eu tenha morrido em 2008. Se de lá para cá todos que me conhecem tivessem morrido, eu cairia no esquecimento total, aniquilado não só na biologia, mas na existência real não-efetiva que ainda sou. Todos estão morrendo nas mortes de outrem. Enquanto o outro vive – e foi conosco no mundo – tem a capacidade de suster minha presença como alguém ausente. Assim acontece com alguém que acaba de me conhecer. Eis que neste acontecer possuo mais uma testemunha da minha existência. Na morte do Eu tudo quanto é “existenciamento” adquirido desaba junto. Nesse sentido, a ideia de “morrer mil mortes” faz grande sentido. Estamos morrendo diariamente na morte dos que nos conhecem. Nossa extinção nunca é meramente biológica, somos levados por outrem em sua passagem. Anuncia-se ai o início de uma reconstituição de testemunhos e da vida de quem se foi. A possibilidade de uma biografia se realiza justamente nos relatos e depoimentos de quem susteve a vida de outrem ao seu redor. Se fosse possível que todas as pessoas que conhecem um indivíduo – e testemunharam sua vida até então – desaparecem repentinamente, o sujeito teria uma identidade nadificada. Precisaria construir outras relações com novas testemunhas. Seria necessário recomeçar.

Em O lugar de todos os lugares, Coutinho ajuíza:

Quando morre alguém, à sua morte sou levado em conjunção com essa obscuridade nele, fisionomicamente diluído nela, negando-me a mim no seio desse perecimento, extinto comigo todo meu repertório, o ponto intestemunhável desse alguém [...] Em outras palavras, o meu repertório enquanto se me apega, some-se no falecimento de outrem, e tanto mais densamente quando esse outrem o conhecia em grande parte. [...] sobrevindo a morte no campo das testemunhas se faz perecer em toda integridade, tantas vezes quantas são as mortes. Neste sentido, a pessoa se afigura o centro num jogo de apareceres e desapareceres de si própria [...] A acumulação de mortes no curso de testemunhada existência, significa, paradoxalmente, a destinação com que todos se afetam no esforço de prolongar a dita existência.

Já em Ser e estar em nós, afirma:

Antes que chegue o momento de se apagar a nossa luz, nascemos e morremos à medida que penetramos no álbum de outrem e nele nos perdemos por extinção do volume repleto de tantos retratos; essas existências diminutas de nós mesmos, não são mais do que modalidades que se condicionam ao nosso ato de ser, cujas decorrências serão interrompidas com a nossa morte.







domingo, 28 de outubro de 2012

Elucubrações precoces ou A Crítica da Razão Espermatosófica

A espécie lhe controla. Se esvazie e pense. 

Elucubrações precoces ou A Crítica da Razão Espermatosófica.
O verdadeiro uso da razão - os pensamentos mais puros e límpidos que têm os homens, no sentido masculino do termo - acontece no período entre a ejaculação e o reinício da espermatogênese. A maior parte do que é pensado fora desse curtíssimo intervalo de tempo vem da vesícula seminal, a nossa escravidão volitiva. A glória constante do instinto sobre a razão.