quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Mentecapitalismo


Um 2009 promissor e não esqueçamos que o mundo ainda explode.



quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A síndrome Lattes

Se você é universitário ou pós-graduando e vive aquela peculiar circunvizinhança, entenderá bem a informação abaixo. Se, por outro lado, você se encontra fora da realidade desse tipo de instituição conhecerá um pouco das doenças que ela pode causar em cidadãos comuns. Cidadãos comuns aqui são aqueles que até o 3º ano do ensino médio não têm praticamente nada na cabeça e, no processo de intelctualoidização, acabam como que se viciando em sentimentos putrefatos e costumes deletérios.

Pois bem, nos últimos tempos alguns estudantes universitários do Brasil têm sido tomados por uma nova espécie de doença crônica: a síndrome Lattes. Trata-se de uma psicopatologia de grau intenso que impele o adoentado a montar uma realidade paralela que, doravante, costuma chamar de Currículo Lattes. Neste espaço ele idealiza toda sorte de mentiras sobre si mesmo e busca incessantemente participar de eventos [por mais simplórios que sejam] buscando informações "novas" para acrescentar nesse suposto “currículo”. Depoimentos emocionados de alguns estudantes, que um dia já foram tomados por essa patologia e hoje encontram-se em clínicas de desintoxicação do Dr. Heineken, indicam que sempre que o sujeito atualiza seu currículo, seu corpo é tomado de sensações frenéticas. Essas sensações têm um caráter agudo e progressivo, ou seja, quanto mais o infeliz o atualiza mais a contingência por atualizá-lo aumenta.

Destarte, é comum encontrar indivíduos que depositam no seu currículo Lattes participações em feiras beneficentes, visitas à escolas em disciplinas de educação, ao escreverem uma simples carta à reitoria pedindo bolsa desejam publicá-la, um simples trabalho de graduação metem no currículo sem comprovação, adicionam espirros em SPBC’s, acreditam piamente que CONIC’s[1] são realmente eventos de validade, têm fé que PIBIC’s[2] são uma ocupação de verdade, ao organizar qualquer tipo de evento agridem colegas pedindo certificados[3]. Alguns clínicos afirmam que inclusive o PIBIC é uma espécie de sintoma-chave nessa espécie de esquizofrenia-paranoid, visto que compele o individuo a se auto-enganar a ponto de acreditar que está realmente ocupado com atividades respeitáveis.

Em momentos mais críticos dessa síndrome, o cidadão começa a se identificar ao seu Lattes e usa-o como defesa social.  - Quem é você? Você tem Lattes? Duvido que ele seja mais extenso que o meu! Quem você pensa que é que nem um artigo publicado tem? Urram as pessoas tomadas de assalto por essa doença. O Dr. Heineken acredita que essa patologia surge no momento em que um estudante, ao perceber que outro é extremamente bem sucedido na sua vida acadêmica, tenta desesperadamente imitá-lo e é essa atividade mimética que adoece o estudante mal sucedido. Os estudantes imitados, mesmo possuindo Lattes, não desenvolvem a doença por conseguirem separar a vida pessoal da vida acadêmica. Geralmente estes últimos são mais bem sucedidos nos seus campos de trabalho justamente pelo simples fato de não viverem em função do seu C. L.

Se você possui um filho na universidade e ele está inserido no mundo das pesquisas, fique atento para que ele não se vicie nessas sensações mórbidas: elas podem atingir graus máximos de intoxicação. Investigue os comportamentos do seu rebento em casa. Faça o seguinte teste. Observe-o com cuidado. Se ele passa horas na Plataforma Lattes buscando o currículo dos amigos, ri, ironiza e menospreza-os e considera o dos professores o hiperurano da formação acadêmica, eis um forte indício da síndrome. Se ele fala constantemente sobre o próprio Lattes dentro de casa se orgulhando daquela comunicação que ele apresentou em São Paulo ou no Rio Grande do Sul, tema por sua saúde. Se essa doença o acompanhar até o mestrado e doutorado, acredite, ele não possuirá mais nenhum traço de vida social, é isso mesmo, será um sociopata, se transmutará em uma pessoa extremamente pedante, esquecerá os amigos [que se transformarão em concorrentes], viverá falando de bolsas e viagens para congressos [cujos temas te dará vontade de rir], esquecerá a cerveja, os sorrisos, as roupas, o trivial e o leitmotiv mesmo da sua doença: as pesquisas.

[1] Congresso de Iniciação Científica
[2]
Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica
[3]
Certificados são drogas paralelas usadas pelos estudantes. Eles escondem em botijas. Acreditam que esses papéis são a verdade sobre si-mesmo.



domingo, 14 de dezembro de 2008

Heidegger para sertanejos

Passei um tempo da minha existência a carregar o Ser e tempo de Martin Heidegger, livro bastante conhecido dos alunos de filosofia e das madames da Livraria Cultura. Carregava-o debaixo do braço como um pastor carrega sua “bríba”, ou seja, uma espécie de livro de Verdades. Destarte, me locomovendo num desses coletivos da vida, um homem, que pelo belo sotaque era sertanejo¹, observou a capa do livro que estava no meu colo e questionou: - Ser e Tempo? Hum, tempo né? O que é o tempo, coisa difícil de explicar? O que diz esse livro sobre o tempo?
Parei alguns instantes e me impugnei:
- Como vou explicar o conceito de tempo [em Heidegger] para o amigo sertanejo que não leu tanto quanto os sabe-tudo da academia? Que elementos da sua realidade posso trazer à baila para facilitar o entendimento?
Eis que uma luz majestosa tomou conta do meu imaginário e prontamente o olhei e disse:
- Rapaz, para Heidegger o tempo é o tutano* da existência.
Inaugurava-se ali um tutorial “Heidegger para sertanejos.”

1 - Antes que os mais apressados me taxem de preconceituoso, não trato por sertanejo aqui alguém inculto, mas alguém Outro, de outras leituras.
*Tutano - Medula óssea. Em outros estados é o mesmo que ossobuco.



sábado, 13 de dezembro de 2008

Freud e o terrorismo [parte II]

Ora pois. Para fechar essa mini-série de jocosidades intelectualóides, exponho aqui o provável encontro do nosso herói metapsicológico com o ícone do apocalipse contemporâneo: Osama. Veja como Bin Laden tenta persuadir nosso querido vienense com a versão senso comum da psicanálise mas que, como se verá, não surte efeito algum.

clique para ampliar



Tratamento de choque?



quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Freud e o terrorismo [parte I]

Em tempos de Cultura de Paz, como a psicanálise avaliaria o enérgico e combativo comportamento dos indivíduos que lutam em nome de Deus?

No divã, com Freud, seria mais ou menos assim:

Clique para ampliar





segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Atenção heideggerianeths: a novela Heidegger.



"The Jew and the Nazi" review of Laterthanever's San Diego production by Pat Launer, sdtheaterscene.com
"The production is excellent...Beyond all the philosophy and rhetoric, this is a shocking, stirring and fiery love story, blisteringly told."

Creio ter achado o maior fetiche possível para dar de presente aos fãs de Heidegger: uma história de amor intelectual que envolve o "Pastor do Ser". Se alguém achar isso em vídeo, pelo amor de Zeus, não hesite em me enviar. Deixando a infantilidade de lado, pelo que li de alguns comentários de pessoas e entidades, pode-se notar que é uma produção realmente interessante. Retornando a infantilidade, achei uma faceta muito boa do destino um madruga interpretar Heidegger. E Hanna Arendt, que bela não? E chega! Cansei de explorar de maneira tão pejorativa a vida deste homem!

Confira o elenco.

Fonte: Laterthanever Productions.




terça-feira, 4 de novembro de 2008

Forçando a barra?

Pois bem, como se pode ver ao digitar o endereço desse domínio, faz-se menção "direta" a um pensador alemão de forte notoriedade no séc. XX. Desta feita, não se poderia deixar de dedicar uma série de posts acerca da sua vida e obra. Optei por expor querelas contemporâneas [afrancesadas] sobre sua hipotética ou efetiva relação com o hitlerismo. Para meter fim nesta etapa, e retomar as postagens aleatoriamente filosóficas, trago ao julgamento dos amigos [façam como quiserem] uma possível hermenêutica sobre a tumba de Heidegger. Isso mesmo, a TUMBA do homem! Qualquer "forçação" de barra é mera coincidência. Ao menos a utilidade deste tópico é oferecer, aos fãs, a imagem da lápide para virar papel de parede do Windows.


Ecueil sur la tombe de Heidegger.

Fonte: phiblogZophe
Tradução livre por Raphael Douglas M. T. Filho.
Confira o texto original aqui.





Qual a intenção de anexar sobre a tumba do “maior pensador do séc. XX” este tipo de estrela octogonal?
O filósofo visitante que aparecesse por ali, com a lembrança radiante das paginas de Kant sobre o Aufklärung, poderia fazer outra coisa que não começar a mergulhar dentro de um abismo de perpexidade?
O phiblogZophe permanecerá fiel a sua iconoclastia ignorante e caluniosa: esta estrela, na verdade, nada mais é do que uma cruz gamada.
Mas não viaja, Zophe, tu deliras!
Que seja, mas não fui eu quem afixou esta medalha de honra ao herói da guerra do Ser.
Então eis meu delírio, que vale tanto quanto o de Heidegger.
O Oito significa a eternidade e o infinito mas, sobretudo, o diálogo incessante do Céu e da Terra.
Sem delongas, é o Geviert completo, a quadriparte [quadrindade] em toda sua gloria:
O céu
A terra
Os mortais: Heidegger e a  "chère petite âme" geboren Petri. E nós, certamente, que vemos a tumba.
Os deuses: “Só um deus poderia nos salvar”
Mas pasmem! O famoso Geviert nada mais é que a versão “em grandeza interna” da cruz gamada nazista, do svastika.
A questão não é saber se Heidegger de fato não disse nada com o Geviert, mas o disse numa forma que não se pode não lembrar outra coisa que a cruz gamada.
Para Heidegger, fiel ao hitlerismo até a tumba, a cruz gamada é uma forma simbólica destinada a substituir a cruz cristã. É na linha da ideologia völkisch e do nazismo.
Esta medalha, que o combatente “do ser para o ser” se apropriou, é uma metáfora da cruz gamada.[1]
Poder-se-ia imaginar, no mais, um exercício de filosofia (filosofia dos símbolos) sobre o tema.
O “Rosebud” heideggeriano funciona desta maneira: o oito reenvia ao Geviert, e este à cruz gamada.

[1] Comparar-se-á o ornamento heideggeriano a esta medalha militar alemã da segunda guerra mundial. Trata-se da cruz do mérito de guerra. Não é evidente sobre a imagem, mas, ao centro da medalha, se pode perceber a cruz gamada.



segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Enquanto as coisas acontecem...

Enquanto as coisas acontecem, nós da academia e da sociedade brasileira permanecemos num "sono dogmático". Ontem, 26 de outubro de 2008 o phiblogZophe, blog filosófico do jornal francês LeMonde, publicou um grandioso resumo sobre a querela apontada dia 25/10/08 aqui em nosso blog, sobre o possível envolvimento de Heidegger com o nazismo e a edificação do seu pensamento sobre um possível pan-germanismo facínora. Não é uma constatação animadora saber que a comunidade internacional debate temas sobre a vida e a filosofia deste gigante de maneira acadêmica e também pública, já que o LeMonde é um jornal acessível, e nós aqui, na Meca do futebol, permanecemos, ainda, em leituras descontextualizadas de Ser e Tempo [Salvas exceções].
Indivíduos enaltecem-se das leituras diárias do pensador alemão, afirmam serem verdadeiros especialistas e hermeneutas da obra do aluno de Husserl, mas desconhecem, por exemplo, o processo de abertura dos seus arquivos pessoais, o que tem motivado diversos e acalorados debates entre pensadores realmente empenhados em destruir sua imagem ou defendê-la de maneira enérgica. Por favor, amigo leitor, não pense que quem escreve neste momento é um grande e pedante técnico ou perito no filosofo em questão. Ao contrário, tenho leituras humildemente parcas, sequer chego aos pés dos heideggerianeths que já citei na minha taxonomia. Na verdade os dois filósofos que me ocupo em estudar no momento me são passíveis de superação de maneira urgente, a saber: Martin Heidegger e Emmanuel Lévinas (Alemão e Judeu). A perspectiva da singularidade radical me soa tão totalitária quanto a da alteridade radical. Há como encontrar meio termo? Começarei minhas pesquisas com mais empenho na pós-graduação e quem sabe não manifesto aqui os resultados num futuro próximo?
Pois bem, voltando ao nosso assunto principal, como serviço público pretensamente neutro, repassarei a maioria dos links possíveis para os amigos leitores mergulharem de maneira efetiva nesta grandiosa altercação (desculpem a maioria destes serem em francês).
Existe apenas um texto publicado na rede em português sobre o tema.
Eu traduzi um texto introdutório de Claude Jannoud, escritor do livro O inverso do humanismo, que nos situa bem em toda esta movimentação.
O Livro de E. Faye, se desejares adquirir.

Baixe aqui o prefácio deste polêmico livro.
O curriculum do ousado E. Faye.
O site do professor François Fédier e toda sua equipe de escritores do Dossier Heidegger à plus forte raison. Existem neste domínio vídeos (um deles bastante polêmico que mostra uma possível desonestidade acadêmica de Faye), muitos textos, réplicas, artigos, entrevistas, leituras de Ser e Tempo e material afim. Para acessá-lo clique aqui.

Manifesto em 15 línguas para divulgar o livro e o site.
Fédier é autor do livro Soixante-deux Photographies de Martin Heidegger. Este é extremamente indicado aos heideggerianeths de plantão.


Capa e link da matéria publicada ontem no phiblogZhope
26/11/08


Um Debate
entre Faye e Fédier em fevereiro de 2007
Comentários interessantes de Hadrien France-Lanord : c’est mal parti!
A mais completa cronologia da obra de Heidegger para você ter a possibilidade de comparar as datas pronunciadas pelos pensadores.
Se desejarem comprar um dos principais livros de Fédier: Heidegger, anatomie d'un escandale.

Depois não venha afirmar que estava por fora dos acontecimentos sobre este assunto em pleno 2008. Sem contar que os links citados aqui abrem incontáveis outros. Boa diversão!




sábado, 25 de outubro de 2008

O caso Heidegger

Refregas sobre o envolvimento ou não-envolvimento do filósofo da floresta negra com o nacional-socialismo foram travados durante um bom tempo no pós-morte do altivo. Emmanuel Faye, filosofo francês, diretor do Centre d'Histoire de la Philosophie Moderne et Contemporaine e vice-presidente da Université Européenne de la Recherche (Paris), é autor do polêmico livro Heidegger: introdução do nazismo na filosofia, oriundo dos seus esforços críticos sobre Heidegger e o nacional socialismo. Suas teses são recebidas como ridículas por alguns acadêmicos como é caso de François Fédier que publicou um livro-dossier chamado Heidegger à la plus forte raison, que sai em intensa defesa de Martin afirmando que Faye é um caluniador. Aqui você pode ver as discussões atuais sobre esse tema desde o domínio de Fédier e seus camaradas. O Texto abaixo, de Claude Jannoud, nos situa bem e de forma resumida dentro de toda esta agitação, apontando o que há de aproveitável nas considerações de Faye e por que o alemão não pode ser injustiçado deliberadamente. Em breve, publicarei as fortes réplicas dos seguidores de François Fédier que acreditam ser Feye o mais desonesto leitor de Heidegger de todos os tempos.



Claude Jannoud / 16 de Abril de 2005.
Tradução: Raphael Douglas M. T. Filho
Para ver o artigo original clique aqui.
Para constatar onde
toda esta querela começou, baixe o prefácio do livro, Heidegger: a introdução do nazismo na filosofia.[FR]


Uma obra inquisitória afirma: o filósofo fez de teorias nacionais-socialistas o fundamento mesmo da sua obra

A acusação[1] de Emmanuel Feye contra Martin Heidegger é implacável. Nazista de coração, o autor de Ser e Tempo já era antes da ascensão de Hitler ao poder em 1933. Logo que foi nomeado reitor da universidade de Friburgo, sua declaração de amor pelo Führer não foi fortuita. Sua fidelidade ao regime, até seu desmoronamento, nunca foi desmentida. Após a guerra, Heidegger se esforçou, falsificando seus cursos dados durante esse período, em obter uma nova virgindade, mais ele jamais negou seu passado, nem pediu perdão. Racista, Heidegger permaneceu assim até sua morte. É, afirma Emmanuel Faye, o fundamento de sua filosofia.

A raça e o sangue

O autor, para sustentar essa tese, não mediu esforços. Ele segue de perto o culpado desde 1920. A partir dessa época, o anti-semitismo de Heidegger é sensível. Ele se vale, por exemplo, da invasão judaica na universidade alemã. De acordo com Faye, Ser e Tempo, que fará de Heidegger célebre do dia para a noite, não é uma empresa puramente filosófica, mas um projeto político que se inscreve nos fundamentos mesmos do nacional-socialismo. Dá como prova o parágrafo 74 sobre a comunidade de destino de um povo.

Em 1933, reitor na Universidade de Friburgo, Heidegger apura. Os professores e estudantes judeus são cassados. Ele aceitará a exclusão do seu mestre Husserl. Segundo alguns, teria tomado distância dos nazistas logo que foi demitido em 1934 do seu posto de reitor. Faye não compartilha dessa opinião. Em 1936, no seu curso, Heidegger faz um novo elogio a Hitler.

A partir dos seus primeiros cursos sobre Nietzsche, em 1936-1937, na ocasião de uma importante passagem suprimida na edição de 1961, mas restabelecida em 1981, Heidegger se porta violentamente contra a democracia, apresentada como a morte histórica da Europa. Em 1941-1942, no seu curso redigido, mas finalmente não pronunciado, sobre a metafísica de Nietzsche, não hesita em apresentar o treinamento dos homens e o princípio de uma seleção de raças como filosoficamente necessárias. De acordo com ele, a vontade de potência está ligada à raça e ao sangue. Em 1945, esperando passar por adversário e perseguido pelo regime, Heidegger declarou que na época dos seus cursos sobre Nietzsche fora supervisionado pelo serviço de segurança do Reichsführer. Se é verdade que tal relatório foi redigido em 1938, é no entanto benevolente: “Ela aprova o Estado nacional-socialista? Sim.”, “É politicamente confiável ou não confiável? Confiável.” Sua demissão do reitorado, em 1934, não é percebida como a expressão de uma tomada de distância em relação ao regime: “Deixou o seu posto dado que não possuía as capacidades táticas requeridas para assumi-lo.”

Após essa longa acusação, Emmanuel Faye conclui: “Na obra de Heidegger, esses são os princípios mesmos da filosofia que são abolidos. Como se poderia considerar como filósofo um autor que se serve de palavras as mais elevadas para além da filosofia para exaltar a potência militar do nazismo e justificar a mais mortífera discriminação? Tal obra não pode continuar a figurar nas bibliotecas de filosofia.” Mas como, nesse contexto, Heidegger pôde conquistar popularidade mundial, notadamente na França?

Uma devoção que perdura

Houve três grandes períodos do culto a Heidegger entre nós, como recorda Emmanuel Faye. Sartre foi o principal ator da primeira. A influência de Ser e Tempo sobre O Ser e o Nada é importante. A segunda onda, oposta à primeira nos seus pressupostos, foi inspirada pelo anti-humanismo da geração de Althusser e de Foucault. Os representantes da terceira retomaram o mesmo heideggerianismo do fim da metafísica e da sua superação. Daí nasceu a “desconstrução”, ilustrada por Derrida e por outros, que exportaram para os Estados Unidos. A devoção perdura, aliás, na nova geração; como prova, o importante livro, não somente por seu volume mas também por sua erudição, de Maxcence Caron[2] que absolve o filósofo de todo racismo.

Nesse contexto, a Gallimard[3] acaba de publicar um livro de Heidegger cuja primeira parte é justamente consagrada ao curso do semestre de inverno 1941-1942 que se intitula A metafísica de Nietzsche. Que Nietzsche, contrariamente ao que ele acreditava, foi o último metafísico, Heidegger já tinha dito repetidamente. É a influência da metafísica da história ocidental que há vinte séculos é o tema maior e original desse curso. Os europeus, disse Nietzsche, foram incapazes de inventar um Deus durante dois mil anos. Os tempos modernos, os progressos gigantescos da técnica, uma nova barbárie são o resultado dessa longa história. “Nem mesmo a privação do país terá sido poupada, na ausência de Deus e na ruína do mundo, ao homem dos novos temposO país para Heidegger, é a Alemanha, a dos poetas e dos pensadores. “A potência do entendimento que se limita a fazer contas grosseiras invadiu a Alemanha.” Esses propósitos de Heidegger confirmam, em certa medida, as teses de Emmanuel Faye. Ele foi realmente um nazista até a derrocada final, porque estava convencido da superioridade dos alemães, os sucessores dos gregos. Ele detestava essa época, assim como a democracia. Sobre esse tema, permaneceu irredutível até a morte. Heidegger foi um grande filósofo? O porvir o dirá, mas foi um professor extraordinário; como em testemunho, a admiração dos seus alunos, entre eles numeram judeus que se tornaram famosos, Arendt, Jonas, Marcuse, Levinas, que não perdoaram seu comportamento em 1933, mas nunca esqueceram o que lhe deviam.



[1] Heidegger, l'introduction du nazisme dans la philosophie, autour des séminaires inédits de 1933-1935, d'Emmanuel Faye, Albin Michel, 576 p., 29?.
[2] Heidegger, pensée de l'être et origine de la subjectivité, de Maxence Caron, éditions du Cerf, 1760 p., 89?.
[3] Achèvement de la métaphysique et poésie, de Martin Heidegger, traduit de l'allemand par Adeline Froidecourt, Gallimard, 208 p., 19?.




quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Corroborando minha teoria

Não sei se os estimados leitores recordam, mas sustento que a filosofia [acadêmica] tem feito parte do macambúzio circuito da infância do mundo. Comparei o "estudo" da filosofia a um álbum de figurinhas do campeonato brasileiro ou ao supertrunfo, um cardgame que ficou bastante famoso anos atrás. Eis um breve trecho:

Afirmo que a carreira filosófica, do modo que é tratada em nossos dias, mostra-se demasiadamente infantil. Isto por que tornou-se mais uma atividade genérica entre um grupo "seleto" de indivíduos. Mais de dois terços das atividades humanas são realizadas por necessidade de escoar a carência e a eterna infância da qual o âmbito dos humanos é, inexoravelmente, refém.

Possuir uma TV de 29 polegadas é um desejo infantil, um estádio de futebol é uma obra arquitetônica que tem como base a puerilidade dos homens, um técnico de futebol, que aos seus 70 anos, continua nessa "profissão", é consideravelmente infantil, o Estado é a necessidade de abrigo para crianças desamparadas (os cidadãos). Tanques de guerra, armas nucleares, cirurgias plásticas, cadeiras com design arrojado, controles-remoto, satélites, mídia, realities shows, formatura, talheres de prata, um império, uma Ferrari, fast food, exibicionismo, um texto como esse, a vaidade, internet, prédios, sexo grupal, anti-depressivos. A necessidade de fabricar, construir, fazer, comunicar, provar, reprovar e produzir a qualquer custo é sinal patente de como o ser humano é um animal completamente tomado por seus medos e fraquezas mais infantis. Por que seria diferente o envolvimento desse ser pueril (os habituais) com a velha senhora, a filosofia? Leia mais...

Destarte, desbravando os infindos cantos da internet, encontrei o seguinte cartoon que corrobora minha teoria de maneira substancial que até então compreende a infância do mundo, a necrofilia filosófica o fanatismo e a monotonogamia filosófica. Este work in progress encontra-se desentranhado no post sobre a taxonomia dos estudantes de Heidegger e no aforismo que diferencia um estudante de filosofia e um fã de filósofos.

- Ok então, eu troco com você meu Kierkegaard pelo seu John Locke...
- O quê? Trocar o fundador do empirismo britânico por merda velha existencialista? Cai fora!




quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Parmênides, Deus e uma criança de 5ª série.

Num dado momento da minha experiência de ensino de filosofia, me encontrava numa aula para a 5ª série de uma escola da rede particular. Na 5ª série eles não ultrapassam os doze anos [se estiverem naturalmente seguindo bem na escola]. Um aluno nesta idade é (como postula um grande amigo e professor) “uma massinha de modelar bem molinha e de boa vontade”. Pois bem, falávamos do eleáta Parmênides, grandioso filosofo pré-socrático cuja filosofia sustentava a eterna permanência e estabilidade do Ser: o pathos da eternidade. Apenas o que importa é o Ser, o não-ser não pode ser conhecido, logo não possui validade real. O Ser é e o não-ser não é, dizia. Neste sentido o Ser seria Uno, Eterno, incriado e Imutável. Eis que exponho ao público desta tão jovem classe a sua famosa frase: “Do nada, nada pode nascer”. Neste sentido não haveria evolução, o homem não viria do macaco, nada se transformaria em nada. Tudo, após a criação, está posto e continuará sendo como sempre foi: pau que nasce torto nunca se endireita (eis um belo provérbio para as crianças entenderem Parmênides). Logo após proferir a frase deste filosofo originário, uma das crianças situadas à minha extrema direita manifestou certo incômodo e não tardou para que suscitasse o seguinte questionamento:
- Professor! Seguinte, se “Do nada, nada pode nascer”, de onde vem Deus?
Naturalmente que fiquei atordoado, afinal, para pessoas tão jovens o “amén” é via de regra.
- Veja bem meu querido – respondi – Deus só é Deus por que é incriado, é causa de si mesmo, pois, se houvesse sido criado seria criatura, logo, não seria Deus.
Ele parou alguns instantes e voltou a se incomodar. Eu senti de fato que ele redargüiria. Fiquei esperando apreensivo para ver até onde poderia ir um espírito tão livre e tão inexperiente. A desordem que imperava ao meu lado esquerdo foi emudecida pela espera do que sairia da gulliver daquele guri. E eis que, depois de bons minutos, ele questiona:
- Professor! Então quem foi o Deus que criou Deus?
Confesso que me constrangi ao máximo. Primeiro por me orgulhar da profundidade na qual ele havia já chegado. Segundo por que não poderia, infelizmente, dentro de um colégio cristão, responder com a seguinte imagem:





domingo, 21 de setembro de 2008

A língua portuguesa possui um leve caráter nazístico? Há um padrão a ser seguido?

Quando alguém diz que odeia o sotaque nordestino, o mineiro ou o gaúcho, diz, de maneira inconsciente, que o modo normal de falar português está sendo desvirtuado. Sabe-se que no Brasil existem diversas maneiras "menores" de usar esta bela língua que nos foi imposta por Portugal.
O que seria de fato esse “modo normal”? E por que essas maneiras menores (os conhecidos sotaques e regionalismos) devem ser suprimidas, pisoteadas e vistas como uma aberração ou atraso na maneira "ideal"? Por que elas deveriam se submeter a esse modus padrão? Para além de análises históricas, antropológicas ou políticas, a questão central que vem à luz neste tema, diz respeito a uma dominação estética obtida por uma maneira de se falar português que não se vê articulada no Rio grande do sul, em Rondônia, em Belém do Pará, em Pernambuco, em Santa Catarina, no Espírito Santo, Em Cuiabá e mesmo em alguns lugares de São Paulo e do Rio de Janeiro. Alguns dos nossos confrades brasileiros acreditam que o afastar-se da maneira ideal de articular a língua portuguesa é um retrocesso dentro da sua reta pureza.
Analisemos um trecho retirado, adaptado e alterado do filme O fim e o princípio de Eduardo Coutinho:
Alguém que entrevista: posso te perguntar uma coisa?
Alguém entrevistado: S’eu subé eu li dig.
Alguém que entrevista: Em quem você confia mais?
Alguém entrevistado: 'In' mamãe, 'pque' mamãe me deu de mãmá, me deu papa, me 'trocarra' de ‘frada’ e aquele ‘negoço’ todo, e ainda hoje eu sinto... eu sinto que minha mãe me ‘qué’ bem”.

Por que o estilo de articular a língua portuguesa visto acima seria um retrocesso na língua e não uma inteligente e eficaz maneira de adaptá-la de tal sorte que ela se torne mais eficiente na sua transmissão? Não seria essa a grande idéia da “atual adaptação da linguagem” na internet? Ou vc axa ki escrevê assim ñ eh uma manêra de adaptar a língua de tal modo ki ela seja + rápida na sua transmissão? Qual é a diferença essencial nos exemplos acima? Por que esta última, mesmo sendo mais efetiva na alteração do rumo "normal" da língua, é menos discriminada? Aliás, transmito a pergunta d’outra forma: por que o modo de falar que aparece nos nossos telejornais seria de fato (mesmo que não de direito) o correto? E ainda mais: qual o real motivo que o torna este a situação, o “correto”?
A dinâmica da cultura e do ethos esclarecem de maneira simples. A roda do tempo traz consigo a antiga porém atual idéia de Heráclito da eterna e essencial mudança pela qual todas as coisas passam. Tudo muda e o que envelhece tende a ser domado pelo mais novo que está em sublevação. Certamente Heráclito já deveria saber que as épocas que o sucederam trouxeram à luz o fato de que a humanidade viveu num nível de duelos, combates e refregas tão constantes, que alguns grandes espíritos constataram que a competição, a supressão do adversário e a glória tornam-se predicados muito fortes que se ajuntam àquele belo e pacífico estado selvagem do qual falava Rousseau. O vencedor geralmente impõe seu modo de vida ao derrotado. Isso não exclui de modo algum o campo de ação da língua. Assim, não desejo analisar aqui a raiz da formação do sotaque gaúcho ou nordestino, se foi devido a imigração ou ao encontro de índios com negros, índios e europeus, negros e europeus, entre outros fatores. Apenas quero suscitar na mente de alguns leitores que, depois de tomarem vida própria, por que o resultado do relacionamento entre elas resultou no "vencedor" que conhecemos hoje? E por que algumas maneiras são completamente chacoteadas e rechaçadas?
Se analisarmos detidamente, notaremos que a língua portuguesa já foi bastante respeitada em algum momento do XV, na época das grandes navegações. Afinal, técnicos, intelectuais, pensadores e astrônomos que desenvolviam todo aquele maquinário náutico tinham como língua nativa a língua de Camões e a usavam muito bem na Escola de Sagres. Logo, ao serem procurados por outras civilizações que gostariam de conhecer as técnicas utilizadas na época, estariam espraiando a necessidade de compreensão da língua de D. João III. Quando a confiança técnica em Portugal perde espaço para outros países cujas línguas hoje fazem grandioso sucesso, naturalmente ela perde aquele espaço, é fatalmente apartada. Assim aconteceu com os “dialetos” brasileiros que, como no caso do caso analisado anteriormente (a maneira do sertanejo propagar sua linguagem), foi fatalmente apartado daquela hipotética maneira ideal de articular o português.
Mesmo não sendo uma linguagem determinante nas relações internacionais, no Brasil ela assumiu uma gama de formas que, como já antecipamos, não se equiparam a maneira “normal”. Logo, e agora sim adentrando superficialmente à política, a região do país que mais se destacasse em competição com as outras (naturalmente através dos “políticos” e o jogo dos seus interesses) desde a colonização até o período da industrialização, conseqüentemente faria seu modo de efetivar a língua portuguesa tomar um campo de dominação que, de ideal, viria a ser a situação da “modo perfeito” de proferí-la.
E nesta guerra de "todas as línguas contra todas as línguas", ou melhor, de "todas as linguagens contra todas as linguagens", no Brasil vemos claramente quem é o vencedor:





segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Nota de falecimento [Richard Wright]




Morre aos 65 anos Richard Wright, tecladista e fundador da banda inglesa Pink Floyd. Como a estética musical é imprescindível aos produtores de qualquer tipo de conhecimento, deixamos registrado aqui nossa homenagem a tão ilustre personagem. Sem lamentações exageradas e sem mais palavras, apenas agradecemos sua existência e o que dentro dela nos foi oferecido. Mais...



Você pode estar se perguntado qual a relação dele com a filosofia. Escute os primeiros álbuns da banda e entenderás.



sábado, 13 de setembro de 2008

[Piada Interna] Taxonomia do estudante de Heidegger.


Taxonomia do estudante de Heidegger

1º O Heideggerianta, Heideggerialóide ou Raidiguériano – Adjetivo auto-explicativo. Este é uma espécie de estudante de pouco pejo. Assim como "o jornalista* que leu Ser e Tempo e não entendeu” (essa frase não fui eu quem inventou), lê o nazistão** como se fosse auto-ajuda. É de fato um Joselito que, mesmo presente a um velório, suprime o clima fúnebre ao pronunciar frases de efeito como: - Pessoal, é assim mesmo, todos nós estamos fadados a morrer, é uma característica inexorável do ser humano, é um existencial, como diria uma filosofo que eu conheço, o ráidigué.
**Não entendeu por que Nazistão? Clique aqui ou aqui e informe-se sobre.

2º O Heideggerianóide – Chiste com o objetivo de mesclar a terna “palavra” Heidegger com a maquinosa palavra andróide. É bastante normal no estudo da obra de qualquer autor o “andróidismo filosófico”, a mimética macacóide e papagaióide, ou seja, a imitação e mera reprodução. Aliás, é condição inexorável que um estudante de graduação em filosofia seja doutrinado e, conseqüentemente, imite e reproduza conceitos de maneira robótica. O esforço desta espécie resulta como uma tentativa de traduzir um texto de Shakespeare no Google Translate: para quem não conhece a língua, ajuda, para quem a domina doem o ouvido e o espírito. Em suma, imagine um robô tentando rebolar como uma morena da Sapucaí.

3º O Heideggerianeth – Se você pensou: - ei, isso me lembra as chacrets, aquelas vedetes do Chacr
inha! você foi feliz na opinião. Um(a) heideggerianeth se emociona profundamente ao ler a biografia do alemão realizada por Safranski e arranca os cabelos tornando-se histérico(a) se tu cogitas a possibilidade do filósofo de Ser e Tempo ter se filiado ao Partido Nazista. Geralmente ostenta em algum cômodo da sua residência uma foto com uma pose muito marota do pensador (isto quando não ergue um altar em sua homenagem). Dentro da sua circunvizinhança tenta, de maneira ridiculamente prosélita, arrebanhar colegas para grupos de estudo. Arrota em qualquer oportunidade a belíssima e aristocrática história de vida intelectual deste inesquecível filósofo ocidental. (Atenção: não existem filósofos orientais meu rapaz!) <--- Outra piada interna.
Sobre esta espécie de estudante, confira aqui a diferença entre um fã de filósofos e um estudante de filosofia.

4º O Vaideggeriano – O estudante Maria-VAI-com-as-outras. Assim o é por ter se esgotado, se entediado ou se esfalfado de ler Rousseau, Maquiavel, Descartes, Kant, Hegel entre outros vovôs. Encontra-se, portanto, sem uma figura paterna para sanar seu desamparo infantil. Desta feita, sai desesperadamente em busca de algum filosofo com “tutano”, que seja impressionante ou, em último caso, lhe dê uma monografia de impacto ou ao menos lhe insira na moda. Esta espécie de estudante geralmente é convertido ao heideggerianismo pela terceira espécie supracitada: o heideggerianeth.
5º - O Heideggeriano - Fez doutorado, especialização e 4 pós-doutorados na Alemanha. Afinal, só “se pode filosofar em alemão”. Ou, quando não, estuda responsavelmente a obra do germânico mesmo em língua portuguesa. Em relação a este não se pode chacotear, afinal, é o único que pode ser, em certa medida, levado a sério. Apenas os analíticos crêem que é uma estupidez levar a sério uma filosofia da existência. Mesmo assim, a obra do pensador em questão, se levada realmente a sério, mostra-se como uma das maneiras mais eloqüentes de analisar o homem (é isso mesmo!), sua “queda” no mundo e sua relação com o fado da sua finitude.
Bônus:
6º - O Heinekeriano – O estudante que ama citar Heidegger quando está em lugares sagrados [bares], consumindo bebida sagrada [cerveja] para impressionar criaturas sagradas [mulheres] ou [Homens] dependendo, naturalmente, da opção sexual.


N.B: Admiro a forma grandiosa da obra deste camper. O humilde estudante que vos fala crê encontrar-se num ponto intermediário entre o heideggerianta e o heideggerianóide, professando, ainda, uma fé heinekeriana.
Agradecimentos especiais: Franzé, Pedro, Diogro, Severino e todos aqueles que me ajudaram, de uma maneira ou de outra, a desentranhar uma ou mais das especies citadas acima, cabendo a mim fazer a despretenciosa descrição.



segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Existenciarte: condições suficientes e necessárias para a "evolução" da humanidade.

Salve salve Schopenhauer! (não entendeu? baixe aqui, leia e conclua por que as imagens abaixo possuem certa comunhão com uma célebre e odiada obra deste pensador alemão).

Clique para ampliar
Obra de arte realizada por Milo Manara.

É necessário escrever algum texto tendo posse d'uma expressão tão forte como essa? Aproveitem e bom jogo.

Não deixem de observar como a religiosidade perpassa de maneira bizarra cada época elencada. A hipocrisia é um dos pilares mais fortes da moralidade.



segunda-feira, 25 de agosto de 2008

"A morte não é um evento da vida" ou breve análise da obra "Death and Life" de Gustav Klimt.

É por que ela [a morte] não repousa sobre nada, por que carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido. De tanto acumular mistérios nulos e monopolizar o sem-sentido, a vida inspira mais pavor que a morte: é ela a grande desconhecida. (Emil Cioran)
A frase acima agita a analise que se segue. Interpretemos a finitude desde uma luminosa obra de Gustav Klimt. No cenário, à esquerda, encontra-se a morte portando um pequeno tacape às mãos. Com sua face sombria, ameaçadora e lôbrega observa “esperando” o momento mais propício—momento em que a vida tombará, não mais resistirá—para apoderar-se dessa vitalidade que persevera em se manter existindo.
À direita o ciclo da vida se sustém. Nascimento, desenvolvimento, o adolescer, emoções, alegrias, tristezas, reprodução, enfermidades e todos os sentimentos e fases físicas próprias aos homens, obedecem a uma fluidez inexorável que só poderá ter seu fio interrompido através da “chegada” dessa senhora, dessa alteridade misteriosa que vem até nós e toma de assalto o que lutamos para suster, como no connatus essendi proposto por Espinoza, ou seja, o esforço por perseverar em seu próprio ser e conseguir meios para que essa manutenção seja mais intensa e eficaz.

Nota-se nesta obra que a morte é ignorada a maior parte da nossa existência. Ela “olha” para nós de forma constante. Todavia não a analisamos, nem a “olhamos” constantemente, nem discursamos sobre ela diariamente. Com exceção das situações as quais ela inexoravelmente é a “bola da vez”: velórios, morte de parentes, desastres, guerras. É justo afirmar que não há quem não pense profundamente na morte se quer uma vez na existência, é fato. Entretanto—como já adotamos aqui—a vida é que se apresenta como um enigma indecifrável. A morte é demasiadamente certeira e não há respostas sobre o que ela “seria”. Sendo assim, a máxima wittgensteiniana «a morte não é um evento da vida» nos é muito cara. Em contrapartida seria ingenuidade da nossa parte ignorar a importância da morte para a história da filosofia—como propõe Schopenhauer. Porém, a importância que a morte subsidia para a vida é de caráter confirmativo onde uma é a condição de possibilidade da outra. Só há a possibilidade de analisar a própria morte vivendo, existindo.

É a vida e o vivente que conferem sentido a morte, seja através do discurso, seja do imaginário, do religioso, do místico, do folclórico. Ser para a morte é uma constatação demasiada exata. Todavia o perseverar na vida, no tempo em que se tem para continuar existindo, é tão forte ou até mais intenso do que essa caminhada até a inefetividade. “Ser temporal é ser ao mesmo tempo para a morte e ter ainda tempo, ser contra a morte”, afirma Emmanuel Lévinas.
Logo, a morte é que tem sentido dentro da vida e não a vida face à morte. Basta examinar a quantidade de concepções acerca da morte e do morrer dentro do globo. André Comte-Sponville, ilustre filósofo contemporâneo (1952), atualmente professor na Universidade de Paris, é assaz bem-sucedido na sua fala para o justo entendimento do nosso apontamento.
A morte é a regra, da qual a vida é a exceção. Nesse caso, porém, a regra só tem existência pela exceção que a desafia sem violá-la, que a confirma sem nela se perder. Aquilo que vivemos, a morte, que prevalecerá, não conseguiria abolir – por que a vivemos, por que teremos vivido eternamente. Todos os seres vivos morrem, e só eles, sem eles a morte não seria nada. Isso significa que é a vida que vale e que dá valor: mesmo a morte só tem importância por ela.
Os convivas heideggerianos diriam: “o buraco é mais embaixo”. Redargüiriam dizendo que a morte é o existencial, o que há de próprio no homem e as expressões acerca dela—sejam religiosas ou filosóficas, à exceção de Heidegger certamente—são modos possíveis de abordar a morte, modos ônticos. A filosofia do “buraco é mais embaixo” corre sérios riscos de se soterrar dependendo da profundidade dessa fenda.



quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Eleições: a época mais deprimente das nossas vidas.

É de uma dor mortis ter de conviver com essa espécie malacafenta de seres humanos os políticos buzinando nos nossos ouvidos e explorando nossa paciência visual todos os dias com seus cartazes e uma peculiar maneira viral de fazer auto-propaganda. Como é que poderemos ceder qualquer crédito a um candidato cujo jingle é uma paródia de “chupa que é de uva”? Clodovil está no congresso? E daí? Aplaudi o povo brasileiro quando soube da sua vitoriosa campanha. Isto denota que, ao contrário do que normalmente se imagina, essa nação é capaz de reagir contra os desmandos e depravações de Brasília. Se há um monte de criaturas excêntricas nos governando, por que não colocar alguém um pouco mais sério do que eles?


Como posso abonar, com meu voto, um candidato que já ajudou a defraudar a prefeitura da minha cidade? Este mesmo tipo de agente deletério encontra-se, na presente época, lindo, convertido e maquiado numa foto gigantesca estampada numa casa alugada na avenida onde moro, prometendo que vai doar até um dos seus rins para que a população viva melhor. A cretinice, de fato, toma conta desse nicho ecológico social. Parece-me que é diretamente proporcional à canalhice de um candidato, o número de votos que ele recebe.
Tive a in-feliz oportunidade de acompanhar de perto a historia de um prefeito de uma dessas tristes cidades do interior do Brasil, que deixou de remunerar TODOS os funcionários públicos da cidade [inclusive o seu vice] durante seis meses, exceto seus capangas, naturalmente. Depois disso, de maneira milagrosa, brotou ao meio da cidade uma casa faraônica com auxílio apenas do seu limítrofe salário de prefeito. Todos os cristãos sabem que Jesus é grande, ele transmuta uma simples remuneração em uma gorda fortuna, assim como multiplicou peixes e pães, basta retirar dos pobres e doar a si mesmo apenas te fé.
Como podemos diletar por mais de dez minutos sobre democracia, se no nosso distinto país um saco de cimento, um simples privilégio, uma “furada de fila” num hospital, entre outros atrativos miseráveis, conseguem comprar o voto? O Brasil é, sem dúvidas, um país bizarro pitoresco.
A esquerda virou situação e me lembra um pouco a direita do sociólogo desvairado ilustre Fernandinho "privatizar" Henrique. A direita está escandalosa por que necessita urgente tirar essa “raça do poder por pelo menos 30 anos” (não entendeu? Clique aqui). É por isso que prescrevo aos meus amigos: durante a sorumbática época de “eleições”, se te perguntarem se és Esquerda ou Direita, responda prontamente que sofres d'um alto grau de dislexia. Em suma, não desejo ser cúmplice de uma guerra entre gerentes.
Você pode estar pensando agora o quanto eu me enquadro perfeitamente bem no perfil do Analfabeto Político de Bertold Brecht.
Para todos os efeitos, o bom Deus nos proteja e que nessas eleições o candidato mais indicado ate então [aquele que jogou pela seleção na copa de 94, fez inclusive um gol salvador contra a Holanda] consiga obter algum êxito. Aos que ainda acreditam nos profissionais do picadeiro nobre esforço político, peço encarecidamente que, nos comentários desta postagem, tentem me convencer que ainda vale a pena votar. Diga-me, por favor, que ainda existe gente séria na esquerda e que na direita ainda existem liberais sérios, aqueles liberais teóricos que, por serem sérios ou teóricos, não se candidatam.



sábado, 16 de agosto de 2008

Categorias de aristóteles, os Emos e os Clubbers.

Aristóteles?

O que faz de um gato um gato e não um cachorro? O que faz uma pedra não ser um garfo? O que diferencia essencialmente as coisas? Por que a essência do Leão é a sua leonitas, a da cadeira é a "cadeiridade" e a essência do homem é a "humanidade"? Por que Dercy Golçalves não é Hebe Camargo, Por que Tony Blair não é Helmut Kohl, por que Thiago Pereira não é Michael Phelps, por que Lula não é Fidel, por que eu não sou você, amigo leitor e, finalmente, por que um Emo é um Emo e não um Clubber? Convoquemos aqui o analista e sistematizador dessas diferenças entre o ser das coisas e o modo de ser das coisas. Eis que tratamos do pai das ciências, o afamado Aristóteles. A necessidade de diferenciar, decompor, classificar, dividir, separar, apontar em que consiste a essência e o que é exatamente o predicado de um ser, foi o motor da edificação das suas Categorias.

Para analisar os predicados ou gêneros de um ser é necessário fazê-lo à luz das suas 10 categorias:
Substância (substantia), quantidade (quantitas), qualidade (qualitas), relação (relatio), lugar (ubi), tempo (quando), estado (situs), hábito (habere), ação (actio) e paixão (passio).

*Por favor Abbagnanno Help us!
[baixe aqui o dicionário.]

As Categorias são os modos em que o ser se predica das coisas nas proposições, portanto os predicados fundamentais das coisas. Enumera dez categorias, exemplificando como segue: lª - Substância, p. ex.: homem ou cavalo; 2ª - Quantidade, p. ex.: dois côvados; 3ª- Qualidade, p. ex..- branco; 4ª - Relação, p. ex.: maior; 5ª - Lugar, p. ex.: no liceu; 6ª - Tempo, p. ex.: ontem; 7ª - Posição, p. ex.: está sentado; 8ª - Ter, p. ex.: usa sapatos; 9ª Agir, p. ex.: cortar; 10ª Sofrer, p. ex.: ser cortado (Top., I, 9, 103 b 20 ss.; Cal, 1 b 25 ss.). A relação entre as Categorias e o ser é assim explicada: "Porquanto a predicação afirma às vezes o que uma coisa é, às vezes a sua qualidade, às vezes a sua quantidade, às vezes a sua relação, às vezes aquilo que faz ou o que sofre e às vezes o lugar onde está ou o tempo, segue-se que tudo isso são modos do ser” (Met., V, 7, 1017 a 23 ss.).

Prosseguindo, qual a diferença entre essência e predicado?

Simples. Essência é o universal, a substância primeira do ser, o imutável, o “inextraível" de um ser. O homem sem a racionalidade, o que seria? [não cometa a indelicadeza de pensar que seria um político!]

Ex:

*Homem (humanidade é a essência, a substância),
*Cavalo (a cavalitas, ou cavalidade, é a essência, a substância, o caractere universal),
*Música (musicalidade é a substância, a essência),
Enquanto que os predicados são características acidentais. Algo que se ajunta a substância primordial e não a altera, do ponto de vista metafísico, em nada.

Ex:

*Homem negro ou homem branco (ser negro ou ser branco são acidentes que se ajuntam à humanidade);

*Cavalo de corrida (o fato de ser corredor é um acidente que se ajunta à "cavalidade" afinal, nem todos os cavalos são de corrida);
*Brega, dub, trash metal, cumbia, arrocha ou ópera (ritmos acidentais na essência, na musicalidade);

Pois bem. Ser [ou optar ser] Emo ou Clubber manifesta, ex-põe apenas o acidental, são predicados que se agregam essência do homem. Nesse sentido, como entender a diferença específica entre ambos, já que são caracteres adicionados ao humano que tanto se assemelham? A tarefa pode ser equiparada ao entendimento da diferença específica [diferenças entre as espécies] entre um cavalo bretão e um Manga Larga, entre uma formiga Acromyrmex e uma Camponotus, entre um jegue e um jumento, entre um calango e uma lagartixa, entre Jader barbalho e Renan Calheiros.

Pode-se notar, claramente, que Charles Darwin, grandioso evolucionista, herda diretamente de Aristóteles esse modo de classificar os seres. Antes que os mais inteligentes me chamem de imbecil, tenho a justa medida que Aristóteles não era evolucionista, afirmo apenas que o ilustre naturalista britânico tomou para si e aperfeiçoou as categorias enquanto método. Recordemos:


Pois bem, a diferença específica refere-se às propriedades essenciais e particulares de cada espécie. Desta feita, se conhecemos um tipo de espécie, é forçoso que conheçamos a especificidade das suas diferenças.

Ex: Gorilas possuem em comum o gênero, a “macaquidade”, mas, entre si, dependendo da região, da alimentação e de diversos outros fatores podem diferir quanto a estatura, modos de acasalar, modos de exercer o territorialismo, etc. [E olhe que só existem duas espécies!]

Chegamos assim ao desfecho dessa apreciação fast-food sobre as categorias aristotélicas, cujo leitmotiv foi tentar entender a diferença específica entre Emos e Clubbers já que, como diria o discípulo de Platão, “a ciência conhece o homem e não o Emo ou o Clubber. Sem dúvida o que eu souber sobre o homem me ajudará a conhecer melhor o Emo e o clubber, mas conhecê-los já não é ciência.” Ou seja, só há ciência do universal, de caracteres comuns observáveis em diversos indivíduos. No momento em que uma ciência faz referência ao particular está se referindo à espécie.
Homem Emo e Homem Clubber, portanto, apenas se diferenciarão na última camada: a espécie.

*Homem:
Reino - Animalia
Filo - Chordata,
Classe - Mammalia,
Ordem - Primata,
Família - Hominidae
Espécie - Emotivus/Luminosus.

Representemos em formato besteirol: