quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

In vino veritas!

Eu já tive a oportunidade de ouvir dizer que a bebida simboliza a desmedida e intemperança. Pensando nisso e na quantidade de álcool que consumo e ainda consumirei na vida, trago à baila - para nossa apreciação - as palavras de um dos mais ilustres pensadores que Roma poderia ter inserido no espírito do tempo: trata-se aqui do Estóico Lucius Annaeus Seneca (Córdova, 4 a.C. — Roma, 65 d.C.). Sem a intenção de florear nem diletar demasiadamente sobre a obra desse ilustre (que trata sempre de como abranger uma vida pautada pelo comedimento), tratemos de forma douta e sapiente de um assunto que não diz respeito apenas aos ébrios e aos que bebem inadvertidamente, mas, às pessoas que desejam buscar um pouco de desprendimento de si-mesmo e buscam, da mesma maneira, sensações etéreas que amaciem, sosseguem, apazigúem, abrandem, atenuem e dêem acesso as verdades que ficam veladas no ser do mundo. Segundo o pensador romano, vejamos o que certo acesso a embriaguez pode proporcionar ao espírito do homem (Grifos nossos);

Retirado da obra A traquilidade da alma


Capítulo XX


A função da bebida como anti-estresse

Convém indulgência para o espírito. Assim, de quando em quando, devemos conceder-lhe algum repouso que age sobre ele qual alimento restaurador. Os passeios devem ocorrer em paragens abertas a fim de que o espírito fique estimulado com o ar puro.
De vez em quando, um passeio de carruagem, uma viagem com mudança de espaço. Isso traz vigor novo.
Também uma refeição alegre e uma bebida mais copiosa. Por vezes, pode até tocar as raias da embriaguês, não a ponto de submergir nela, mas, apenas, a ponto de descontrair, já que ela dissolve as inquietações, mexe até na raiz de nosso ânimo, curando certas tristezas como também até enfermidades. “Líber” [Baco, Deus do Vinho] foi denominado o inventor do vinho não por causa da liberdade que comunica à língua e, sim, porque libera o espírito da escravidão dos afazeres e fortalece, dando-lhe mais vigor e audácia para novos projetos.
Tal como para a liberdade assim também para o vinho é saudável a temperança. É crença que Sólão [Lesgislador Grego, IV a.C] e Arcesilau [filósofo platonista] eram dados ao uso do vinho. A Catão [foi estadista, cônsul e censor em Roma] censuravam a embriaguês. Seja quem for que o criticava, é mais fácil o vicio honesto do que vexar a dignidade de Catão.
Melhor não referir, com freqüência, esse caso para que não suceda que o indivíduo tome maus costumes. Em todo caso, de quando em vez, é necessário afrouxar as rédeas, liberando a alegria e a liberdade, com interrupção leve da moderação na área da temperança.
A dar crédito ao poeta grego: “É doçura, às vezes, perder o senso. Também Platão dizia: “Em vão bate a porta das Musas quem está de sangue frio”. E mesmo Aristóteles: “Não há gênio algum grandioso sem alguma mescla de loucura, pois só um espírito acicatado atreve-se a dizer certas coisas inéditas”.
Realmente o espírito, quando desdenha a vulgaridade do costumeiro e alça-se até a celsitude com o entusiasmo sacro que o anima e arrebata, somente então é que ele profere palavras divinas com boca de mortal.
O sublime fica inatingível, enquanto o espírito está atrelado a si mesmo. Necessário que se afaste do corriqueiro e do usual. Liberte-se e, mordendo o freio, arrebate consigo o cavaleiro, que é levado às alturas, onde jamais chegaria só por si mesmo.



2 comentários:

zeca disse...

Rapaz, deu uma vontade de beber uma cerveja gelada agora, num sei por que...

luana disse...

Eu acho. :)