quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A síndrome Lattes

Se você é universitário ou pós-graduando e vive aquela peculiar circunvizinhança, entenderá bem a informação abaixo. Se, por outro lado, você se encontra fora da realidade desse tipo de instituição conhecerá um pouco das doenças que ela pode causar em cidadãos comuns. Cidadãos comuns aqui são aqueles que até o 3º ano do ensino médio não têm praticamente nada na cabeça e, no processo de intelctualoidização, acabam como que se viciando em sentimentos putrefatos e costumes deletérios.

Pois bem, nos últimos tempos alguns estudantes universitários do Brasil têm sido tomados por uma nova espécie de doença crônica: a síndrome Lattes. Trata-se de uma psicopatologia de grau intenso que impele o adoentado a montar uma realidade paralela que, doravante, costuma chamar de Currículo Lattes. Neste espaço ele idealiza toda sorte de mentiras sobre si mesmo e busca incessantemente participar de eventos [por mais simplórios que sejam] buscando informações "novas" para acrescentar nesse suposto “currículo”. Depoimentos emocionados de alguns estudantes, que um dia já foram tomados por essa patologia e hoje encontram-se em clínicas de desintoxicação do Dr. Heineken, indicam que sempre que o sujeito atualiza seu currículo, seu corpo é tomado de sensações frenéticas. Essas sensações têm um caráter agudo e progressivo, ou seja, quanto mais o infeliz o atualiza mais a contingência por atualizá-lo aumenta.

Destarte, é comum encontrar indivíduos que depositam no seu currículo Lattes participações em feiras beneficentes, visitas à escolas em disciplinas de educação, ao escreverem uma simples carta à reitoria pedindo bolsa desejam publicá-la, um simples trabalho de graduação metem no currículo sem comprovação, adicionam espirros em SPBC’s, acreditam piamente que CONIC’s[1] são realmente eventos de validade, têm fé que PIBIC’s[2] são uma ocupação de verdade, ao organizar qualquer tipo de evento agridem colegas pedindo certificados[3]. Alguns clínicos afirmam que inclusive o PIBIC é uma espécie de sintoma-chave nessa espécie de esquizofrenia-paranoid, visto que compele o individuo a se auto-enganar a ponto de acreditar que está realmente ocupado com atividades respeitáveis.

Em momentos mais críticos dessa síndrome, o cidadão começa a se identificar ao seu Lattes e usa-o como defesa social.  - Quem é você? Você tem Lattes? Duvido que ele seja mais extenso que o meu! Quem você pensa que é que nem um artigo publicado tem? Urram as pessoas tomadas de assalto por essa doença. O Dr. Heineken acredita que essa patologia surge no momento em que um estudante, ao perceber que outro é extremamente bem sucedido na sua vida acadêmica, tenta desesperadamente imitá-lo e é essa atividade mimética que adoece o estudante mal sucedido. Os estudantes imitados, mesmo possuindo Lattes, não desenvolvem a doença por conseguirem separar a vida pessoal da vida acadêmica. Geralmente estes últimos são mais bem sucedidos nos seus campos de trabalho justamente pelo simples fato de não viverem em função do seu C. L.

Se você possui um filho na universidade e ele está inserido no mundo das pesquisas, fique atento para que ele não se vicie nessas sensações mórbidas: elas podem atingir graus máximos de intoxicação. Investigue os comportamentos do seu rebento em casa. Faça o seguinte teste. Observe-o com cuidado. Se ele passa horas na Plataforma Lattes buscando o currículo dos amigos, ri, ironiza e menospreza-os e considera o dos professores o hiperurano da formação acadêmica, eis um forte indício da síndrome. Se ele fala constantemente sobre o próprio Lattes dentro de casa se orgulhando daquela comunicação que ele apresentou em São Paulo ou no Rio Grande do Sul, tema por sua saúde. Se essa doença o acompanhar até o mestrado e doutorado, acredite, ele não possuirá mais nenhum traço de vida social, é isso mesmo, será um sociopata, se transmutará em uma pessoa extremamente pedante, esquecerá os amigos [que se transformarão em concorrentes], viverá falando de bolsas e viagens para congressos [cujos temas te dará vontade de rir], esquecerá a cerveja, os sorrisos, as roupas, o trivial e o leitmotiv mesmo da sua doença: as pesquisas.

[1] Congresso de Iniciação Científica
[2]
Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica
[3]
Certificados são drogas paralelas usadas pelos estudantes. Eles escondem em botijas. Acreditam que esses papéis são a verdade sobre si-mesmo.



21 comentários:

Elvis disse...

Perfeito! HAHAHAHA

Hoje em dia tem aluno alterando título do próprio artigo pra incrementar Lattes com a mesma merda.

Ridículo.

Anônimo disse...

que nada, duvido teu látex ser mais emborrachado que o meu! =P

cetica disse...

Olha, Rapha, vou te confessar que sou uma alucinada por Lattes! Mas não por preencher com conteúdos vazios (eu demorei um bom tempo para criar coragem de atualizá-lo, colocando algo além do texto gerado por ele mesmo), e sim para olhar o perfil dos outros! Será que tenho a síndrome?

Gosto mais de olhar o dos meus professores, geralmente para ver a "evolução"; dia desses, por exemplo, vi que um professor, que agora é um dos maiores conhecedores de Debord, já tinha estudado Hegel. Gostei de ver isso... E, geralmente, é o tipo de coisa que você só sabe através do lattes, hehe.

Mas é claro que o lattes, de certa forma, denuncia um pouco o desvio de caráter do indivíduo, para o bem e para o mal. O mesmo vale para quem se liga muito a idéia de currículo.

No meu modo de ver, em relação à filosofia, só conhecemos a qualidade do indivíduo na sala de aula. Não tem como fugir disto!

Abraço.

Cammyzinha disse...

Isso tem tratamento?? ;P
Apesar de não pôr tudo no lattes só pra fazer volume, confesso que não faço nada que não valha certificado pra... pôr no lattes! Hehehe...
Mas fazer o quê? Acabamos virando escravos do lattes não por gosto, mas porque precisamos e precisaremos dele recheado num futuro breve e nebuloso, seja pra futuras bolsas, seja pra "empregos" definitivos. É o "sistema" que faz com que fiquemos bitolados! Tudo culpa do sistema!! ;P

Erliane Miranda disse...

Puuuutz!
Confesso q me impressionou, sobretudo, a sapiência do Dr. Heineken, será q ele tem vaga p ele essa semana? rss
É caro Rapha, rescentemente passei p uma prova de "fogo" e fiquei cara a cara c a morte e seu facão de marca "lattes/' - q ladra e morde viu?
Amei, e quem me avisou foi Ju visse?
Bj,
Erli.

Adebra disse...

Nada poderia expressar melhor meu sentimento em relação aos pedantes que me cercam =)

Ester disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ester disse...

eita rafa! Tem tanta gente assim...e só tende a aumentar viu? Se eu fizesse tanta coisa correria sério risco!ui
aaaaaaaaaa outro dia ouvi até um nominho p essa galera*: homo lattes!

* na verdade falavam q os acadêmicos estavam virando homo lattes...

Juan Cruzes disse...

Lattes, o Orkut do acadêmico pedante.

Beto Petrozza disse...

No meu caso, só aderi ao Lattes quando fui obrigado (PIBIC). Não via muito sentido em fazer um antes de ser pelo menos graduado. Mas ñ posso me furtar em confessar uma vil satisfação (será?) em acrescentar participações em encontros estudantis e palestras híbridas. Fazer oque, fingimos daqui e "eles" fingem de lá. Ainda ñ participei do Conic, mas pelo que sei é uma grande piada mesmo.

De qualquer forma, a melhor coisa do lattes - para mim - é pesquisar a atividade acadêmica dos professores doutores. A idéia é legal, o problema é a prática que as pessoas fazem dela.

Pela Colina disse...

très bien

RAMPONI disse...

Gosto de como o colega se apropria da Psiquiatria para relatar a sua frustrada experiência no LaTTES.
Mas devo concordar que existem muitas pessoas colocando desfile de moda em Lattes, só para dizer que o dele é maior que o meu.
Mas como sabemos, Lattes é para quem morde, se me permitem o trocadilho.
Mas o mais importante é a Ética.
coisa que está no ultimo item do lattes qdo ele diz isso ai tudo é verdade????

MONTEIRO TENORIO, Raphael. disse...

RAMPONI,

Não tenho uma relação exatamente frustrada com o Lattes. Na verdade sumpre fui um masturbador do curriculo. Talvez o que eu esteja fazendo seja, também, uma auto-análise. Meu Lattes é legal ;D
É exatamente como você afirma: nem tudo que ali está, está ali mesmo.

Ellison Cleyton disse...

Olá, Sr. Administrador.
Achei muito interessante seu texto sobre "sindrome do Lattes". No entando, na instituição em que desenvolvo meu trabalho, ainda não consegui observar um quadro desse tipo. Então seria interressante uma pesquisa regional, pra identificar quais regiões isso acontece com mais frequência e/ou qual o motivo (pressão dos orientadores, disputa estudantil, cultura institucional, entre outras..). Daria uma fundamentação bem mais interessante.
Atenciosamente

MONTEIRO TENORIO, Raphael. disse...

Ellison,

Interessante sua indicação de especificação. De que área você é? Sua idéia de regionalizar a pesquisa diz respeito a especificar a área ou a região do país?

agradeço,

Raphael.

clebeagata disse...

Ameeeeeeeeeei!
Sim eu aodro espiar o lattes dos outros, morro de rir quando vejo que a outra pessoa preencheu os campos errados. E ultimamente tenho trabalhado pra aumentar o meu lattes de tamanho. será que sofro da síndrome??? XD

Dimorvan Bordin disse...

Caraca!!
eu tenho a síndrome do Lattes! O.O
muuito bom o texto,parabéns!

Anime Tv disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduarda disse...

Você agora conseguiu traduzir em bom e velho português um monte de coisas que penso mas que, por razões múltiplas, abstenho-me de dizer. Um grande exemplo dessa "enfermidade" é o pai dos meus filhos (com o qual não divido mais nada além da contribuiçãoà herança genética dos dois) que, certa vez, ao ser contestado por não fazer parte da vida dos seus descendentes, me disse que eu, "uma pessoa de mente pequena", ficava me preocupando com bobagens, enquanto ele enriquecia seu C.L., com participações nas semanas acadêmicas! E eu que nem sabia que o lattes pode ser mais importante que a presença de um pai... meeedo dessas pessoas.

16 de maio de 2011 14:07

Maick William O. Costa disse...

Genial! hahahaha...

Thiago Oliveira disse...

#euri =D