segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Profissional de filosofia? (meu discurso de formatura)

NOTA DE ADVERTÊNCIA:

1° Se me arrependo de ter cursado filosofia? Nunca!


2° Se vou continuar academicamente? Até que o doutorado nos separe.

Logo,

Este post não visa de maneira alguma desestimular os estudantes ou aspirantes ao digno e nobre esforço filosófico. Em revanche, devemos analisar a paisagem em que o curso se encontra e buscar modificá-la. Não há maior entusiasta à graduação em Filosofia do que o humilde estudante que vos fala. Todavia, devemos fugir de todo otimismo barato e qualquer messianismo de beira de esquina.
As políticas públicas e a "safra" de novos filósofos podem ajudar a limpar as quase indeléveis marcas deixadas na ciência mater devido ao seu péssimo exercício. Trabalhemos!


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tirinha acima (de um autor muito criativo diga-se de passagem) não é apenas pejoração. Trata-se do atual quadro cultural e econômico que a nossa "ciência" ganhou como prêmio de reconhecimento da sociedade brasileira:



Que os amigos saibam que me de-formei em filosofia no ano de 2007. E eis que fui convidado para ser o orador da turma. Decisão sábia de quem o fez? Não sei. Todavia, me vi com a tentadora chance de falar para mais de 500 pessoas, professores e o melhor: o Reitor. O contexto? O nosso mestrado acabara de ser pulverizado pela gloriosa CAPES, as bolsas sendo extintas, o "prestígio popular" do curso cada vez mais "suicida" e inapto face aos grandiosos mestres das ciências positivas (inclusive os co-irmãos das humanidades que se vangloriam por sua eficácia científica inatacável), some-se a isso um pouco de amargura da semana, a alegria de ter a mulher e o filho na platéia, a língua afiada que papai do céu me concedeu, a oportunidade de dar algum constrangimento aos colegas de curso para que tenham cuidado com uma ridícula "aristocracia intelectual", a chance de falar mal de um grande pensador brasileiro, de provocar a possibilidade ou não da filosofia no ensino médio, a vontade de homenagear amigos de curso transformando-os em filósofos por alguns minutos e a fortuna de colocar em prática a popularidade que angariei em quatro anos indo diariamente a universidade para REALMENTE estudar e diletar naquele nobre terreno. Reproduzo então na íntegra o que falei para o magnífico Reitor, para os meus ilustres colegas e para os pais e mães da família que foram chorar na formatura dos seus psicólogos, historiadores, cientistas sociais e os seus 12"filósofos"



Recife 15 de outubro de 2007. Teatro da UFPE:

Estou aqui hoje não com o intento de ponderar sobre filosofia, mas com o intento de falar "da" filosofia. Não enfastiarei nenhum dos presentes com palavras ininteligíveis e nenhum tipo linguagem privada. Muito menos florearei nenhum belo discurso com retórica, nem com erística.
Afortunadamente cá estamos após quatro anos de um esforço sem precedentes para obter o grau de bacharéis ou licenciados em filosofia. Mas o que isto quer dizer? Qual a importância deste fato? No que isto tudo vai dar? Como serão resolvidas as angústias ônticas de tal escolha? Qual é a finalidade de ambicionar ser filósofo num país que tem pouco mais de quinhentos anos e ainda não se educou devidamente ao pensar? Que ainda não tem bons epistemólogos das ciências que tanto são valorizadas neste território? Uma nação que usa esse mesmo pensamento apenas como ornamento, adereço. Um país que trata seus pensadores como “gente excêntrica" e socialmente inapta. Um lugar do mundo em que Arnaldo Jabor é o supra-sumo do jornalismo crítico, Paulo Coelho o soberano da literatura “erudita” e Bruna Surfistinha a musa inspiradora da literatura popular. Salve! Salve! O poeta pernambucano Ângelo Monteiro, ou como diria o nobre filósofo da Veneza brasileira, Kleber Kyrillos, “a razão está bixada”.
Essas figuras supracitadas que se destacam desmerecidamente no cenário nacional obnubilam os que pensaram genuinamente. Vou trazer à baila apenas uma personalidade para honrar e homenagear o nome do nosso estado e nossa nação. Um pensador que não pode cair no esquecimento por quatro motivos: 1º - Não é europeu; 2º - É Pernambucano; 3º - foi aluno desta qualificada instituição e 4º - [e mais importante predicado] foi filósofo. Falamos in memoriam de Evaldo Coutinho[1] que nos privou da sua efígie neste ano. Deixamos registrado aqui nosso tributo.
Pois bem, certo grego articulou que “a natureza é aristocrata em relação à intelectualidade”. Será verdade? Será por isso que apenas doze estudantes de filosofia se formam em 2007.1? Seria isso aristocracia intelectual ou coragem, audácia e brio para se profissionalizar numa fração do conhecimento humano que não é a bem-sucedida ciência? Afinal, o discurso do “cientificamente comprovado” é bem mais acalentador e pragmático do que o ancião discurso metafísico (aquele do idealismo alemão que tinha a pretensão megalomaníaca de apresentar à humanidade um projeto de mundo pronto e acabado através de diversos sistemas). E por quê? Pelo simples fato de que a ciência é um conhecimento de progresso consensual, que resolve problemas práticos, enquanto que a filosofia pensa a si mesma desde os originários e progride por negação (o que pode ser concebido pejorativamente como in-decisão). Pensando desde os originários, os taxados filósofos pré-socráticos, se repensam continuamente as questões mais fundamentais levantadas pelo Homo Sapiens. O curioso é que as perguntas mais triviais desse tal homem (esse que têm a ciência como oráculo) não estão respondidas. O que é o amor? O que é a vida? O que é o homem? É nesse sentido que a filosofia também é ciência e no sentido genuíno da palavra, o que o filosofo alemão Edmund Husserl, o pai da fenomenologia, chamaria de ciência absolutamente rigorosa. por ser a matriz dos problemas que as ciências positivas e as ontologias regionais tentam resolver.
A filosofia, como já dito, é pensamento de si, ou um processo de re-petição incessante. Repetição no sentido heideggeriano no qual observa resplandecentemente o filósofo hispano-pernambucano Jesus Vásquez: essa re-petição não é ‘re-fazer o pensamento’, mas é, em verdade, pensar o não pensado no pensamento. Ou seja, pensar algumas possibilidades que passaram despercebidas ou obscurecidas propositalmente para que determinados problemas fossem resolvidos mais facilmente. Neste caso em particular assentar Deus como termo médio.
É nesse mote de desconfiança em relação ao papel da filosofia, que nasce a tentação de alguns governantes, inclusive taxados sociólogos, de encerrar os cursos de humanas e ao lugar introjetar cursos técnicos, que resolvam o que a filosofia nunca resolveu: problemas do dia-a-dia. Digam-me, então, em nome do bom Deus, de que base partiu a psicanálise (que resolve problemas cotidianos) e mostrem-me onde podemos localizar o inconsciente e detectar uma neurose de transferência? Onde, se não nos questionamentos filosóficos, foi suscitada essa ciência? O que foi então a metapsicologia?
Eis a esfinge: o discurso cientificista. Aquele consolidado no século XIX e do qual o próprio Freud é fruto. O discurso das formulas prontas, da panacéia da eternidade, da rápida habitação de outros planetas e da vitória contra a finitude. Este modo de agir está conseguindo empeçonhar até mesmo estudantes das humanidades. Converse cinco minutos com um(a) debutante de um dos cursos pretensamente pragmáticos das humanas e verás que a última tese contra Feuerbach (incorporada instintivamente) é o nome do jogo. Enquanto vocês filósofos especulam e são etéreos, nós dizemos, investigamos e comprovamos, dizem alguns deles. Será que é essa falta de pragmaticidade que faz com que a filosofia tenha reservada para si [academicamente] não mais de uma dúzia de bolsas como há em certos programas de mestrado do nosso querido CFCH[2]? Será essa inaptidão técnica que nos reserva uma parte pífia dos dividendos? É essa ausência de soluções imediatas e inadvertidas que levam um mestrado em filosofia a ser descredenciado? [3]
Afinal, para que servem as idéias? Para que servem os filósofos atualmente? Para que serve pensar a miséria e o desamparo da própria existência e a fragilidade da precária condição humana se já existem químicos bem mais eficientes que a auto-reflexão? Os filósofos não levantam prédios, não manipulam genes, não produzem alimentos transgênicos, não desenham roupas e não vão até as favelas fazerem estatísticas da sexualidade dos moradores. Desta feita, qual o lugar de um filósofo no nosso século? A filosofia estará fadada a encontrar-se diluída entre outras ciências ou asilada no escafandro da academia?
Segundo o intocável Karl Marx na sua ultima “grandiosa” tese contra Feuerbach, os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diferentes maneiras; a questão, porém, é transformá-lo. Tese um pouco burlesca do ilustre pensador que devastou a dialética hegeliana, depauperando a fluidez da “negação, da conservação e da suprassunção”, postulando a sua tripartição frankensteiniana da “tese, antítese e síntese”. Ao menos o jovem Marx nos deu algo de incomparavelmente clarificador. Trata-se da sua esplêndida tese de doutorado[4] sobre Epicuro e Demócrito, dois grandes materialistas gregos, denotando assim que a base de toda a sua proposta revolucionária estava assentada em analisar o afastamento dos prazeres nem naturais e nem necessários dos quais falava Epicuro, o que nos conhecemos atualmente por futilidade oriunda do acúmulo injusto de capital.
Retomemos a seguinte idéia: de que servem as idéias? Como diria o ilustre filósofo pernambucano Suzano Guimarães, é uma idéia que enche um estádio de futebol, foi uma idéia que fez alguém matar John Lennon, foi uma idéia que fez essa universidade vir-a-ser e foi uma idéia que fez alguns aqui escolherem suas respectivas profissões e mudarem de uma vez por todas o fato das suas vidas.
Como as idéias e a reflexão incessante poderiam intervir em qualquer caso dos nossos dias se desde sempre há quem responda por nós em qualquer assunto? Como a cogitação poderia falar mais alto do que o barulho da publicidade e da tagarelice? Estas questões beiram a ingenuidade. Questione um designer e um arquiteto sobre qual é a principal arma na produção do seu trabalho. Como se compõe o vazio? Apenas com métodos científicos? E a sensibilidade? O entendimento? A razão? E, não menos, a intuição?
Usemos um exemplo bastante elementar proveniente da reflexão sobre a Ética da Responsabilidade (o que poderíamos chamar de uma espécie de Kantismo aplicado). O filósofo pernambucano Harim De Britto Lira Neto, presente aqui hoje, possui a justa medida do que eu estou falando. Pois bem, usemos este exemplo para tentarmos ser bastante pragmáticos e para que alguns dentre vós entendam que [talvez] a filosofia possa dialogar com o cotidiano. Aqui na fidalga cidade do Recife há um pitoresco bairro cujo nome é Apipucos. Nesta localidade há um açude histórico, ele já está em ato, ou seja, efetivado. Ao lado dele está construído um posto de gasolina em que há a POSSIBILIDADE, ou seja, é possível, que se acontecer algum acidente a história e a atmosfera daquele local sejam bastante desvirtuadas. Vejamos onde entram os juízos dos filósofos nesse caso. Se há a possibilidade, ou seja, o "pode ser que", a potência desse empreendimento comercial macular o lugar, ele nem deveria ter sido efetivado ou, em linguagem aristotélica, nem deveria ter saído da potência (dynamis) ao ato (energeia). Afinal de contas algo só pode sair da potência ao ato por intervenção de um ser já em ato. No caso arquitetos, engenheiros e uma óbvia e comum pequena máfia por trás que certamente tem ciência do risco de tal construção. A ignorância não constitui álibi, não mais. O problema é que a prescrição ética não é uma barreira ontológica e lá está o posto de gasolina de alto risco construído. Mas deixemos essas digressões que remontam o Greenpeace de lado e falemos brevemente [em formato de aforismos] aos colegas de profissão aqui presentes:
  • Cuidado, ilustres amigos. Há uma abissal diferença entre estudante de filosofia e fã de filósofos. Um estudante de Heidegger é uma coisa, um “heideggerianete”, é outra;
  • Para que serve a filosofia? NADA. Quem serve está servindo a alguma coisa ou a alguém. Como então se pode taxar livre um filósofo?
  • Pode-se perceber nos cursos de filosofia uma crescente de amigos que se mostram xenofóbicos em alto-grau e alheios aos saberes não-filosóficos. Cuidado distintos amigos, a discriminação é sinal de estreiteza mental. Certamente que alguém que afirmar que não possui sequer um único pré-conceito não é Ser humano, todavia, há uma diferença abissal entre pré-conceito e discriminação,
  • Há outros que da mesma maneira mesmo repudiam escolas filosóficas que não são do seu agrado. Para alguém ser taxado filósofo não foi em vida de forma alguma alguém ingênuo. Nós temos a liberdade de não concordar com que o ilustre postulou e até somos compelidos a fazê-lo (como articula o filósofo Ítalo-pernambucano Vincenzo Di Matteo), mas não temos a mínima capacidade cognitiva de taxá-lo de inútil à tradição.
  • E para findar essa “demagogia aconselhativa”, Hesíodo, citado por Aristóteles em sua Ética a Nicômaco nos profere:
Ótimo é aquele que de si mesmo conhece todas as coisas;
Bom o que escuta os conselhos dos homens judiciosos.
Mas o que por si não pensa, nem acolhe a sabedoria alheia,
Esse é, em verdade, uma criatura inútil.

[1] Falecido num sábado, 12 de maio de 2007.
[2] Centro de Filosofia e Ciências Humanas.
[3] Pouco tempo antes deste evento, no qual estava presente o Reitor, o Programa de Pós-graduação em Filosofia do depto de filosofia da UFPE havia sido descredenciado pela CAPES por motivos ora claros, ora velados.
[4] Tese de doutoramento escrita em 1841. “A Diferença entre as Filosofias da Natureza de Demócrito e Epicuro”.




Falemos um pouco das perspectivas dos formandos. Afinal de contas filósofos também comem, bebem cerveja e têm filhos para criar. A história do ócio produtivo não pode ser levada com tanta pejoração.
Trabalhar com filosofia sempre foi uma tarefa árdua. Em que ocupações encontramos os grandes filósofos ao longo da história? Sejam herdeiros de fortuna como Platão, fazendo um bom casamento como Aristóteles, às custas da igreja como alguns medievais, em côrtes como Bacon e Leibniz, polindo lentes como Spinoza, ou lecionando, como preceptores ou em instituições universitárias.


Com a volta da filosofia ao ensino médio, temos mais um campo de trabalho aberto, além do ensino superior e da pesquisa, e espero que saibamos aproveitar esta oportunidade e demonstrar, através do nosso trabalho, a grande importância da filosofia para o exercício da cidadania no século XXI. Não se trata aqui de “converter” nenhum jovem ao “filosofismo”. Independentemente de que profissão o jovem desejar seguir, é direito e obrigação deles receberem a tradição que os precedeu. Ou queremos arquitetos, médicos, analistas, professores desumanizados e descompromissados com os expedientes éticos? Afinal de contas não queremos arquivos de conhecimento a serviço do mercado de trabalho, mas sim, alunos com capacidade suficiente de discernimento para, quando crescerem, possuírem a habilidade de decidirem o que seguir e como fazer.


Dizem (alias, serei honesto, fui eu quem disse) que Filosofia e ensino infantil são como os pólos iguais de dois imãs que se encontram; a intenção é nobre, a realização impossível. Será que conseguiremos juntos provar ao contrário? Há uma frase de um grande admirador da filosofia em Pernambuco, o ilibado pensador que escreveu o IMBECIL COLETIVO, que diz:


O pior é a moda da filosofia para crianças, um cabide de empregos e um abuso da inocência infantil: a filosofia não é coisa para crianças, como supõe o nosso execrável Ministério da Educação. Alquimicamente falando, a filosofia é o enxofre que cristaliza o mercúrio, a mente volátil, para produzir o sal – a alma perfeita. A cristalização prematura é um desastre alquímico, o congelamento da alma. Os professores de filosofia estão ajudando nossas crianças a sufocar suas percepções autênticas sob um discurso pseudo-intelectual de um artificialismo desesperador.


Terá ele razão? Vamos até a prática para desentranhar essa informação e desmentir ou confirmar as previsões pessimistas dos que desacreditam tal expediente.


Termino minha fala agradecendo a paciência e o comparecimento de cada um dos presentes, desejo a todos os colegas das demais profissões que a fortuna agracie a cada um e que exerçam sua lida com responsabilidade. Aos meus colegas de curso toda força e entusiasmo para quem for continuar a formação acadêmica. Profissionalmente, seja no ensino médio ou no ensino superior, responsabilidade para repassar e para restaurar as marcas indeléveis que penetraram na filosofia pelo seu péssimo exercício. E que cada existência aqui presente consiga se resolver e de-cidir propriamente por si mesmos as vias possíveis que a vida apresentar.



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Paternidade


Quem observa com certa frequência esse blog deve imaginar que o "dono" dele é um pensador da mortalidade, do trágico, da negação da vontade, do tenebroso, da finitude radical, da angústia fundamental. Todavia, creio que um estudo sério e aprofundado sobre a morte (não apenas entendida como o cessar das funções biológicas, mas a própria antecipação a essa possibilidade) traz consigo descobertas e experiências cruciais para a lida com a própria vida. É ela que confere à morte sua significância, sua importância e seu peso na existência. É por esse motivo que devo concordar em alto grau com a afirmação de André Comte-Sponville, ilustre filósofo contemporâneo (1952), atualmente professor na Universidade de Paris:

A morte é a regra, da qual a vida é a exceção. Nesse caso, porém, a regra só tem existência pela exceção que a desafia sem violá-la, que a confirma sem nela se perder. Aquilo que vivemos, a morte, que prevalecerá, não conseguiria abolir – por que a vivemos, por que teremos vivido eternamente. Todos os seres vivos morrem, e só eles, sem eles a morte não seria nada. Isso significa que é a vida que vale e que dá valor: mesmo a morte só tem importância por ela.1
É nesse mote de vida como "exceção" que devemos administrar o que nos resta de existência com certa responsabilidade visto que existir é ser carga para si mesmo. Se não se consegue simplesmente cuidar de si, como cuidar de outros, como se relacionar? E se esse outro for um filho? Se nesse espaço de existência que nos é "dado" suscitarmos um ser que "depende" boa parte da existência a quem o "criou"? A experiência - no meu caso - da paternidade é como que uma extração de mim mesmo em direção a um outro "de mim": "meu" filho. Há um pouco do meu ser nele. O que a biologia taxaria de genética, eu taxaria de transmissão do legado do meu ser. Apenas a convivência diária com uma criança e a observação atenta do seu desenvolvimento motor e cognitivo pode dar a dimensão do que direi agora. Apenas essa experiência adquirida de forma quase permanente é que nos faz ver que: - Meu Deus! há um pouco de mim nele. Observa-se esta interjeição supracitada em elementos bastante simples, mas que possuem um valor fenomenológico indescritível. Seja na maneira de olhar da criança, se está sendo canhoto ou destro, as posições de dormir que remontam às suas posições até hoje, certos "traços" de temperamento, o que não é de seu nele, o que é de outrem (como a mãe por exemplo), em suma, a própria diferença em si, os comentários de familiares ao afirmar que "ele é semelhante a você nesse sentido", as preferências visíveis em relação aos alimentos (se gosta mais de salgado como o pai ou se prefere doce como a mãe, por exemplo). E além disso, encarar o surreal de ter ciência que é um sujeito (mesmo que em formação) infinitamente outro em relação a você mesmo. É inevitável que a categoria de posse nos tome de assalto: - Ele é MEU filho. Devemos ter cuidado com esse discurso da posse que é peculiar na facilidade da liberdade egocêntrica, na liberdade auto-assegurada. Chamamos de meu pai, minha professora, meu amigo, minha casa, meu mundo, minha ideologia, meu país, minha verdade e MEU filho. Quando na verdade desde já sinto que ele não é meu, mesmo que usasse força física para prendê-lo junto à mim, ele nunca seria MEU. A categoria do TER, também não cabe aqui: - Você é casado? TEM filho? - Sim, TENHO. Usamos essas duas categorias de forma inadvertida, já que elas são mais sérias do que achamos que realmente são. Tenho e possuo objetos: tenho um carro, ele é meu carro. Com objetos mantemos experiências, com pessoas relações. Não há relação literal se um dos lados é dominado, se é possuído. Logo, genuinamente, eu não TENHO um filho, ele não é MEU filho. Mas ao mesmo tempo ele é "meu" e eu "tenho" um filho. A linguagem do dia-a-dia não precisa ser pensada sempre que a falamos, seria insuportável acessar sempre o âmago das palavras antes de proferí-las. Então, se as categorias de TER e PODER não são aplicáveis ao se tratar de um filho, qual seria? A categoria de Ser. Eu SOU de qualquer maneira meu filho. A biologia acerta brilhantemente com as descobertas genéticas. Não estamos aqui especulando ou dizendo palavras etéreas. É "fato" que haja o ser de um no outro. Uma ciência de progresso consensual já provou e o "cientificamente comprovado" é o nosso Deus. Há meu ser no ser do meu filho e é daí que se pode explicar a excessiva atenção que um pai (normal, não estou tratando de humanos que empacotam crianças e jogam em rios) desprende a seu filho. Eu estou nele e esse fato simplesmente me extrai de mim mesmo. Há traços meus sub-existindo nele e isso me im-pressiona, é objeto de pensamento profundo, de horas de meditação, de reflexão sobre responsabilidade, de re-significação de prioridades e acima de tudo, fonte de emoção no sentido genuíno da palavra: emovere; movimentar, deslocar. Estar emocionado diante de um filho é estar deslocado de si mesmo, é ser tomado de assalto por um ser tão frágil fisicamente quanto extremamente forte no que diz respeito às leis da natureza. Sua fragilidade possui tal força que observamos nitidamente os esforços que movem povos, cidades, tribos a terem de cuidar e proteger suas crias com toda a força. Amar um filho, para além do alter-ego e longe de qualquer narcisismo ingênuo, é "amar a si mesmo". É nesse caso que a máxima socrática entra em cena plausivelmente: Conhece-te a ti mesmo. Se em meu filho há um pouco de mim e eu me conheço de forma digna, logo saberei ao certo como dar o máximo de mim para a manutenção dessa vida que só pode ser taxada de especial. Emmanuel Lévinas, grande filósofo francês, nos faz pensar um pouco na sua fala sobre o que "é" um filho contida na obra Le temps e l'autre:
Le fils en effet n'est pas simplement mon Œuvre, comme un poème ou comme un objet fabriqué; il n'est pas non plus ma proprieté. Ni les catégories du pouvoir, ni celles de l'avoir ne peuvent indiquer la relation avec l'enfant [...] Je n'ai pas mon enfant; je suis en quelque manière mon enfant [...] D'autre part, le fils n'est pas un événement quelconque que m'arrive, comme, par exemple, ma tristesse, mon épreuve ou ma souffrance. C'est un moi, c'est une persone. Enfin, l'alterité du fils n'est pas celle d'un alter ego. La paternité n'est pas une sympathie par laquelle je peux me mettre à la place du fils. C'est par mon être que je suis mon fils et non pas par la symphatie [...] La paternité n'est pas simplement un renouvellement du père dans le fils et sa confusion avec lui, elle est aussi l'exteriorité du père par rapport au fils, un exister pluraliste.


[Tradução Livre] O filho com efeito não é simplesmente minha obra, como um poema ou como um objeto fabricado; ele não é mais do que minha propriedade. Nem as categorias do poder, nem as do ter podem indicar a relação com a criança [...] eu não tenho minha criança, eu sou de qualquer modo minha criança [...] De outra parte, o filho não é um evento qualquer que me chega, como, por exemplo, minha tristeza, provação ou meu sofrimento. É um eu, é uma pessoa. Enfim, a alteridade do filho não é a de um alter ego. A paternidade não é uma simpatia pela qual eu posso me colocar no lugar do filho. É por meu ser que eu sou meu filho e não pela simpatia. A paternidade não é simplesmente uma renovação do pai no filho e sua confusão com ele, ela é também a exterioridade do pai por relação ao filho, um existir pluralista.


  • Um filho adiciona 15 gramas de areia na ampulheta da existência do pai.
1COMTE-SPONVILLE, André. A vida humana. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p.95.



sábado, 9 de fevereiro de 2008

Aforista não-filósofo? As ilhas do saber... Ainda sobre a morte.

Criar um blog com um propósito tão batido e já tão criticado (o de comunicar o ideatum através de aforismos) soa certamente como clichê. Mas como não ser clichê? Conheço um grande profissional que dileta - e com todas as letras - que o ilustre filósofo do Zarathustra não foi, de fato e stricto senso, um Filósofo. - Mas professor, o que foi ele então. Qual a contribuição do ilustre para a história da filosofia? - Meu querido aluno, ele foi apenas um aforista. Fico me perguntando o que essa acertiva quer dizer ao certo. Creio que trata-se de um clássico caso de "ilhas de conhecimento". Quer comprovar isso sorrateiramente? Ponho dois alunos de graduaçção frente à uma estante de livros. De preferência que seja a coleção Os Pensadores completa. Para que o experimento dê certo os dois estudantes devem ser de filosofia e ciências sociais. Eles começarão a busca pelos "profissionais da área". - Hum, Husserl, esse é meu tá?, diria o pequeno filósofo. - Magnífico! Durkheim, é sociólogo, posso pegar esse, não é? Nem te servirá. retrucaria o "sociólogo". Por um infortúnio do des(a)tino, costumamos dar giletadas epistêmicas em grandes pensadores e, como procurando um nicho respectivo, depauperamos sua obra rotulando-o de filósofo, cientista social, psicólogo, historiador. O que dizer da contribuição da critica do conhecimento de Kant para a psicologia cognitiva? E o contrário: a massiva contribuição filosófica da Metapsiclogia freudiana? É necessário falar de Foucault aqui? Envolvido com história, filosofia, psicologia, política e N áreas afins. Alguns hegelianos me perdoem mas, é nesse sentido, que afirmo a qualidade de filósofo que, sem dúvidas, podemos assegurar ao tratar do nome de Nietzsche. Destarte, para não cair no mercado pop da filosofia e dos blogs de menininhas de 15 anos, vou citar dois dos seus aforismos de um livro nem tão lido assim: El caminante y su sombra. Já que o estudante que vos fala se ocupa demasiadamente sobre o tema da Morte, exponho aqui dois grandes pensamentos do Filósofo que foi a condição de possibilidade do aparecimento de um Freud, por exemplo. Mas antes, acompanhe esse aforismo contido em em Humano Demasiado Humano.:
  • As dissonâncias não resolvidas de caráter e de feição de espírito dos pais continuam a ressoar no ser do filho e produzem sua história passional interior.

Ao ler isso, te remetes a Freud?


Vamos ao aforismos prometidos:

Fonte: NIETZSCHE, Friedrich. El caminante y su sombra. Madrid: Ediciones y Distribuciones Mateos, 1999. p. 121, 122 e 181.

  • Sobre la muerte racional - ¿Qué es más razonable: parar la máquina cuando hasta que se pare por sí misma, es decir, hasta que se rompa? ¿No supone este último procedimento un derroche de los gastos de mantenimiento, un abuso de las energías y de la atención de quienes cuidan la máquina? ¿No es gastar inútilmente lo que podría servir para otros fines? ¿No suscita cierto que desprecio hacia las máquinas en general el conservar y el mantener en funcionamiento inútilmente a un gran número de ellas? Quiero hablar de la muerte involuntaria (natural) y de la muerte voluntaria (racional). La muerte natural es la muerte independiente de toda voluntad, la muerte propriamente irracional, en la que la miserable sustancia de la corteza determina la duración del núcleo; en la que, por conseguiente, el carcelero débil, enfermo e embrutecido es dueño de decidir el momento en que debe morir su noble prisionero. La muerte natural es el suicidio de la natureleza, esto es, la destrucción del ser más racional por lo que hay de más irracional en él. Sólo desde el punto de vista religioso puede ser de otra manera, pues entonces, como es justo, la razón superior (Dios) da las órdenes a las que debe someterse la razón inferior. Pero fuera de la religión, la muerte natural no tiene nada de gloriosa. Adoptar una sabia postura ante la muerte es algo que pertenece a la moral que hoy parece inalcanzable e inmoral, pero cuya aurora nos ha de producir un goce indescriptible.

  • Muerte - Por la perpectiva cierta de la muerte, podría echarce en la vida un gota deliciosa y perfumada; pero vosotros, extravagantes farmacéuticos del alma, habéis convertido esa gota en un veneno infecto, que hace repugnante la vida entera.