terça-feira, 22 de abril de 2008

As neuroses e as grandes cidades.

Numa dessas andanças docentes, elaborei uma “aula trilogia” para uma turma de 1º período em Psicologia na UFPE com a tentativa de abordar a Angústia (e as suas expressões ônticas), a finitude e a cidade como condição de possibilidade de aparição de diversas psicopatologias. O filme usado no caso foi o brilhante Koyaanisqatsi (dirigido por Godfrey Reggio com trilha Francis Ford Coppolade Philip Glass). O livro apoio foi o Sobre a morte e o morrer de Elisabeth Klüber-Ross. Digamos que foi bastante produtivo e útil como as disciplinas de filosofia devem ser quando ministradas em outros cursos. Eis o texto (se lido após a apreciação do filme, faz ainda mais "sentido"):



Texto para subsidiar o filme Koyaanisqatsi. Por Raphael Douglas M. T. Filho
(Filosofia-UFPE)
Dentro da célebre obra de Freud, O mal-estar na civilização, o psicanalista articula que [...] o que chamamos de nossa civilização é em grande parte responsável por nossa desgraça e que seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas.
A cidade é a condição de possibilidade do aparecimento das principais patologias de ordem anímica. No momento em que alguém engaiola um pardal (naturalmente indomesticado) verá serem desenvolvidos naquele animal diversos tipos de comportamentos modificados pelo simples fato de sentir-se suprimido e despojado da sua “liberdade” e do nicho ecológico que o comporta.
Da mesma forma é o “homem-pardal” cujo nicho ecológico é a urbes. Engaiolado em prédios de quarenta andares, com estímulos visuais demasiados, excessivo grau de decibéis usurpando sua tranqüilidade, consumindo substancias completamente prejudiciais ao equilíbrio químico do corpo, obrigado a escolher apenas uma possibilidade dentre milhões de outras e ainda ter que suportar o peso da escolha única, lidando com uma quantidade incomensurável de radiação por sobre ele, submetido ao demasiado fluxo de freqüências de radio que mudam seu comportamento, com a cultura e a sociedade podando suas vontades mais genuínas e livres e, em alguns raros casos, admitindo que o conceito de liberdade é o mais etéreo dos conceitos.
Durante o processo “civilizatório” o homem foi, tanto quanto o pardal encarcerado, obrigado a abdicar de seus “instintos primitivos” e inserir-se num modus vivendi completamente anti-natural. A monogamia é natural? Morar dependurado no trigésimo-quinto andar de um prédio é natural? Ler jornais que mostram cadáveres estraçalhados por munição é natural? Uma localidade com cinco milhões de pessoas oferece uma atmosfera natural? Peito com silicone, apesar de esteticamente agradável, é natural? Serrar as pernas para ficar mais alto e esticar a pele uma vez a cada dois anos, também? Chorar quando a chuva “acaba com a escovinha e desejar ardentemente um pedaço de tecido que custa R$ 6.000 é natural? Fazer uso abusivo de certas substâncias para ficar parecendo com o Hulk é natural?
Já que falamos aqui de “instinto primitivo” (se é que essa afirmação não constitui um pleonasmo) não é arriscado admitir que, mesmo citadino e urbano, o homem conserva em seu âmago caracteres mais distantes da segunda e iluminista palavra que compõe sua hipotética essência: animal-racional. A doce ilusão aristotélica da completa racionalidade. Certa vez refletindo sobre essa incerta primazia da razão por sobre a animalidade desenvolvi o seguinte aforismo: Animal racional;. O homem é um animal racional na medida em que há a possibilidade de ser racional e não pela estabilidade perpétua da razão. Basta observar dois homens ao mesmo tempo brigando e dançando axé num bloco de “carnaval”; onde está o racional ali?
Deixem-me usar um exemplo oriundo das minhas vivências. Posso perfeitamente aqui me comparar a um animal selvagem. Dramatizemos: encontro-me em meu apartamento (minha toca, meu covil) livre de animais maiores que podem me emboscar a qualquer momento. Lá dentro estou abrigado e camuflado, o nível de tensão por sobre mim é bastante reduzido. Ao sair por qualquer razão da minha furna (digo, apartamento) sou tomado por um terror sem precedentes por que temo o não-ser, o não mais existir já que algum “animal maior” (um revólver à mão de um assaltante, um ônibus que pode me esmagar, uma viga que pode cair do alto, uma bala perdida, uma torcida organizada furiosa) pode vir de encontro a mim. Caminho nas ruas da cidade (a selva) numa crise desmedida pelo simples e inexorável instinto de me manter vivo em meio a tão hostil ambiente. Tendo atingido o objetivo (outra gruta ou cava, aliás, no meu caso, a universidade) o nível de tensão baixa novamente. Provavelmente por esse fato pitoresco é que nossas plácidas e serenas cidades são taxadas “selvas de pedra”. O célere desenvolvimento tecnológico aliado ao processo patológico de aculturação transformou a cidade numa usina produtora de neuróticos, obsessivos, transtornados, bulímicos, ansiosos, estressados. Pois é ilustre Freud, como discordar das suas assertivas? Acompanhemos:
A questão fatídica para a espécie humana parece-me ser saber se, e até que ponto, seu desenvolvimento cultural conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição. Talvez, precisamente com relação a isso, a época atual mereça um interesse especial. Os homens adquiriram sobre as forças da natureza um tal controle, que, com sua ajuda, não teriam dificuldades em se exterminarem uns aos outros, até o último homem. Sabem disso, e é daí que provém grande parte de sua atual inquietação, de sua infelicidade e de sua ansiedade [...] Grande parte do trabalho da minha vida [...] foi passada [na tentativa de] destruir as minhas ilusões e as da humanidade. Mas, se esta esperança não puder pelo menos em parte ser realizada [...] que espécie de futuro nos aguarda? Certamente é bem difícil manter a continuação da nossa espécie no conflito entre a nossa natureza instintiva e as exigências da civilização.