segunda-feira, 12 de maio de 2008

A filosofia e a infância do mundo


Afirmo que a carreira filosófica, do modo que é tratada em nossos dias, mostra-se demasiadamente infantil. Isto por que tornou-se mais uma atividade genérica entre um grupo "seleto" de indivíduos. Mais de dois terços das atividades humanas são realizadas por necessidade de escoar a carência e a eterna infância da qual o âmbito dos humanos é, inexoravelmente, refém.
Possuir uma TV de 29 polegadas é um desejo infantil, um estádio de futebol é uma obra arquitetônica que tem como base a puerilidade dos homens, um técnico de futebol, que aos seus 70 anos, continua nessa "profissão", é consideravelmente, infantil, o Estado é a necessidade de abrigo para crianças desamparadas (os cidadãos). Tanques de guerra, armas nucleares, cirurgias plásticas, cadeiras com design arrojado, controles-remoto, satélites, mídia, realities shows, formatura, talheres de prata, um império, uma Ferrari, fast food, exibicionismo, um texto como esse, a vaidade, internet, prédios, sexo grupal, anti-depressivos. A necessidade de fabricar, construir, fazer, comunicar, provar, reprovar e produzir a qualquer custo é sinal patente de como o ser humano é um animal completamente tomado por seus medos e fraquezas mais infantis. Por que seria diferente o envolvimento desse ser pueril (os habituais) com a velha senhora, a filosofia?


Como postulou recentemente um grande mestre, encontrar "pensadores que pensam" é uma tarefa cada vez mais abstrusa. Creio que ele se expresse dessa maneira justamente por que essa antiga, e um dia muito respeitada entre os homens, área do conhecimento humano, esteja nas mãos de pessoas que a tratam como quem trata um álbum de figurinhas do campeonato brasileiro. Quem já possuiu um destes álbuns tem a exata medida do que eu estou falando. Pensadores são literalmente tratados como personagens de times, de estratégias, como adversários. Estudá-los é devorar suas biografias, trocar as figurinhas duplicatas e fazer questão de completar o álbum do time mais eloqüente. Em suma, a atividade "filosófica" é, deste modo, uma atividade infanto-juvenil. Basta inserir-se num curso médio de graduação em filosofia mais próximo de você. Ilustres pré-adolecentes (ou cronológicamente, ou cognitivamente), devoradores de biografias e orelhas de livros promovem uma verdadeira necrofilia filosófico-biográfica por nossos corredores. Gera-se, desta maneira, uma imensa e injustificada soberba, uma altivez, uma presunção na fala dos "grandes" novos pensadores. Sabe-se muito acerca da biografia, chafurda-se assistematicamente no pensamento, ao passo que a produção pessoal é o de se esperar: nula.


Então, a filosofia passa a ser uma disputa de trunfo nos corredores da univesidade, nos bares e lugarejos da cidade. Quem saiu na "frente", quem possui mais cartas com pontuação elevada, quem devorou mais biografias na wikipedia é tomado, pelos mais simplórios, como um grande e magníloquo estudante. Este calibre de "assumidades" depauperam ainda mais o que já está indigente na cabeça do ser humano médio: a filosofia é, de fato, uma atividade humana que não possui "utilidade" alguma. D'outra parte, professores entre 55 e 75 anos disputam entre si, posições que são, não obstante, tão infantis quanto um brinquedo novo que uma criança usa para fazer outra sentir inveja da sua aquisição. Professor "X" não suporta Professor "Y", por que este último estuda temas, no julgamento daquele, frívolos. Professor "Z" cria certa antipatia com Professor "W" por que este não sabe usar adequadamente as regras da ABNT e não tem politicagem eficiente perante a CAPES. Professor Z¹ acha que seguir os ensinamentos do Professor X¹ deixa o aluno passível de reprovação na sua disciplina por ser um estudante idiota. Fico pensado se alguém que já faz parte do seleto grupo dos anciãos não se sente inútil por chegar a tão venerável idade e ainda permanece floreando discursos sobre outrem e nada produz: creio ser também uma grande infantilidade, uma ocupação mirim. Preocupa-me, profundamente, a possibilidade de atingir tal idade e ter de estar na mesma situação dos senhores citados. Realizando preleções repetitivas e gastas para os novos "baby-filosofinhos" supracitados: seria uma existência infeliz, desonesta, mas, a atividade do auto-engano me diria que ela (a minha existência) foi, de fato, dedicada à filosofia, quando, na verdade, foi mera repetição e, na maior das hipóteses, filologia, reprodução "apapagaiada" do que, de fato, grandes homens, já pronunciaram. Depois de desobnubilada a visão, certamente reconheceria que não tive a mínima e digna atividade intelectual de escrever e apresentar algo meu: me sentiria, na avançada idade, um infante nas idéias.


Quanto aos alunos médios, ou seja, aqueles que fazem de uso fanático das biografias dos autores, nestes pode-se detectar mais facilmente o vazio existencial no qual estão, na medida em que adotam um pensador como pai, na tentativa, essencialmente infantil, de ter como referência para sua vida um ídolo. Um exemplo bastante comum nos nossos dias reside na adoção do ilustre "ráidigué" ou como "cura" de problemas existenciais, ou como um pensador que, de tão "lido" e "interpretado" nos últimos tempos, pode render qualquer "coisa" numa monografia ou dissertação de mestrado.


Se a busca por Deus é, segundo Freud, a cura, ou a minoração desta eterna e árida infância do mundo, a atividade filosófica, não obstante, encontra-se no mesmo patamar. A face séria e comprometida com a verdade, com a clareza e com o entendimento, quando esquecida ou miserablizada opera de tal maneira que o quadro de estado terminal no qual se encontra a filosofia se agrave ainda mais. O que pretende resolver uma filosofia que não aponta que problemas visa resolver? Perguntemos aos estudantes que escrevem 120 páginas de pura circularidade e pouca resolução.


Usar a tradição filosófica como ornamento, como já dizia o notável autor da Crítica da razão Tupiniquim, a traveste em produto de consumo nas "Livrarias Cultura" pelo mundo. Sai-se de casa num fim de semana para ir ao zoológico da filosofia, para visitar os animais racionais, que provavelmente tenham algum "conselho auto-ajuda" na manga para dissipar qualquer espécie de expressão ôntica da angustia que é inerente ao ser humano.


Filosofia? certamente popularizou-se na sociedade, todos a aquilatam e a consomem a um preço justo: o preço dos aristocratas. Livros de filosofia "de verdade" são lidos aos milhares diariamente. A cura de Schopenhauer, Quando Nietzsche Chorou, Matrix e a Filosofia, Simpsons e a Filosofia, esses sim são hard philosophy, ou seja, diversão infantil.


Enquanto os próprios "filósofos das faculdades" a fizerem parecer ridícula e inútil, ao tratarem-na como jogo de vaidade e masturbação intelectual, os indivíduos que realmente desejarem pensar, no sentido genuíno da palavra, esbarrarão frente às atitudes infantes, que fazem a filosofia sair do campo da philia e adentrar a categoria das ciências que viram cabides de empregos que visam sanar a dor e a obscuridade da infantilidade humana. E se há um fato que nunca satisfez aos verdadeiros filósofos, é tentativa de congregar a infância com a filosofia. Possui dúvidas quanto a isso? Aconselho-lhe a ler a Ética a Nicômaco do ilibado pai das ciências:


Ora, cada qual julga bem as coisas que conhece, e dessas coisas é ele bom juiz. Assim, o homem que foi instruído a respeito de um assunto é bom juiz nesse assunto, e o homem que recebeu instrução sobre todas as coisas é bom juiz em geral. Por isso, um jovem não é bom ouvinte de preleções sobre ciência política. Com efeito ele não tem experiência dos fatos da vida, e é em torno desses que giram nossas discussões; além disso, como tende a seguir suas paixões, tal estudo lhe será vão e improfícuo, pois o fim que se tem em vista não é o conhecimento, mas a ação. E não faz diferença que seja jovem em anos ou no caráter; o defeito não depende da idade, mas do modo de viver e de seguir um após o outro cada objetivo que lhe depara a paixão. A tais pessoas, como aos incontinentes, a ciência não traz proveito algum; mas aos que desejam e agem de acordo com um princípio racional o conhecimento. desses fará grande vantagem. Sirvam, pois, de prefácio estas observações sobre o estudante, a espécie de tratamento a ser esperado e o propósito da investigação.