segunda-feira, 30 de junho de 2008

Técnicas de construção x construção das técnicas.

Se há um fato que proporciona à filosofia vôos um pouco mais altos do que os pequenos e inexpressíveis "pulos de sapo" da academia, é o raro, porém salvador, discurso de cientistas (epistemólogos) que a usam eficazmente para pensarem e examinarem os seus ofícios. Assim acontece com o discurso de Paul Virílio, urbanista e pensador parisiense [1932], que enxerga na sua arte desvios e perigos imensos, analisando-a de maneira tão profunda e densa, que mesmo os não-especialistas sentem-se tocados por suas preleções.

Pois bem, trouxe aqui para os caros amigos, e em especial para os amigos arquitetos e urbanistas, um texto do pensador supracitado dentro da sua obra O espaço crítico. Quem vive numa cidade que mais parece um canteiro de obras, como no caso da minha cidade [Recife], verá que sua fala é de uma verdade de domínio muito amplo. Se antes a arquitetura era permeada pelo comprazimento estético, se antes um observador "jogava" com as edificações, hoje a arquitetura parece estar servindo de mostruário às técnicas de engenharia e sendo tão deletéria ao meio ambiente quanto a indústria do petróleo por exemplo.


Vamos à passagem:

"Esquecemo-nos rápido demais que, antes de ser um conjunto de técnicas destinadas a permitir que nos abriguemos das intempéries, a arquitetura é um instrumento de medida, um saber que, ao nos colocar no mesmo plano que o ambiente natural, é capaz de organizar o espaço e o tempo das sociedades. Ora, esta faculdade “geodésica” de definir uma unidade de tempo e espaço para as atividades entra agora em conflito direto com as capacidades estruturais dos meios de comunicação de massa. Confrontam-se aqui dois procedimentos: um deles material, constituído de elementos físicos, paredes, limiares e níveis, todos precisamente localizados; o outro, imaterial, do qual as representações, imagens e mensagens não possuem qualquer localização e estabilidade, já que são vetores de uma expressão momentânea, instantânea, com tudo aquilo que esta condição pressupõe em termos de manipulação de sentido, de interpretações errôneas.
O primeiro, arquitetônico e urbanístico, que organiza e constrói duravelmente o espaço geográfico e político; o outro que organiza e desorganiza indiscriminadamente o espaço-tempo, o continuum das sociedades. Evidentemente não se trata aqui de um julgamento maniqueísta opondo física e metafísica, mas somente tentar vislumbrar o status da arquitetura contemporânea, em particular a arquitetura urbana, em meio ao desconcertante concerto das tecnologias avançadas. Se o arquitetônico se desenvolveu com o avanço da cidade, da descoberta e colonização de novas terras, desde que esta conquista foi concluída, a arquitetura não parou de regredir, acompanhando a decadência das grandes aglomerações. Sem deixar de investir em equipamento técnico interno, a arquitetura introverteu-se aos poucos, transformou-se em uma espécie de galeria de máquinas, a sala de exposição das ciências e das técnicas, técnicas derivadas do maquinismo industrial, da revolução dos transportes e finalmente da célebre “conquista da espaço”. Por sinal, é bastante revelador constatar que, quando falamos hoje em tecnologias do espaço, não se trata mais de arquitetura, mas somente da engenharia que pode nos enviar para além da atmosfera....
Tudo isso como se o arquitetônico fosse apenas uma técnica subsidiária, ultrapassada por aquelas que permitem o deslocamento acelerado, as projeções siderais. Existe aí uma interrogação sobre a natureza das performances arquiteturais, sobre a função telúrica dos domínios construídos e a relação de uma determinada cultura técnica com o solo. O próprio desenvolvimento da cidade como conservatório das tecnologias antigas contribuiu para multiplicar a arquitetura, projetando-a em todas as direções do espaço, com a concentração demográfica e o extremo adensamento vertical do meio urbano, tendência que, observemos, se dá ao inverso da organização agrária. Desde então, as tecnologias avançadas não deixaram de prolongar este “avanço”, esta expansão indiscriminada sobre todos os níveis do arquitetônico, particularmente com o progresso dos meios de transporte.
Atualmente, as tecnologias de ponta nascidas da conquista militar do espaço projetam na órbita dos planetas as residências e, quem sabe, no futuro, a própria cidade. Com os satélites habitados, os ônibus espaciais e as estações orbitais, locais privilegiados para as pesquisas tecnológicas avançadas e a indústria de gravidade zero, arquitetura levanta vôo, o que não deixa de ter conseqüências para o futuro das sociedades, sociedades pós-industriais cujas referências culturais tendem a desaparecer uma após as outras com o declínio das artes e a lenta regressão das tecnologias básicas.
Estaria a arquitetura urbana prestes a se transformar em uma tecnologia tão ultrapassada quanto a da agricultura extensiva? (daí os danos da conurbação).
Seria o arquitetônico nada mais que uma forma degradada de exploração do solo com conseqüências análogas às da exploração excessiva de matérias primas?
[...]hoje a metrópole é apenas uma paisagem fantasmática , o fóssil de sociedades passadas em que as técnicas encontravam-se ainda estreitamente associadas à transformação visível dos materiais e das quais as ciências nos desviaram progressivamente."