segunda-feira, 25 de agosto de 2008

"A morte não é um evento da vida" ou breve análise da obra "Death and Life" de Gustav Klimt.

É por que ela [a morte] não repousa sobre nada, por que carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido. De tanto acumular mistérios nulos e monopolizar o sem-sentido, a vida inspira mais pavor que a morte: é ela a grande desconhecida. (Emil Cioran)
A frase acima agita a analise que se segue. Interpretemos a finitude desde uma luminosa obra de Gustav Klimt. No cenário, à esquerda, encontra-se a morte portando um pequeno tacape às mãos. Com sua face sombria, ameaçadora e lôbrega observa “esperando” o momento mais propício—momento em que a vida tombará, não mais resistirá—para apoderar-se dessa vitalidade que persevera em se manter existindo.
À direita o ciclo da vida se sustém. Nascimento, desenvolvimento, o adolescer, emoções, alegrias, tristezas, reprodução, enfermidades e todos os sentimentos e fases físicas próprias aos homens, obedecem a uma fluidez inexorável que só poderá ter seu fio interrompido através da “chegada” dessa senhora, dessa alteridade misteriosa que vem até nós e toma de assalto o que lutamos para suster, como no connatus essendi proposto por Espinoza, ou seja, o esforço por perseverar em seu próprio ser e conseguir meios para que essa manutenção seja mais intensa e eficaz.

Nota-se nesta obra que a morte é ignorada a maior parte da nossa existência. Ela “olha” para nós de forma constante. Todavia não a analisamos, nem a “olhamos” constantemente, nem discursamos sobre ela diariamente. Com exceção das situações as quais ela inexoravelmente é a “bola da vez”: velórios, morte de parentes, desastres, guerras. É justo afirmar que não há quem não pense profundamente na morte se quer uma vez na existência, é fato. Entretanto—como já adotamos aqui—a vida é que se apresenta como um enigma indecifrável. A morte é demasiadamente certeira e não há respostas sobre o que ela “seria”. Sendo assim, a máxima wittgensteiniana «a morte não é um evento da vida» nos é muito cara. Em contrapartida seria ingenuidade da nossa parte ignorar a importância da morte para a história da filosofia—como propõe Schopenhauer. Porém, a importância que a morte subsidia para a vida é de caráter confirmativo onde uma é a condição de possibilidade da outra. Só há a possibilidade de analisar a própria morte vivendo, existindo.

É a vida e o vivente que conferem sentido a morte, seja através do discurso, seja do imaginário, do religioso, do místico, do folclórico. Ser para a morte é uma constatação demasiada exata. Todavia o perseverar na vida, no tempo em que se tem para continuar existindo, é tão forte ou até mais intenso do que essa caminhada até a inefetividade. “Ser temporal é ser ao mesmo tempo para a morte e ter ainda tempo, ser contra a morte”, afirma Emmanuel Lévinas.
Logo, a morte é que tem sentido dentro da vida e não a vida face à morte. Basta examinar a quantidade de concepções acerca da morte e do morrer dentro do globo. André Comte-Sponville, ilustre filósofo contemporâneo (1952), atualmente professor na Universidade de Paris, é assaz bem-sucedido na sua fala para o justo entendimento do nosso apontamento.
A morte é a regra, da qual a vida é a exceção. Nesse caso, porém, a regra só tem existência pela exceção que a desafia sem violá-la, que a confirma sem nela se perder. Aquilo que vivemos, a morte, que prevalecerá, não conseguiria abolir – por que a vivemos, por que teremos vivido eternamente. Todos os seres vivos morrem, e só eles, sem eles a morte não seria nada. Isso significa que é a vida que vale e que dá valor: mesmo a morte só tem importância por ela.
Os convivas heideggerianos diriam: “o buraco é mais embaixo”. Redargüiriam dizendo que a morte é o existencial, o que há de próprio no homem e as expressões acerca dela—sejam religiosas ou filosóficas, à exceção de Heidegger certamente—são modos possíveis de abordar a morte, modos ônticos. A filosofia do “buraco é mais embaixo” corre sérios riscos de se soterrar dependendo da profundidade dessa fenda.



quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Eleições: a época mais deprimente das nossas vidas.

É de uma dor mortis ter de conviver com essa espécie malacafenta de seres humanos os políticos buzinando nos nossos ouvidos e explorando nossa paciência visual todos os dias com seus cartazes e uma peculiar maneira viral de fazer auto-propaganda. Como é que poderemos ceder qualquer crédito a um candidato cujo jingle é uma paródia de “chupa que é de uva”? Clodovil está no congresso? E daí? Aplaudi o povo brasileiro quando soube da sua vitoriosa campanha. Isto denota que, ao contrário do que normalmente se imagina, essa nação é capaz de reagir contra os desmandos e depravações de Brasília. Se há um monte de criaturas excêntricas nos governando, por que não colocar alguém um pouco mais sério do que eles?


Como posso abonar, com meu voto, um candidato que já ajudou a defraudar a prefeitura da minha cidade? Este mesmo tipo de agente deletério encontra-se, na presente época, lindo, convertido e maquiado numa foto gigantesca estampada numa casa alugada na avenida onde moro, prometendo que vai doar até um dos seus rins para que a população viva melhor. A cretinice, de fato, toma conta desse nicho ecológico social. Parece-me que é diretamente proporcional à canalhice de um candidato, o número de votos que ele recebe.
Tive a in-feliz oportunidade de acompanhar de perto a historia de um prefeito de uma dessas tristes cidades do interior do Brasil, que deixou de remunerar TODOS os funcionários públicos da cidade [inclusive o seu vice] durante seis meses, exceto seus capangas, naturalmente. Depois disso, de maneira milagrosa, brotou ao meio da cidade uma casa faraônica com auxílio apenas do seu limítrofe salário de prefeito. Todos os cristãos sabem que Jesus é grande, ele transmuta uma simples remuneração em uma gorda fortuna, assim como multiplicou peixes e pães, basta retirar dos pobres e doar a si mesmo apenas te fé.
Como podemos diletar por mais de dez minutos sobre democracia, se no nosso distinto país um saco de cimento, um simples privilégio, uma “furada de fila” num hospital, entre outros atrativos miseráveis, conseguem comprar o voto? O Brasil é, sem dúvidas, um país bizarro pitoresco.
A esquerda virou situação e me lembra um pouco a direita do sociólogo desvairado ilustre Fernandinho "privatizar" Henrique. A direita está escandalosa por que necessita urgente tirar essa “raça do poder por pelo menos 30 anos” (não entendeu? Clique aqui). É por isso que prescrevo aos meus amigos: durante a sorumbática época de “eleições”, se te perguntarem se és Esquerda ou Direita, responda prontamente que sofres d'um alto grau de dislexia. Em suma, não desejo ser cúmplice de uma guerra entre gerentes.
Você pode estar pensando agora o quanto eu me enquadro perfeitamente bem no perfil do Analfabeto Político de Bertold Brecht.
Para todos os efeitos, o bom Deus nos proteja e que nessas eleições o candidato mais indicado ate então [aquele que jogou pela seleção na copa de 94, fez inclusive um gol salvador contra a Holanda] consiga obter algum êxito. Aos que ainda acreditam nos profissionais do picadeiro nobre esforço político, peço encarecidamente que, nos comentários desta postagem, tentem me convencer que ainda vale a pena votar. Diga-me, por favor, que ainda existe gente séria na esquerda e que na direita ainda existem liberais sérios, aqueles liberais teóricos que, por serem sérios ou teóricos, não se candidatam.



sábado, 16 de agosto de 2008

Categorias de aristóteles, os Emos e os Clubbers.

Aristóteles?

O que faz de um gato um gato e não um cachorro? O que faz uma pedra não ser um garfo? O que diferencia essencialmente as coisas? Por que a essência do Leão é a sua leonitas, a da cadeira é a "cadeiridade" e a essência do homem é a "humanidade"? Por que Dercy Golçalves não é Hebe Camargo, Por que Tony Blair não é Helmut Kohl, por que Thiago Pereira não é Michael Phelps, por que Lula não é Fidel, por que eu não sou você, amigo leitor e, finalmente, por que um Emo é um Emo e não um Clubber? Convoquemos aqui o analista e sistematizador dessas diferenças entre o ser das coisas e o modo de ser das coisas. Eis que tratamos do pai das ciências, o afamado Aristóteles. A necessidade de diferenciar, decompor, classificar, dividir, separar, apontar em que consiste a essência e o que é exatamente o predicado de um ser, foi o motor da edificação das suas Categorias.

Para analisar os predicados ou gêneros de um ser é necessário fazê-lo à luz das suas 10 categorias:
Substância (substantia), quantidade (quantitas), qualidade (qualitas), relação (relatio), lugar (ubi), tempo (quando), estado (situs), hábito (habere), ação (actio) e paixão (passio).

*Por favor Abbagnanno Help us!
[baixe aqui o dicionário.]

As Categorias são os modos em que o ser se predica das coisas nas proposições, portanto os predicados fundamentais das coisas. Enumera dez categorias, exemplificando como segue: lª - Substância, p. ex.: homem ou cavalo; 2ª - Quantidade, p. ex.: dois côvados; 3ª- Qualidade, p. ex..- branco; 4ª - Relação, p. ex.: maior; 5ª - Lugar, p. ex.: no liceu; 6ª - Tempo, p. ex.: ontem; 7ª - Posição, p. ex.: está sentado; 8ª - Ter, p. ex.: usa sapatos; 9ª Agir, p. ex.: cortar; 10ª Sofrer, p. ex.: ser cortado (Top., I, 9, 103 b 20 ss.; Cal, 1 b 25 ss.). A relação entre as Categorias e o ser é assim explicada: "Porquanto a predicação afirma às vezes o que uma coisa é, às vezes a sua qualidade, às vezes a sua quantidade, às vezes a sua relação, às vezes aquilo que faz ou o que sofre e às vezes o lugar onde está ou o tempo, segue-se que tudo isso são modos do ser” (Met., V, 7, 1017 a 23 ss.).

Prosseguindo, qual a diferença entre essência e predicado?

Simples. Essência é o universal, a substância primeira do ser, o imutável, o “inextraível" de um ser. O homem sem a racionalidade, o que seria? [não cometa a indelicadeza de pensar que seria um político!]

Ex:

*Homem (humanidade é a essência, a substância),
*Cavalo (a cavalitas, ou cavalidade, é a essência, a substância, o caractere universal),
*Música (musicalidade é a substância, a essência),
Enquanto que os predicados são características acidentais. Algo que se ajunta a substância primordial e não a altera, do ponto de vista metafísico, em nada.

Ex:

*Homem negro ou homem branco (ser negro ou ser branco são acidentes que se ajuntam à humanidade);

*Cavalo de corrida (o fato de ser corredor é um acidente que se ajunta à "cavalidade" afinal, nem todos os cavalos são de corrida);
*Brega, dub, trash metal, cumbia, arrocha ou ópera (ritmos acidentais na essência, na musicalidade);

Pois bem. Ser [ou optar ser] Emo ou Clubber manifesta, ex-põe apenas o acidental, são predicados que se agregam essência do homem. Nesse sentido, como entender a diferença específica entre ambos, já que são caracteres adicionados ao humano que tanto se assemelham? A tarefa pode ser equiparada ao entendimento da diferença específica [diferenças entre as espécies] entre um cavalo bretão e um Manga Larga, entre uma formiga Acromyrmex e uma Camponotus, entre um jegue e um jumento, entre um calango e uma lagartixa, entre Jader barbalho e Renan Calheiros.

Pode-se notar, claramente, que Charles Darwin, grandioso evolucionista, herda diretamente de Aristóteles esse modo de classificar os seres. Antes que os mais inteligentes me chamem de imbecil, tenho a justa medida que Aristóteles não era evolucionista, afirmo apenas que o ilustre naturalista britânico tomou para si e aperfeiçoou as categorias enquanto método. Recordemos:


Pois bem, a diferença específica refere-se às propriedades essenciais e particulares de cada espécie. Desta feita, se conhecemos um tipo de espécie, é forçoso que conheçamos a especificidade das suas diferenças.

Ex: Gorilas possuem em comum o gênero, a “macaquidade”, mas, entre si, dependendo da região, da alimentação e de diversos outros fatores podem diferir quanto a estatura, modos de acasalar, modos de exercer o territorialismo, etc. [E olhe que só existem duas espécies!]

Chegamos assim ao desfecho dessa apreciação fast-food sobre as categorias aristotélicas, cujo leitmotiv foi tentar entender a diferença específica entre Emos e Clubbers já que, como diria o discípulo de Platão, “a ciência conhece o homem e não o Emo ou o Clubber. Sem dúvida o que eu souber sobre o homem me ajudará a conhecer melhor o Emo e o clubber, mas conhecê-los já não é ciência.” Ou seja, só há ciência do universal, de caracteres comuns observáveis em diversos indivíduos. No momento em que uma ciência faz referência ao particular está se referindo à espécie.
Homem Emo e Homem Clubber, portanto, apenas se diferenciarão na última camada: a espécie.

*Homem:
Reino - Animalia
Filo - Chordata,
Classe - Mammalia,
Ordem - Primata,
Família - Hominidae
Espécie - Emotivus/Luminosus.

Representemos em formato besteirol:



domingo, 10 de agosto de 2008

Agora é oficial: aprovada lei Nº 11.684/2008


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Eis que a volta [ao ensino secundário] da filosofia e da sua co-irmã foi efetivada. Isso quer dizer que, além de chegar até Lula, foi aprovada pelo bom petista. Bom? Ruim? A única coisa certa é que será uma espécie de 13º trabalho de hércules limpar as indeléveis marcas deixadas nesse tipo de ensino devido ao seu péssimo exercicio atual e do estereótipo passado gravado nela. Uma série de perguntas devem ser feitas. A primeira: que filosofia é essa que será repassada às crianças e aos adolescentes? Como demonstrar aos pais e aos principais "afetados" por essa lei que essa disciplina não é dispensável como acredita a maioria dos seres humanos médios? Como poderemos nós, "profissionais" de filosofia, extirpar a figura d'um filósofo que carrega consigo o uso indiscriminado de drogas, apologia ao suicidio e a efetivação constante disso, aos questionamentos metafísicos indissolúveis e a ausência de vontades monetárias, amorosas e de sanidade mental.

Eu insisto em analisar a seguinte frase de um pensador nacional. Não pondero acerca dela de maneira passional, mas, a levo em extrema consideração por carregar em si um incômodo e real grau de verdade:

O pior é a moda da filosofia para crianças, um cabide de empregos e um abuso da inocência infantil: a filosofia não é coisa para crianças, como supõe o nosso execrável Ministério da Educação.SS Alquimicamente falando, a filosofia é o enxofre que cristaliza o mercúrio, a mente volátil, para produzir o sal – a alma perfeita. A cristalização prematura é um desastre alquímico, o congelamento da alma. Os professores de filosofia estão ajudando nossas crianças a sufocar suas percepções autênticas sob um discurso pseudo-intelectual de um artificialismo desesperador.

Estamos de posse de alguns anos para confirmar, subverter ou minorar a afirmação acima.

Talento e sorte aos atuais e vindouros professores de filosofia.



segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Filosofia em popularização.

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Ok...Ok... é brincadeira.

O que é menos provavel? Adriane Galisteu em doutoramento ou Calheiros escrevendo livro sobre ética?