domingo, 21 de setembro de 2008

A língua portuguesa possui um leve caráter nazístico? Há um padrão a ser seguido?

Quando alguém diz que odeia o sotaque nordestino, o mineiro ou o gaúcho, diz, de maneira inconsciente, que o modo normal de falar português está sendo desvirtuado. Sabe-se que no Brasil existem diversas maneiras "menores" de usar esta bela língua que nos foi imposta por Portugal.
O que seria de fato esse “modo normal”? E por que essas maneiras menores (os conhecidos sotaques e regionalismos) devem ser suprimidas, pisoteadas e vistas como uma aberração ou atraso na maneira "ideal"? Por que elas deveriam se submeter a esse modus padrão? Para além de análises históricas, antropológicas ou políticas, a questão central que vem à luz neste tema, diz respeito a uma dominação estética obtida por uma maneira de se falar português que não se vê articulada no Rio grande do sul, em Rondônia, em Belém do Pará, em Pernambuco, em Santa Catarina, no Espírito Santo, Em Cuiabá e mesmo em alguns lugares de São Paulo e do Rio de Janeiro. Alguns dos nossos confrades brasileiros acreditam que o afastar-se da maneira ideal de articular a língua portuguesa é um retrocesso dentro da sua reta pureza.
Analisemos um trecho retirado, adaptado e alterado do filme O fim e o princípio de Eduardo Coutinho:
Alguém que entrevista: posso te perguntar uma coisa?
Alguém entrevistado: S’eu subé eu li dig.
Alguém que entrevista: Em quem você confia mais?
Alguém entrevistado: 'In' mamãe, 'pque' mamãe me deu de mãmá, me deu papa, me 'trocarra' de ‘frada’ e aquele ‘negoço’ todo, e ainda hoje eu sinto... eu sinto que minha mãe me ‘qué’ bem”.

Por que o estilo de articular a língua portuguesa visto acima seria um retrocesso na língua e não uma inteligente e eficaz maneira de adaptá-la de tal sorte que ela se torne mais eficiente na sua transmissão? Não seria essa a grande idéia da “atual adaptação da linguagem” na internet? Ou vc axa ki escrevê assim ñ eh uma manêra de adaptar a língua de tal modo ki ela seja + rápida na sua transmissão? Qual é a diferença essencial nos exemplos acima? Por que esta última, mesmo sendo mais efetiva na alteração do rumo "normal" da língua, é menos discriminada? Aliás, transmito a pergunta d’outra forma: por que o modo de falar que aparece nos nossos telejornais seria de fato (mesmo que não de direito) o correto? E ainda mais: qual o real motivo que o torna este a situação, o “correto”?
A dinâmica da cultura e do ethos esclarecem de maneira simples. A roda do tempo traz consigo a antiga porém atual idéia de Heráclito da eterna e essencial mudança pela qual todas as coisas passam. Tudo muda e o que envelhece tende a ser domado pelo mais novo que está em sublevação. Certamente Heráclito já deveria saber que as épocas que o sucederam trouxeram à luz o fato de que a humanidade viveu num nível de duelos, combates e refregas tão constantes, que alguns grandes espíritos constataram que a competição, a supressão do adversário e a glória tornam-se predicados muito fortes que se ajuntam àquele belo e pacífico estado selvagem do qual falava Rousseau. O vencedor geralmente impõe seu modo de vida ao derrotado. Isso não exclui de modo algum o campo de ação da língua. Assim, não desejo analisar aqui a raiz da formação do sotaque gaúcho ou nordestino, se foi devido a imigração ou ao encontro de índios com negros, índios e europeus, negros e europeus, entre outros fatores. Apenas quero suscitar na mente de alguns leitores que, depois de tomarem vida própria, por que o resultado do relacionamento entre elas resultou no "vencedor" que conhecemos hoje? E por que algumas maneiras são completamente chacoteadas e rechaçadas?
Se analisarmos detidamente, notaremos que a língua portuguesa já foi bastante respeitada em algum momento do XV, na época das grandes navegações. Afinal, técnicos, intelectuais, pensadores e astrônomos que desenvolviam todo aquele maquinário náutico tinham como língua nativa a língua de Camões e a usavam muito bem na Escola de Sagres. Logo, ao serem procurados por outras civilizações que gostariam de conhecer as técnicas utilizadas na época, estariam espraiando a necessidade de compreensão da língua de D. João III. Quando a confiança técnica em Portugal perde espaço para outros países cujas línguas hoje fazem grandioso sucesso, naturalmente ela perde aquele espaço, é fatalmente apartada. Assim aconteceu com os “dialetos” brasileiros que, como no caso do caso analisado anteriormente (a maneira do sertanejo propagar sua linguagem), foi fatalmente apartado daquela hipotética maneira ideal de articular o português.
Mesmo não sendo uma linguagem determinante nas relações internacionais, no Brasil ela assumiu uma gama de formas que, como já antecipamos, não se equiparam a maneira “normal”. Logo, e agora sim adentrando superficialmente à política, a região do país que mais se destacasse em competição com as outras (naturalmente através dos “políticos” e o jogo dos seus interesses) desde a colonização até o período da industrialização, conseqüentemente faria seu modo de efetivar a língua portuguesa tomar um campo de dominação que, de ideal, viria a ser a situação da “modo perfeito” de proferí-la.
E nesta guerra de "todas as línguas contra todas as línguas", ou melhor, de "todas as linguagens contra todas as linguagens", no Brasil vemos claramente quem é o vencedor:





segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Nota de falecimento [Richard Wright]




Morre aos 65 anos Richard Wright, tecladista e fundador da banda inglesa Pink Floyd. Como a estética musical é imprescindível aos produtores de qualquer tipo de conhecimento, deixamos registrado aqui nossa homenagem a tão ilustre personagem. Sem lamentações exageradas e sem mais palavras, apenas agradecemos sua existência e o que dentro dela nos foi oferecido. Mais...



Você pode estar se perguntado qual a relação dele com a filosofia. Escute os primeiros álbuns da banda e entenderás.



sábado, 13 de setembro de 2008

[Piada Interna] Taxonomia do estudante de Heidegger.


Taxonomia do estudante de Heidegger

1º O Heideggerianta, Heideggerialóide ou Raidiguériano – Adjetivo auto-explicativo. Este é uma espécie de estudante de pouco pejo. Assim como "o jornalista* que leu Ser e Tempo e não entendeu” (essa frase não fui eu quem inventou), lê o nazistão** como se fosse auto-ajuda. É de fato um Joselito que, mesmo presente a um velório, suprime o clima fúnebre ao pronunciar frases de efeito como: - Pessoal, é assim mesmo, todos nós estamos fadados a morrer, é uma característica inexorável do ser humano, é um existencial, como diria uma filosofo que eu conheço, o ráidigué.
**Não entendeu por que Nazistão? Clique aqui ou aqui e informe-se sobre.

2º O Heideggerianóide – Chiste com o objetivo de mesclar a terna “palavra” Heidegger com a maquinosa palavra andróide. É bastante normal no estudo da obra de qualquer autor o “andróidismo filosófico”, a mimética macacóide e papagaióide, ou seja, a imitação e mera reprodução. Aliás, é condição inexorável que um estudante de graduação em filosofia seja doutrinado e, conseqüentemente, imite e reproduza conceitos de maneira robótica. O esforço desta espécie resulta como uma tentativa de traduzir um texto de Shakespeare no Google Translate: para quem não conhece a língua, ajuda, para quem a domina doem o ouvido e o espírito. Em suma, imagine um robô tentando rebolar como uma morena da Sapucaí.

3º O Heideggerianeth – Se você pensou: - ei, isso me lembra as chacrets, aquelas vedetes do Chacr
inha! você foi feliz na opinião. Um(a) heideggerianeth se emociona profundamente ao ler a biografia do alemão realizada por Safranski e arranca os cabelos tornando-se histérico(a) se tu cogitas a possibilidade do filósofo de Ser e Tempo ter se filiado ao Partido Nazista. Geralmente ostenta em algum cômodo da sua residência uma foto com uma pose muito marota do pensador (isto quando não ergue um altar em sua homenagem). Dentro da sua circunvizinhança tenta, de maneira ridiculamente prosélita, arrebanhar colegas para grupos de estudo. Arrota em qualquer oportunidade a belíssima e aristocrática história de vida intelectual deste inesquecível filósofo ocidental. (Atenção: não existem filósofos orientais meu rapaz!) <--- Outra piada interna.
Sobre esta espécie de estudante, confira aqui a diferença entre um fã de filósofos e um estudante de filosofia.

4º O Vaideggeriano – O estudante Maria-VAI-com-as-outras. Assim o é por ter se esgotado, se entediado ou se esfalfado de ler Rousseau, Maquiavel, Descartes, Kant, Hegel entre outros vovôs. Encontra-se, portanto, sem uma figura paterna para sanar seu desamparo infantil. Desta feita, sai desesperadamente em busca de algum filosofo com “tutano”, que seja impressionante ou, em último caso, lhe dê uma monografia de impacto ou ao menos lhe insira na moda. Esta espécie de estudante geralmente é convertido ao heideggerianismo pela terceira espécie supracitada: o heideggerianeth.
5º - O Heideggeriano - Fez doutorado, especialização e 4 pós-doutorados na Alemanha. Afinal, só “se pode filosofar em alemão”. Ou, quando não, estuda responsavelmente a obra do germânico mesmo em língua portuguesa. Em relação a este não se pode chacotear, afinal, é o único que pode ser, em certa medida, levado a sério. Apenas os analíticos crêem que é uma estupidez levar a sério uma filosofia da existência. Mesmo assim, a obra do pensador em questão, se levada realmente a sério, mostra-se como uma das maneiras mais eloqüentes de analisar o homem (é isso mesmo!), sua “queda” no mundo e sua relação com o fado da sua finitude.
Bônus:
6º - O Heinekeriano – O estudante que ama citar Heidegger quando está em lugares sagrados [bares], consumindo bebida sagrada [cerveja] para impressionar criaturas sagradas [mulheres] ou [Homens] dependendo, naturalmente, da opção sexual.


N.B: Admiro a forma grandiosa da obra deste camper. O humilde estudante que vos fala crê encontrar-se num ponto intermediário entre o heideggerianta e o heideggerianóide, professando, ainda, uma fé heinekeriana.
Agradecimentos especiais: Franzé, Pedro, Diogro, Severino e todos aqueles que me ajudaram, de uma maneira ou de outra, a desentranhar uma ou mais das especies citadas acima, cabendo a mim fazer a despretenciosa descrição.



segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Existenciarte: condições suficientes e necessárias para a "evolução" da humanidade.

Salve salve Schopenhauer! (não entendeu? baixe aqui, leia e conclua por que as imagens abaixo possuem certa comunhão com uma célebre e odiada obra deste pensador alemão).

Clique para ampliar
Obra de arte realizada por Milo Manara.

É necessário escrever algum texto tendo posse d'uma expressão tão forte como essa? Aproveitem e bom jogo.

Não deixem de observar como a religiosidade perpassa de maneira bizarra cada época elencada. A hipocrisia é um dos pilares mais fortes da moralidade.