segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Enquanto as coisas acontecem...

Enquanto as coisas acontecem, nós da academia e da sociedade brasileira permanecemos num "sono dogmático". Ontem, 26 de outubro de 2008 o phiblogZophe, blog filosófico do jornal francês LeMonde, publicou um grandioso resumo sobre a querela apontada dia 25/10/08 aqui em nosso blog, sobre o possível envolvimento de Heidegger com o nazismo e a edificação do seu pensamento sobre um possível pan-germanismo facínora. Não é uma constatação animadora saber que a comunidade internacional debate temas sobre a vida e a filosofia deste gigante de maneira acadêmica e também pública, já que o LeMonde é um jornal acessível, e nós aqui, na Meca do futebol, permanecemos, ainda, em leituras descontextualizadas de Ser e Tempo [Salvas exceções].
Indivíduos enaltecem-se das leituras diárias do pensador alemão, afirmam serem verdadeiros especialistas e hermeneutas da obra do aluno de Husserl, mas desconhecem, por exemplo, o processo de abertura dos seus arquivos pessoais, o que tem motivado diversos e acalorados debates entre pensadores realmente empenhados em destruir sua imagem ou defendê-la de maneira enérgica. Por favor, amigo leitor, não pense que quem escreve neste momento é um grande e pedante técnico ou perito no filosofo em questão. Ao contrário, tenho leituras humildemente parcas, sequer chego aos pés dos heideggerianeths que já citei na minha taxonomia. Na verdade os dois filósofos que me ocupo em estudar no momento me são passíveis de superação de maneira urgente, a saber: Martin Heidegger e Emmanuel Lévinas (Alemão e Judeu). A perspectiva da singularidade radical me soa tão totalitária quanto a da alteridade radical. Há como encontrar meio termo? Começarei minhas pesquisas com mais empenho na pós-graduação e quem sabe não manifesto aqui os resultados num futuro próximo?
Pois bem, voltando ao nosso assunto principal, como serviço público pretensamente neutro, repassarei a maioria dos links possíveis para os amigos leitores mergulharem de maneira efetiva nesta grandiosa altercação (desculpem a maioria destes serem em francês).
Existe apenas um texto publicado na rede em português sobre o tema.
Eu traduzi um texto introdutório de Claude Jannoud, escritor do livro O inverso do humanismo, que nos situa bem em toda esta movimentação.
O Livro de E. Faye, se desejares adquirir.

Baixe aqui o prefácio deste polêmico livro.
O curriculum do ousado E. Faye.
O site do professor François Fédier e toda sua equipe de escritores do Dossier Heidegger à plus forte raison. Existem neste domínio vídeos (um deles bastante polêmico que mostra uma possível desonestidade acadêmica de Faye), muitos textos, réplicas, artigos, entrevistas, leituras de Ser e Tempo e material afim. Para acessá-lo clique aqui.

Manifesto em 15 línguas para divulgar o livro e o site.
Fédier é autor do livro Soixante-deux Photographies de Martin Heidegger. Este é extremamente indicado aos heideggerianeths de plantão.


Capa e link da matéria publicada ontem no phiblogZhope
26/11/08


Um Debate
entre Faye e Fédier em fevereiro de 2007
Comentários interessantes de Hadrien France-Lanord : c’est mal parti!
A mais completa cronologia da obra de Heidegger para você ter a possibilidade de comparar as datas pronunciadas pelos pensadores.
Se desejarem comprar um dos principais livros de Fédier: Heidegger, anatomie d'un escandale.

Depois não venha afirmar que estava por fora dos acontecimentos sobre este assunto em pleno 2008. Sem contar que os links citados aqui abrem incontáveis outros. Boa diversão!




sábado, 25 de outubro de 2008

O caso Heidegger

Refregas sobre o envolvimento ou não-envolvimento do filósofo da floresta negra com o nacional-socialismo foram travados durante um bom tempo no pós-morte do altivo. Emmanuel Faye, filosofo francês, diretor do Centre d'Histoire de la Philosophie Moderne et Contemporaine e vice-presidente da Université Européenne de la Recherche (Paris), é autor do polêmico livro Heidegger: introdução do nazismo na filosofia, oriundo dos seus esforços críticos sobre Heidegger e o nacional socialismo. Suas teses são recebidas como ridículas por alguns acadêmicos como é caso de François Fédier que publicou um livro-dossier chamado Heidegger à la plus forte raison, que sai em intensa defesa de Martin afirmando que Faye é um caluniador. Aqui você pode ver as discussões atuais sobre esse tema desde o domínio de Fédier e seus camaradas. O Texto abaixo, de Claude Jannoud, nos situa bem e de forma resumida dentro de toda esta agitação, apontando o que há de aproveitável nas considerações de Faye e por que o alemão não pode ser injustiçado deliberadamente. Em breve, publicarei as fortes réplicas dos seguidores de François Fédier que acreditam ser Feye o mais desonesto leitor de Heidegger de todos os tempos.



Claude Jannoud / 16 de Abril de 2005.
Tradução: Raphael Douglas M. T. Filho
Para ver o artigo original clique aqui.
Para constatar onde
toda esta querela começou, baixe o prefácio do livro, Heidegger: a introdução do nazismo na filosofia.[FR]


Uma obra inquisitória afirma: o filósofo fez de teorias nacionais-socialistas o fundamento mesmo da sua obra

A acusação[1] de Emmanuel Feye contra Martin Heidegger é implacável. Nazista de coração, o autor de Ser e Tempo já era antes da ascensão de Hitler ao poder em 1933. Logo que foi nomeado reitor da universidade de Friburgo, sua declaração de amor pelo Führer não foi fortuita. Sua fidelidade ao regime, até seu desmoronamento, nunca foi desmentida. Após a guerra, Heidegger se esforçou, falsificando seus cursos dados durante esse período, em obter uma nova virgindade, mais ele jamais negou seu passado, nem pediu perdão. Racista, Heidegger permaneceu assim até sua morte. É, afirma Emmanuel Faye, o fundamento de sua filosofia.

A raça e o sangue

O autor, para sustentar essa tese, não mediu esforços. Ele segue de perto o culpado desde 1920. A partir dessa época, o anti-semitismo de Heidegger é sensível. Ele se vale, por exemplo, da invasão judaica na universidade alemã. De acordo com Faye, Ser e Tempo, que fará de Heidegger célebre do dia para a noite, não é uma empresa puramente filosófica, mas um projeto político que se inscreve nos fundamentos mesmos do nacional-socialismo. Dá como prova o parágrafo 74 sobre a comunidade de destino de um povo.

Em 1933, reitor na Universidade de Friburgo, Heidegger apura. Os professores e estudantes judeus são cassados. Ele aceitará a exclusão do seu mestre Husserl. Segundo alguns, teria tomado distância dos nazistas logo que foi demitido em 1934 do seu posto de reitor. Faye não compartilha dessa opinião. Em 1936, no seu curso, Heidegger faz um novo elogio a Hitler.

A partir dos seus primeiros cursos sobre Nietzsche, em 1936-1937, na ocasião de uma importante passagem suprimida na edição de 1961, mas restabelecida em 1981, Heidegger se porta violentamente contra a democracia, apresentada como a morte histórica da Europa. Em 1941-1942, no seu curso redigido, mas finalmente não pronunciado, sobre a metafísica de Nietzsche, não hesita em apresentar o treinamento dos homens e o princípio de uma seleção de raças como filosoficamente necessárias. De acordo com ele, a vontade de potência está ligada à raça e ao sangue. Em 1945, esperando passar por adversário e perseguido pelo regime, Heidegger declarou que na época dos seus cursos sobre Nietzsche fora supervisionado pelo serviço de segurança do Reichsführer. Se é verdade que tal relatório foi redigido em 1938, é no entanto benevolente: “Ela aprova o Estado nacional-socialista? Sim.”, “É politicamente confiável ou não confiável? Confiável.” Sua demissão do reitorado, em 1934, não é percebida como a expressão de uma tomada de distância em relação ao regime: “Deixou o seu posto dado que não possuía as capacidades táticas requeridas para assumi-lo.”

Após essa longa acusação, Emmanuel Faye conclui: “Na obra de Heidegger, esses são os princípios mesmos da filosofia que são abolidos. Como se poderia considerar como filósofo um autor que se serve de palavras as mais elevadas para além da filosofia para exaltar a potência militar do nazismo e justificar a mais mortífera discriminação? Tal obra não pode continuar a figurar nas bibliotecas de filosofia.” Mas como, nesse contexto, Heidegger pôde conquistar popularidade mundial, notadamente na França?

Uma devoção que perdura

Houve três grandes períodos do culto a Heidegger entre nós, como recorda Emmanuel Faye. Sartre foi o principal ator da primeira. A influência de Ser e Tempo sobre O Ser e o Nada é importante. A segunda onda, oposta à primeira nos seus pressupostos, foi inspirada pelo anti-humanismo da geração de Althusser e de Foucault. Os representantes da terceira retomaram o mesmo heideggerianismo do fim da metafísica e da sua superação. Daí nasceu a “desconstrução”, ilustrada por Derrida e por outros, que exportaram para os Estados Unidos. A devoção perdura, aliás, na nova geração; como prova, o importante livro, não somente por seu volume mas também por sua erudição, de Maxcence Caron[2] que absolve o filósofo de todo racismo.

Nesse contexto, a Gallimard[3] acaba de publicar um livro de Heidegger cuja primeira parte é justamente consagrada ao curso do semestre de inverno 1941-1942 que se intitula A metafísica de Nietzsche. Que Nietzsche, contrariamente ao que ele acreditava, foi o último metafísico, Heidegger já tinha dito repetidamente. É a influência da metafísica da história ocidental que há vinte séculos é o tema maior e original desse curso. Os europeus, disse Nietzsche, foram incapazes de inventar um Deus durante dois mil anos. Os tempos modernos, os progressos gigantescos da técnica, uma nova barbárie são o resultado dessa longa história. “Nem mesmo a privação do país terá sido poupada, na ausência de Deus e na ruína do mundo, ao homem dos novos temposO país para Heidegger, é a Alemanha, a dos poetas e dos pensadores. “A potência do entendimento que se limita a fazer contas grosseiras invadiu a Alemanha.” Esses propósitos de Heidegger confirmam, em certa medida, as teses de Emmanuel Faye. Ele foi realmente um nazista até a derrocada final, porque estava convencido da superioridade dos alemães, os sucessores dos gregos. Ele detestava essa época, assim como a democracia. Sobre esse tema, permaneceu irredutível até a morte. Heidegger foi um grande filósofo? O porvir o dirá, mas foi um professor extraordinário; como em testemunho, a admiração dos seus alunos, entre eles numeram judeus que se tornaram famosos, Arendt, Jonas, Marcuse, Levinas, que não perdoaram seu comportamento em 1933, mas nunca esqueceram o que lhe deviam.



[1] Heidegger, l'introduction du nazisme dans la philosophie, autour des séminaires inédits de 1933-1935, d'Emmanuel Faye, Albin Michel, 576 p., 29?.
[2] Heidegger, pensée de l'être et origine de la subjectivité, de Maxence Caron, éditions du Cerf, 1760 p., 89?.
[3] Achèvement de la métaphysique et poésie, de Martin Heidegger, traduit de l'allemand par Adeline Froidecourt, Gallimard, 208 p., 19?.




quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Corroborando minha teoria

Não sei se os estimados leitores recordam, mas sustento que a filosofia [acadêmica] tem feito parte do macambúzio circuito da infância do mundo. Comparei o "estudo" da filosofia a um álbum de figurinhas do campeonato brasileiro ou ao supertrunfo, um cardgame que ficou bastante famoso anos atrás. Eis um breve trecho:

Afirmo que a carreira filosófica, do modo que é tratada em nossos dias, mostra-se demasiadamente infantil. Isto por que tornou-se mais uma atividade genérica entre um grupo "seleto" de indivíduos. Mais de dois terços das atividades humanas são realizadas por necessidade de escoar a carência e a eterna infância da qual o âmbito dos humanos é, inexoravelmente, refém.

Possuir uma TV de 29 polegadas é um desejo infantil, um estádio de futebol é uma obra arquitetônica que tem como base a puerilidade dos homens, um técnico de futebol, que aos seus 70 anos, continua nessa "profissão", é consideravelmente infantil, o Estado é a necessidade de abrigo para crianças desamparadas (os cidadãos). Tanques de guerra, armas nucleares, cirurgias plásticas, cadeiras com design arrojado, controles-remoto, satélites, mídia, realities shows, formatura, talheres de prata, um império, uma Ferrari, fast food, exibicionismo, um texto como esse, a vaidade, internet, prédios, sexo grupal, anti-depressivos. A necessidade de fabricar, construir, fazer, comunicar, provar, reprovar e produzir a qualquer custo é sinal patente de como o ser humano é um animal completamente tomado por seus medos e fraquezas mais infantis. Por que seria diferente o envolvimento desse ser pueril (os habituais) com a velha senhora, a filosofia? Leia mais...

Destarte, desbravando os infindos cantos da internet, encontrei o seguinte cartoon que corrobora minha teoria de maneira substancial que até então compreende a infância do mundo, a necrofilia filosófica o fanatismo e a monotonogamia filosófica. Este work in progress encontra-se desentranhado no post sobre a taxonomia dos estudantes de Heidegger e no aforismo que diferencia um estudante de filosofia e um fã de filósofos.

- Ok então, eu troco com você meu Kierkegaard pelo seu John Locke...
- O quê? Trocar o fundador do empirismo britânico por merda velha existencialista? Cai fora!




quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Parmênides, Deus e uma criança de 5ª série.

Num dado momento da minha experiência de ensino de filosofia, me encontrava numa aula para a 5ª série de uma escola da rede particular. Na 5ª série eles não ultrapassam os doze anos [se estiverem naturalmente seguindo bem na escola]. Um aluno nesta idade é (como postula um grande amigo e professor) “uma massinha de modelar bem molinha e de boa vontade”. Pois bem, falávamos do eleáta Parmênides, grandioso filosofo pré-socrático cuja filosofia sustentava a eterna permanência e estabilidade do Ser: o pathos da eternidade. Apenas o que importa é o Ser, o não-ser não pode ser conhecido, logo não possui validade real. O Ser é e o não-ser não é, dizia. Neste sentido o Ser seria Uno, Eterno, incriado e Imutável. Eis que exponho ao público desta tão jovem classe a sua famosa frase: “Do nada, nada pode nascer”. Neste sentido não haveria evolução, o homem não viria do macaco, nada se transformaria em nada. Tudo, após a criação, está posto e continuará sendo como sempre foi: pau que nasce torto nunca se endireita (eis um belo provérbio para as crianças entenderem Parmênides). Logo após proferir a frase deste filosofo originário, uma das crianças situadas à minha extrema direita manifestou certo incômodo e não tardou para que suscitasse o seguinte questionamento:
- Professor! Seguinte, se “Do nada, nada pode nascer”, de onde vem Deus?
Naturalmente que fiquei atordoado, afinal, para pessoas tão jovens o “amén” é via de regra.
- Veja bem meu querido – respondi – Deus só é Deus por que é incriado, é causa de si mesmo, pois, se houvesse sido criado seria criatura, logo, não seria Deus.
Ele parou alguns instantes e voltou a se incomodar. Eu senti de fato que ele redargüiria. Fiquei esperando apreensivo para ver até onde poderia ir um espírito tão livre e tão inexperiente. A desordem que imperava ao meu lado esquerdo foi emudecida pela espera do que sairia da gulliver daquele guri. E eis que, depois de bons minutos, ele questiona:
- Professor! Então quem foi o Deus que criou Deus?
Confesso que me constrangi ao máximo. Primeiro por me orgulhar da profundidade na qual ele havia já chegado. Segundo por que não poderia, infelizmente, dentro de um colégio cristão, responder com a seguinte imagem: