quarta-feira, 20 de maio de 2009

Vidas se encontram, vidas se separam.

Todas as coisas e eventos são finitos, não é novidade. Segundo o imortal Ἐμπεδοκλῆς, o amor une e o ódio separa. Seja a vida à morte, as pessoas, os animais, os partidos políticos, as religiões, os planetas e tudo aquilo que precisa-se. Amor e ódio não são apenas estados afectivos, são necessidades ontológicas. Todavia, experimentar o fim e suas conseqüências não é lá nada de tão fácil como nas fórmulas lógicas. Lógico que enquanto duram, as coisas "não acabam". Viva a sensação de eternidade! É triste, mas o sorriso da sua mãe um dia acaba, o amigo escolhe a Argentina, toda espera tem termo, a cerveja termina e a conta está cara, aquela obturação feita há uma década cai, a música que te dá comprazimento estético dura em média cinco minutos, a dor - por mais aguda que seja - passa. A vontade, seja lá qual for o objeto, quando satisfeita, finda e recomeça. O Parthenon um dia vai cair assim como o eterno império romano caiu. A terra que sempre foi o centro do universo levou uma patada tripla com Copérnico, Kepler e – finalmente - com Galileu e uma revolução (que já passou) foi realizada. E, em suma, alguém que te oferece vida - vida viva, que dorme, acorda e toma todinho na escola - pede pra sair e você quer que saia. Não há repouso. Vida estática só existe na não-vida. Em Pernambuco se diz: "se não agüenta, pra que veio?" Passado (pré), presente (já) e futuro (pró) representam uma imagem semimorta que só fazem sentido na cabeça de um ser finito. Fora dessa agitação insana da matéria nada precisa fazer sentido. Viver uma vida cujas possibilidades estão sempre em aparecências rapidamente finitas (obrigando o sujeito a mudar de posturas e opções de maneira veloz e, com a mesma celeridade, passar por angustias ônticas) pode conspurcar as percepções, os gostos, as vontades, as lágrimas e mesmo assim, amar a vida não é traição. Nem a p**** da biologia explica bem o que é a vida, assim como os físicos acreditam piamente possuir um conceito razoável para a matéria. Vida? Paradigma individual. O ser humano não é um um ser meramente biológico, é um animal biográfico. Viver? Respirar o ar de algumas pontes, dar amor a gente azulada, beber líquidos coloridos, pensar que está pensado, vagar pedagogicamente, chafurdar monetariamente, oferecer pílulas filosóficas, viver de perto um carnaval, um filho que cresce, escolher a escolha, nem sempre entender, entender o não-sempre, ver a idade passar, “abrir os braços pra guardar”, achar engraçado como há pessoas que nasceram em 1990, acreditar num tempo pendular e sofrer com as lancinantes e intermitentes mudanças, tudo isso junto, só pode fazer um filho da p*** viver de maneira existencialóide. Preze por seu habitat amigo leitor. Suportar, sugar o tutano da existência e sentir que se pode ser si-mesmo uma vez na vida é tarefa difícil, é faina de doido. Existir é entrar num rio cujo final é inevitavelmente uma cachoeira de 1.000 metros de altura: sem dúvida se despencará, mas se você tiver remos para manobrar nas partes mais lodosas evitarás que a caminhada acabe antes do tempo numa colisão de frente com uma pedra, um tronco ou num encontro com diversos predadores. E, sabendo remar sozinho, se conhecerão caminhos mais autênticos, mesmo que não sejam os mais cômodos e os que todos aqueles que não possuem remos seguem de maneira inadvertida e guiados por todos e por ninguém. Aprenda a dizer Adeus e a sentir que existir é ser carga para si mesmo ilustre amigo. Entretanto, aprendamos ainda mais que a vida é muito mais simples do que se pode intuir. Sorrir, trepar, comer, beber e olhar nos olhos das pessoas na rua: faça esse exercício. Aprender a dizer adeus não é gostar de dizê-lo.



sexta-feira, 15 de maio de 2009

Deus,nós e a tradição.


Parece-nos que a presença de Deus é evidente
(St° Tomás)

Tema batido e insistentemente recorrente na história mundial. Mas, por que, logo eu, deixaria de tratar disso? Quem já fez parte de alguma pastoral sempre acaba se impressionando com o poder que papai do céu exerce no imaginário popular. O sacro e o santo, reconheçamos, mexe decisivamente no psicológico e, infelizmente, no fisiológico do humanóide que vai crescendo. Mas o tema Deus, Seja no oriente – com Sidarta, Buda, Shiva, Izanagui e Izanami, Ormuzd e Ahriman, Alá, entre outros – seja entre nós ocidentais, sempre é posto em discussão, seja no bar ou no Vaticano. Como nos indica certo padre hegeliano, nos seus Escritos de Filosofia, “não existe no mundo uma civilização que não tenha demonstrado dotes religiosos”.
Seja negando, afirmando ou re-negando, demonstrando ateísmo ou crença cega e total, a “presença de Deus” é um tema posto a baila inexoravelmente, sempre, não importa o âmbito.
Na Grécia, detectamos o conhecido politeísmo aliado ao antropomorfismo divino, em Roma não foi diferente. No helenismo conseguimos enxergar Epicuro discordar dos atributos que os seus contemporâneos imputavam aos deuses, e dizia que sim, eles existem, mas estão tão longe dos humanos quanto o jardim que ele havia criado para se afastar da putrefata política da cidade. Nos deparamos também com Cícero, ilustre orador romano, exortar Júpiter, nas suas Catilinárias, agradecendo por ter descoberto as tramas de Lúcio Catilina contra Roma. Do mesmo modo Sêneca e os ilustres estóicos romanos apologizando a deusa fortuna - a sorte, o destino.
No medievo, onde a questão divina é obviamente pontual chegamos até Anselmo que, nas suas grandes obras[1], busca provar a existência de Deus através apenas da ratio, independendo das sagradas escrituras, a famosa Teodicéia. Não obstante o filósofo que encabeça esse texto, St° Tomás que aponta o sumo grau de perfeição do ser de Deus, ou ainda, o que dizer de Duns Escoto que eleva Deus como algo ainda maior que as Perfeições Puras.
De fato, a existência de Deus é um tema paradoxalmente anacrônico e continua em urgência diariamente por que diz respeito ao mistério, ao obscuro, ao indeterminado.
Na modernidade, por sua vez, Deus é racionalizado, discutido não à luz da fé, mas sim da reta razão. O Deus de Descartes não é o Deus de Jacó, mas um Deus que fecha um grandioso sistema. D’outra parte Leibniz se questiona: “Por que antes o ente e não antes o nada?”, “Por que as coisas são da forma que são e não de outra?” Determinismo divino ou obra do acaso?. Hegel por sua parte caminha para mostrar dialeticamente a perfeição e a infinitude do intelecto divino.
A questão possui uma proporção tão dantesca que—regressando um pouco cronologicamente—nos abismamos ao sentir a força da questão quando Voltaire pronuncia: “Se Deus não existisse seria necessário inventa-lo”.
E quem é Deus na contemporaneidade? Seria aquela projeção com a qual se referiu Xenófanes na antiguidade? Deus é produto do desespero, carência e medos do homem? Nietzsche acerta ao fazer a psicologia do cristianismo quando diz que essa é a religião da negação da vida, dos fracos e “filisteísmo trivial?” ou essa assertiva é equivocada? Deus é um instrumento de administração, domação e supervisão social como disse um desses pensadores do capital? Deus é o homem duas vezes como nos disse aquele outro grande sociólogo?
Especula-se muito, diversas respostas já foram dadas, não apenas pela tradição filosófica, mas também, pelo common sense, por teólogos menores e até a ciência tenta desvelar tal questão com seus métodos apodíticos, redutores e demonstráveis.
O fato é que, por fazer parte de um campo misterioso, um problema metafísico indissolúvel, um axioma gigantesco, creio que temos poucas opções honestas de resolução e proponho aqui só duas para o leitor angustiado e sedento por respostas: religião ou filodoxia.
Amén.

[1] Monológio e Proslógio