quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A verdadeira vida está ausente?


A vida está acima das cadeiras, dos computadores, dos prédios, dos Iphones. Uma vida não vale a pena ser vivida sem musicalidade, sem êxtases que nos desprendem até das roupas do corpo. O homem é um animal metafórico. Tem tendências a flutuar e descolar os pés do chão. Animal metafísico. Mas, se a verdadeira vida está ausente, nós estamos no mundo, dispostos e cheios de tonalidades afetivas. Como falar em finitude se somos nós buracos negros de desejos insaciáveis e de vontades intermináveis? Eles mesmos, os desejos! Que fazem do corpo um libertino, um rebelde, um insaciável. E o que é o corpo? Um não-eu? Quando se diz “meu corpo”, não se comete uma abstração infiel? Eu não tenho um corpo, eu sou um corpo: eucorpo. Ser corpo é corporar. Afinal, há um piloto em nós? É o corpo uma nau e a alma o navegador? Os modernos foderam nossas percepções sobre nós mesmos. Decapitaram o espírito do corpo de tal forma que a face carnal em nós é obstáculo, imperfeição, prisão! Sem o corpo, sem a carne, sem a disposição espacial do nosso esqueleto, não há sequer compreensão. A captação do mundo por um anão não é a mesma de alguém com gigantismo. Alguém obeso não está disposto no mundo como está uma pessoa que sofre de anorexia. O impacto do mundo pra quem vive no Saara não é o mesmo para quem vive na Sibéria. Quem não vê nada morrer, não vive a morte. Quem só observa morte ao redor, da vida esquece. Para um desempregado, o mundo se mostra como oportunidade. Para um depressivo, o mundo possui tons cinza e o Sol não aquece tanto. Se há algum fator mais forte que a morte, esse é o amor. Eros faz Thanatos sucumbir. É através do erotismo que os indivíduos se achegam e se reproduzem, conferindo uma eternidade virtual às espécies. Não é a filiação a extensão da existência de um indivíduo? A glória da genética.



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Preconceito: uma trilogia

Saudações amigos. Depois de muito esforço de discussão, disponibilizo aqui três textos que escrevi recentemente acerca de um problema que, apesar de ter re-tomado notoriedade após as eleições presidenciais, tem suas origens em um passado imemorial na história da humanidade. Me sinto no desejo de discutir esse tema com honestidade e sem os falsos atrativos dos discursos edificantes. A discriminação é um fenômeno evidente, diluido homeopaticamente entre todos nós. Nos resta tratá-lo sem os insumos do ancião conceito de tolerância. Entender a diferença começa por enxergá-la como não-indiferença.


Obs: O texto "Mayara Petruso e um Nordeste que não conheço" foi visitado pela produção do programa MTV DEBATE. Por isso, fui convidado a discutir o tema nos estúdios da MTV em São Paulo. O programa foi ao vivo no dia 09/11/10. Quem desejar acompanhar, deixo vídeo e links.





segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A arte é sublime, os artistas não...


Você já se assustou com o fato de que aquele melhor músico que você conhece e admira, ao ser entrevistado, pareça um demente? Ou que o artista plástico que você tanto idolatra seja um bruto? Ou que o escultor que quase chega a dar vida a pedras seja um pedante e prepotente? Ou que o cineasta que você gostaria de se espelhar seja um viciado que mal consegue conversar acerca do que tem dirigido no cinema? Para longe de generalizações baratas, sempre vi a arte como sendo o fim último dos homens. Nunca mudei de opinião. Somos animais metafóricos: sem a arte não conseguimos dar vazão às estruturas simbólicas da existência. Tanto me impressionei com a música desde criança que nunca quis aprender a tocar por medo de desvendar todo o mistério sagrado que rodeava a musicalidade, me sentia incapaz de chegar a tão alto grau de desenvolvimento intelectual, acreditava que para se tornar um grande músico deveria ser virtuoso, sóbrio, sério, em suma, um sábio. Sempre imaginei que para ser artista era condição sine qua non ser sapiente e moderado. Fui crescendo e notando que a arte é como o Daimon socrático, uma inspiração, um talento que não escolhe em quem vai encarnar. Notei também, assim como Montaigne, que sabedoria e erudição não é a mesma coisa. Acreditava serem os sábios necessariamente eruditos por mais simples que fosse sua sabedoria. Não entendamos aqui erudição por academicismo. Notar que o que se sabe pode virar apenas razão ornamental e pedantismo foi me mostrando que eu mesmo, com toda minha imperfeição e limitação criativa, poderia ser artista de seja lá o que... Passei a acreditar que as pessoas, por mais medíocres que sejam, sempre conseguem alguma coisa na vida. Digo isso agora não por prepotência, mas por conhecimento de causa. Na pós-modernidade, como é taxado impropriamente o modernismo tardio, o fazer arte é extremamente fluido, etéreo, inconsistente, fugidio, ou seja, depende demais dos falsos atrativos do conceito. Tento me convencer que a Capela Sistina e uma baleia partida ao meio são entes arte do mesmo patamar de existência. Sou muito novo, mas é impossível me livrar de questões anciãs. O belo é duradouro, diria Aristóteles. Tento discordar disso, mas quando observo que a música de Mozart e Bach (entre uma e outra) dura trezentos anos - e não há que não ache belo- e a música do É o tchan tenha durado penosas duas décadas, comprovo isso. Falar de Mozart e Bach em comparação com É o Tchan é covarde, eu sei. Mas vivo ouvindo que tudo é arte, e é deste esteio retórico que parto. Saio das bienais sempre com um incomodo conceitual. As esculturas de Aleijadinho ou as pinturas de Gustav Klimt tomam a cabeça de um cidadão por todo e sempre. Os adesivos, túneis, urubus em gaiolas, lasers e obras interativas são esquecidos rapidamente. Será que sou retrô? Anacrônico? Démodé? Estou num discurso barato de retomada de modas antigas? Mas é que, no cinema por exemplo, quando assisto filmes comprometidos com questões políticas sérias de um determinado tempo, e me deparo com essa ditadura do curta metragem ou da industria de roteiros alternativos ou os fastfoods, fico a pensar. Deixe de ser anacrônico, classicista e aristocrata, Raphael! Sua compreensão de arte conceitual é rasa e generalista! Calma, calma. Há coisas que acho magníficas e tão válidas como qualquer expressão artística caduca que, conservadoramente, citei aqui. Por exemplo, Yukinori Yanagi em 1996 montou uma idéia contemporânea, simples e não tem hermenêutica, nem intermédio conceitual que não entenda diretamente o que ele quis fazer. O rapaz em questão montou uma série de formigueiros interligados, todos com areia colorida representando bandeiras de vários países. A sacada artística é que as formigas, movendo as partículas de areia de uma bandeira para outra, representem as relações internacionais, as misturas raciais, o que cada cidadão que sai de um país para outro leva e trás, etc. Em suma, ele falava, através de formiguinhas, do processo de globalização: genial!


Eu sei! Eu sei! Na Arte Conceitual o público é obrigado a deixar de ser apenas um observador passivo, o acesso a obra já não é mais tão direto. Que seja. Mas não deixo de me amotinar espiritualmente. Epicteto, ilustre pensador estóico, insistia em dizer que a alma reluta em ser privada da verdade.


E o que os artistas têm a ver com isso? Eles me têm privado da verdade e do bom senso artístico. Moro num lugar onde a cada grau que minha visão pode alcançar há um artista a caminhar. Em suma, Já foi na 29ª Bienal? Não? Ainda está acontecendo. Então pare de ler esse texto anacrônico, com vocabulário senil e vá ter um bom entretenimento. Eu gostei.



domingo, 15 de agosto de 2010

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Alteridade, indução, Orkut e xenofobia

Publicado no Amálgama em 20–07–2010


É óbvio, e todos sabem, que nordestinos são pobres, mal nascidos, medem 1,65 cm, comem sobretudo farinha com rapadura e vivem em cidades cadavéricas cujo solo é permanentemente seco e rachado por conta da eterna ausência de chuvas. Os paulistanos são todos nazistas, vaidosos, workaholics e prepotentes. Os cariocas são, sem exceção, traficantes ou apreciadores de drogas, falecem constantemente devido a balas perdidas, têm como atração principal os bailes funk, torcem todos para o mengão (o time com a maior torcida do universo), acham que uma tropa de elite é o melhor paradigma de segurança e um a cada três mora em favelas. É fato notório que no norte do país só há latinfundários, pistoleiros e índios convivendo com jacarés no meio das cidades. Todos nós conhecemos a informação que todos os gaúchos são separatistas e espelham-se no modo de vida argentino. Todo paraibano é péssimo motorista. Todo negro é ladrão, todo cabeleireiro é homossexual, todo norte-americano é imperialista e cultua o uso de armas de fogo, todo jogador de futebol é mercenário, todo judeu é muquirana, todo alemão é um pouco nazista, todo francês é pedante, todo paraguaio é sacoleiro, todo colombiano é usuário de cocaína, todo cubano ama Fidel, todo pernambucano é o maior bairrista da América Latina, todo baiano é preguiçoso, todo cearense é comediante, todo argentino é execrável, todo árabe é muçulmano e todo muçulmano é terrorista.

Calma, respirem e não me odeiem!

Não sou eu quem diz isso. O primeiro parágrafo desse texto denota bem o discurso generalista e totalitário que, de maneira deprimente, toma conta das nossas percepções médias, automáticas e inadvertidas. O indutivismo apressado é uma regra tão dolorosa que chego a pensar que faz parte da própria constituição existencial do homem.

Mas calma novamente! Fico apenas triste ao constatar que o ser humano médio não se dá ao trabalho de entender em que consiste a diferença. Aliás, existe mesmo essa tal de diferença? É ela tratada e exposta de maneira correta e legítima? Mais mórbido ainda é notar que a maioria dos seres humanos ou optam em permanecer desta maneira (mesmo depois de desalienadas de certas informações errôneas) ou continuam sendo enganadas pela mídia, que tende geralmente a incutir uma visão de mundo mais fácil na cabeça dos indivíduos e trabalha por uniformizar nossas percepções sobre todas as coisas presentes a nossa volta.

Será que, como pensa o filósofo judeu Emmanuel Lévinas, “a filosofia [e o fazer ético] ocidental foi no mais das vezes uma ontologia: uma redução do Outro ao Mesmo, pela interposição de um termo mediano e neutro que assegura a inteligência do ser”? Será que a coexistência e suas implicações foram sempre mal concebidas entre nós devido a certa exacerbação da egoidade, de um excessivo conhece-te a ti mesmo?

É claro que, como ainda remarca o próprio Lévinas, “a relação com o outro não é uma idílica e harmoniosa relação de comunhão, nem uma simpatia pela qual, colocando-nos no seu lugar, nós o reconhecemos como semelhante a nós, mas exterior a nós; a relação com o outro é uma relação com um mistério. É sua exterioridade ou, antes, a sua alteridade…que constitui todo o seu ser”. Será que desvendamos o mistério do Outro de maneira equivocada? Ou seria destinamental que certas refregas e estranhamentos sempre aconteçam em qualquer micro-região do mundo ou entre qualquer amontoamento de seres humanos?

É óbvio que nem todos os nordestinos passam fome e que nem todos os árabes têm tendência ao terrorismo. No caso supracitado dos nordestinos, por exemplo, sabe-se, operando uma simples busca das mais superficiais, que a indústria da seca entope os bolsos dos políticos da região. Imaginemos que se chega a Brasília a notícia que nessa região há boas universidades, grandes metrópoles e uma produção intelectual crescente, o que aconteceria? Fico me perguntando se as pessoas que moram em coberturas em Boa Viagem (Recife-PE) ou em lugares como o bairro da Graça (Salvador-BA) sequer cogitam migrar até São Paulo para tentar uma espécie de “vida melhor”. Ainda no Nordeste, observamos de maneira burlesca baianos sendo taxados de preguiçosos, quando os mais bem informados sabem que esse estado reúne umas das maiores forças econômicas do país em seus parques industriais e turismo. Entretanto, a imagem que a mídia continua a repassar denota um estado que vive em eternos festejos, a música é monomaniacamente a mesma e os sujeitos vivem estendidos em redes.

Por que o raciocínio induzido ingenuamente é mais fácil? Por que generalizamos informações analisadas apenas algumas vezes? Se eu conheci dezoito cabeleireiros e todos eram homossexuais, isto quer dizer que todos sejam? Se eu conheci dezoito mil políticos e todos eram corruptos, isto quer dizer que todos são? No caso dos políticos, por favor, contenha o sorriso sarcástico! Por que nos é tão difícil aprofundar e expurgar nossa visão em relação ao que nos é estranho? Desde que certas condições sejam satisfeitas, é legítimo generalizar a partir de uma lista finita de proposições de observação singulares para uma lei universal. Em suma, é a famosa passagem dos fatos à lei. Eis aí o risco da fórmula indutivista, comum em qualquer tipo de pesquisa quantitativa. Se um saco de feijão é 85% de feijão preto e 15% de mulatinho, o saco será considerado, no todo, como sendo de feijão preto. Daí surgem deduções extremante arriscadas e insolentes. Todo nordestino passa fome, o autor desse texto é nordestino, logo, o autor desse texto passa fome. Toda indução é abusiva e toda dedução, incerta.

*

A apreciação que até aqui foi levada a cabo apenas se decepciona com o fato de que o solipsismo, misantropia, ensimesmamento, incivilidade, rebeldia, contravenção, beligerância, descortesia e isolacionismo são as alternativas mais cômodas de serem adotadas como postura de vida. Tentar suportar o outro, aquele que “destrói” nossa identidade, que devasta nosso ego, requer força máxima e para isso somos demasiadamente indispostos. A mesmidade, ou seja, a cultura egocêntrica garante uma liberdade comodamente auto-assegurada. É infeliz concluir que uma cabeça obtusa e bruta é a via mais fácil de existir no mundo, através de um discurso ditatorial e totalizante, em suma, covarde.

Pois bem, quem faz uso do Orkut consegue sentir bem que as expressões xenofóbicas já descritas são demasiadamente difundidas. Sabe-se que denúncias contra toda sorte de discriminações contidas nesse site de relacionamentos vêm crescendo com um ânimo preocupante. Sou da opinião que esse espaço virtual não é o demiurgo e nem criador de qualquer tipo de discriminação. Todavia, é ali onde a raiva, a catarse odiosa e a necessidade de rebaixar figuras que são “socialmente reprováveis” encontra lugar e pega corpo, assim como a dengue se refestela em água limpa. O Orkut funciona como um catalisador e um “passe adiante” da humilhação, do ódio, da refrega, da separação, da aversão, da animosidade, da fúria. Uma simples comunidade de futebol pode ser um antro de “foda-se nordestino comedor de farinha” ou “esses paulistas são uns nazistas mesmo”, ou ainda “cariocas são uma sub-raça que deve ser exterminada.”

Sem o Orkut não é tão fácil que mais de cinco mil pessoas se reúnam num espaço físico “real”, numa praça por exemplo, para humilhar um ser humano por perpetrar ideias ou apenas ter tecido um comentário que não agradou. “Só podia ser coisa de emo!”, “bane esse bizarro!”, “esse tipinho de gente deveria ser eliminada!”, “só podia ser um puto de um paraíba mermo!”. Essas são frases muito comuns de se encontrar e não é necessário se esforçar muito para se deparar com comunidades que operam livremente dessa maneira. Umas são explícitas, outras nem tanto. Não cabe aqui colá-las, não vale a pena perder tempo com perpetração de aversão ou odiosidade, mas que um alerta deve ser ligado, deve. Alias, me deixem citar apenas uma: Devolvam o Nordeste pra África (abaixo).

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Assusta de alguma maneira notar, ainda hoje, a quantidade de reais apreciadores da filosofia purificatória do Nazismo, de movimentos separatistas, de abominadores de expressões religiosas e filosóficas e de depreciadores de classes sociais diferentes.
No Orkut a bestialidade da falta de respeito por outrem tem seu exercício facilitado pelo anonimato, pela distância e pela cúmplice miserabilidade de uma parcela de seres humanos: um verdadeiro déficit de alteridade.

Alguém pode estar se questionando: duvido que quem escreve esse texto não use o Orkut, duvido ainda mais que ele não entre num estádio de futebol e, de maneira vociferante, fale mal de um juiz. Duvido que ele, em dia de jogos entre Brasil e Argentina, não deixe escapar sequer um xingamento aos hermanos. Duvido que ele esteja num ponto de ônibus às duas da manhã e veja ao longe um homem negro e descalço e não desconfie dele. É um hipócrita! Todavia, afirmo que alguém que disser que não possui sequer um único pré-conceito não é ser humano. Entretanto, é inteligente notar que existe uma diferença abissal entre pré-conceito e discriminação. Eu pré-concebo que se comer um pedaço de tijolo, além de quebrar os dentes, prejudicarei o estômago. Eu pré-concebo que, se votar em Collor, ele defraudará novamente qualquer setor da política que faça parte.

Como se resolve isso? Qualquer resposta aqui vai ser considerada proselitismo, excesso de alteridade, discurso de classe oprimida ou pacifismo fast-food on-line. Não estarei também cometendo certa generalização? Uma questão filosófica, mesmo que de antropologia filosófica, se ocupa mais em sofisticar a pergunta para que o fenômeno se evidencie de maneira clara do que oferecer repostas diretas e apodíticas. Discutamos.



segunda-feira, 26 de julho de 2010

Raridade

Título: Fabulas de Esopo: com applicações moraes a cada fabula
Autor: Esopo
Publicado por: Typographia de Pillet Fils Ainé
Ano: 1848
Língua: Portugues
Patrocinador da digitalização: Livraria Pública de Boston
Coleção: americana; blc
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domingo, 25 de julho de 2010

O ensino de filosofia é acima de tudo uma questão filosófica, ou Da irresponsabilidade jornalística

Publicado no Amálgama em 20–04–2010

Entre Reinaldos Azevedos, Diogos Mainardis e Olavos de Carvalhos – e, naturalmente, seus discípulos – é que infelizmente localizamos a crítica filosófica e a crítica da filosofia, enquanto disciplina, no nosso nobre país. Este último, o Olavo, talvez seja o único que conheça o “ofício” filosófico de perto. Ademais, o que vemos é histeria e desconhecimento de causa. Matérias superficiais tergiversam de maneira ultrajante e simplória acerca da questão. Com a lei nº 11.684/2008, que opera o retorno da filosofia e da sociologia ao ensino médio, cria-se um problema com o qual os pseudocríticos ainda não se depararam e provavelmente nunca se depararão enquanto não buscarem no lugar correto: o ensino da filosofia para crianças e adolescentes é ironicamente um problema acima de tudo filosófico. Mais uma vez, para que não seja esquecido: ensinar filosofia aos infantes é uma questão filosófica e não simplesmente política, ideológica ou religiosa.

A esmagadora parte das análises e críticas voltadas ao expediente filosófico nas escolas passa obrigatoriamente por temas de política e politicagem. Sempre! Há algum motivo? Tenho uma tese. Todas elas são usadas para criar uma imaginária notocorda entre a filosofia e o famigerado comunismo. Um exemplo? A matéria “Ideologia na cartilha“, de um jornalista chamado Marcelo Bortoloti na revista Veja. Não sei se o ilustre em questão é formado em filosofia, mas parece desconhecer onde reside exatamente o problema do ensino da velha senhora aos pequenos seres humanos que consomem cerca de quatro horas por dia dos seus neurônios nas acolhedoras salas de aula. Na visão desse tipo de crítico, a filosofia se move em tom panfletário, como se, dentro da filosofia, se pudesse espraiar eficazmente toda sorte de propagandas e apologias político-partidárias.



Diz Bortoloti: “O viés presente nas aulas de sociologia e filosofia tem suas raízes fincadas nas faculdades de ciências sociais – de onde saíram, ou a que ainda pertencem, os professores responsáveis pela confecção dos atuais currículos.” Filosofia fincada em faculdades de Ciências Sociais? Não será aí desconhecimento das ilhas de saber que infelizmente se formaram em nossas universidades? Ele continua: “Desde a década de 70, quando se firmaram como trincheiras de combate à ditadura militar nas universidades, tais cursos se ancoram no ideário marxista, à revelia da própria implosão do comunismo no mundo – e estão cada vez mais distantes do rigor e da complexidade do pensamento do alemão Karl Marx (1818-1883).” Em que universidades ele anda fazendo tais pesquisas? Na USP da petista Marilena Chauí? Alias, irei mais além na pergunta. Tem esse jornalista pesquisado sobre a realidade da filosofia entre os filósofos de fato? Sigamos.

Marxistas, hoje, são os mais impopulares “intelectuais” entre os estudantes e professores de filosofia, à exceção de alguns caquéticos resistentes que estão, ainda, à espera da tão famosa revolução. Marx, inerme leitor da dialética hegeliana, é considerado – entre alguns estudantes de filosofia – pensamento obsoleto e quem a ele faz apologia pratica uma espécie de necrofilia fanático-político-filosófica. Um bom estudante de filosofia aprecia ler o Marx não marxista ao Marx crítico da submissão do proletariado. Se o leitor não possui conhecimento, o jovem Marx redigiu sua tese de doutoramento acerca do materialismo grego. Frankfurt, Marcuse e o Neomarxismo todo, me perdoem! Estou a falar mal apenas da decrepitude marxista que não enxerga um mundo indiscutivelmente diferente e com complexidades outras que não aquelas oriundas da Revolução Industrial.

Mas sem perder o foco, voltando ao jornalista em questão, acredito que ele esteja levando em consideração não os departamentos de filosofia e sim o atual “movimento estudantil”, que é uma tentativa anã e esquizofrênica de introjetar ideais cadavéricos em mentes plenamente vivas. O movimento estudantil sem dúvidas já teve seu momento de utilidade e glória. Hoje em dia não passa de um cosplay político. Então, como se falar em Marx e filosofia ao passo que quem domina nossas universidades hoje são as percepções filosóficas mais contemporâneas? Que heideggeriano aprova a prática marxista e suas resoluções ônticas para problemas que são de ordem existencial? Há quem defenda uma espécie de marxismo heideggeriano, mas quem sou eu para atestar impossibilidades? Que estudante de Filosofia Analítica ou Filosofia da Mente tem paciência para escândalos políticos de chão de fábricas que não existem mais? Será que nem os próprios críticos habitam a sociedade do Visa Electron? Que popperiano dá crédito a uma pseudo-ciência? Eis o erro nevrálgico dos exegetas da filosofia no ensino médio: eles não falam da e sobre a filosofia. Note bem as fontes que o rapaz da reportagem analisada utiliza: o sociólogo Simon Schwartzman, a doutora em Ciências Sociais Eunice Durham, a educadora Teresa Pontual e o sociólogo Bolívar Lamounier. E os filósofos e professores de filosofia? Inexistem? Por que não citar nenhum departamento de filosofia? A sociologia é uma pretensa ciência, ainda que haja pouco progresso consensual. Todavia, ao negligenciar e obliterar os departamentos de filosofia, os professores da disciplina e os filósofos de formação, essas constatações jornalísticas transformam-se em atitudes extremamente desonestas e aviltantes. VEJA bem onde esse tipo de matéria é articulada – muita gente lê, não?

Como se pode mesclar descaradamente sociologia e filosofia num balaio de gatos indiscernível? É como não ver diferenças entre coreanos e japoneses: uma gafe. Educar filosoficamente não é formar cientistas, não faz parte da essência da filosofia que ela se realize como ciência! Aliás, concordamos aqui com a máxima que afirma não podermos tomar a filosofia como ciência “entre outras, nem tampouco por algo que só encontramos quando de algum modo indagamos as ciências quanto às suas posições fundamentais. Não há filosofia por que há ciências, mas, ao contrário, só pode haver ciência quando há filosofia” (Heidegger, Os conceitos fundamentais da metafísica). Da mesma maneira que não se mostra como ciência, também não se apresenta como declaração de uma visão de mundo ou de viés político. Não se ensina filosofia, diria o ancião Immanuel Kant, se ensina a filosofar. Logo, a filosofia seria uma postura, não uma doutrina. Ensinar o filosofar é deixar os adolescentes tomados por questões filosóficas e não entregá-lo como mero instrumento desta ou daquela utilidade. Pois a essência da filosofia se confunde com a essência do próprio homem. Antes de uma disciplina, a filosofia é uma das realizações existenciais do homo sapiens.

Enfim, deixando o melodrama de lado, se algum professor de filosofia pleitear uma vaga para a disciplina de matemática em qualquer escola, receberá risadas na cara por apresentar uma formação que nada tem a ver (ao menos pragmaticamente) com o que estudou na penosa faculdade. Eis a questão: 90% dos docentes que lecionavam filosofia para as tenras cabecinhas adolescentes não possuíam formação dedicada numa graduação especificamente filosófica. Isso nos leva a crer que as aulas não eram muito atraentes, simpáticas e interessantes. Engenheiros químicos, pedagogos, Educadores Físicos, e mesmo os sociólogos faziam pleno Usucapião desta terra originária há tempos sem dono. Desta feita, será uma espécie de 13º trabalho de Hércules lavar as indeléveis marcas deixadas no ensino de filosofia ao longo dos anos e no péssimo exercício atual dessa antiga fração do conhecimento humano.

É exatamente por isso que o presente texto e seu autor afirmam que o ensino de filosofia nas escolas é uma questão essencialmente filosófica e em andamento. Uma série de questões deve ser levantada. A principal é que filosofia é essa que será repassada às crianças e aos adolescentes. Como demonstrar aos pais e aos principais “afetados” por essa nova lei que essa disciplina não é dispensável, como acredita boa parte da sociedade? Como poderão os “profissionais” de filosofia extirpar o estereótipo do sujeito que carrega consigo o uso indiscriminado de drogas, apologia ao suicídio, aos questionamentos metafísicos indissolúveis, à ausência de vontades monetárias, amorosas e sanidade mental?

O ideal é deixar que a roupa suja do controverso ensino da filosofia seja lavada em sua própria casa. Só os matemáticos podem dissertar acerca do ideal exercício da matemática. Apenas os psicólogos podem criar seu código de ética. Apenas os políticos discutem o aumento ou não de seus salários. Apenas os Estados Unidos julgam onde ou não deve haver guerra contra o Terror. E apenas uma coisa é certa neste momento: em briga de marido e mulher, jornalista deve ter cuidado e atenção ao meter a colher.



terça-feira, 4 de maio de 2010

We are not the center

Uma homenagem aos espíritos de todas as épocas que se enpenharam na sustentação de certo atomismo e do tão castigado heliocentrismo. A idéia de que "nós não estamos no centro do universo" nos parece anacrônica, mas ao observar o vídeo abaixo é impossível não atualizá-la instantânemamente.

Boa viagem e sinta-se ainda menor.




terça-feira, 27 de abril de 2010

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Raridade


Título: El contrato social, ó, principios del derecho politico.
Autor: Jean-Jacques Rousseau
Publicado por: Cormon y Blanc
Ano: 1820
Língua: Espanhol
Patrocinador da digitalização: Google
Coleção: New York Public Library
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segunda-feira, 22 de março de 2010

Emmanuel Faye e Julio Quesada sobre Heidegger



Para entender um pouco mais sobre a afamada história do caráter nazístico da obra heideggeriana, temos aqui um vídeo com dois defensores desta polêmica querela: Emmanuel Faye, autor do livro Heidegger: l'introduction du nazisme dans la philosophie e Julio Quesada, autor do livro Heidegger, de camino al holocausto.



quinta-feira, 11 de março de 2010

É a morte um evento da vida?

Publicado no Amálgama em 19-02-2010

por Raphael Douglas* – O fato biológico da morte é óbvio. Todavia, a mortalidade não pode ser explicada em sua totalidade apenas biologicamente. Então, sem muita retórica, nos defrontamos com a diferença entre a visão biologista da morte e a visão ontológico-existencial. Deve-se assim buscar o entendimento da diferença entre “finar” e “findar”. O “finar” diz respeito à aniquilação do ser vivo, da biologia, da interrupção dos movimentos biológicos comuns a tudo o que é vivente. O “findar” denota o fim próprio do homem. Nenhum ente simplesmente dado pode findar.

Os animais legitimamente não morrem porque não são dotados de mundo, são entes intramundanos, não dotados de um horizonte, nem de “sentido”, eternos enquanto vivos justamente por não serem estruturados como “temporalidade”. Em suma, a morte é uma possibilidade privilegiada do homem, ele é o único animal que tem a possibilidade de se “antecipar”, através da razão, à própria aniquilação. Assim, é justo que o taxemos de “ser-para-a-morte” (Heidegger). Pois bem, acabamos de ser heideggerianos e, como tal, aceitamos a difícil máxima: “A presença só pode deixar de viver na medida em que morre”. Tautológico? Pleonástico? Tenha calma.

Se a obra máxima de Martin Heidegger, Ser e Tempo, for lida de maneira ponderada, se verá que pelo jogo de conceitos e análises da existência humana (entendida como uma correspondência com o Ser e um êxtase para o fim) o homem está inexoravelmente ligado à morte com a possibilidade, face a ela, de re-significar a existência e modificá-la de tal sorte que se descubra autêntica. Logo, a morte é um evento da vida.

No entanto, nossa tarefa neste momento é tentar planejar, com o auxílio de alguns grandes pensadores e, por que não, do nosso próprio esforço, outra concepção acerca da finitude. Ludwig Wittgenstein, no seu Tractatus Logico-Philosophicus, afirma que “a morte não é um acontecimento da vida. Não se vive a morte”. Afirmar isso não é dizer que se possa ou não se possa fazer qualquer experientia mortis, mas sim que não é possível iluminar a própria existência face a um fim iminente e angustiante que advém de algo não real. Logo, não é possível “antecipar-se” à morte: a certeza mais incerta da existência. A morte nunca é portanto assumida; acontece.

Tentando concordar um pouco mais com a posição do filósofo vienense, cremos ser justo analisar o enigma da vida (bem mais incompreensível do que a morte) através de uma grandiosa obra de arte. Gustav Klimt, ilustre e ousado pintor austríaco, gera em 1916 uma obra intitulada Morte e Vida [no início do post]. Nossa breve especulação pode ser sustentada.

À direita, o ciclo da vida se sustém. Nascimento, desenvolvimento, o adolescer, emoções, alegrias, tristezas, reprodução, enfermidades e todos os sentimentos e fases físicas próprias aos homens, obedecem a uma fluidez inexorável que só poderá ter seu fio interrompido através da “chegada” dessa senhora, dessa alteridade misteriosa que vem até nós e toma de assalto o que lutamos para suster, como no connatus essendi proposto por Espinoza, ou seja, o esforço por perseverar seu próprio ser e conseguir meios para que essa manutenção seja mais intensa e eficaz ou ainda “aderir de maneira jubilatória ao seu ser no mundo.”

Nota-se, nesta obra de Klimt, que a morte é ignorada na maior parte da nossa existência. Ela “olha” para nós de forma constante. Todavia, não a analisamos, nem a “olhamos” constantemente, nem discursamos sobre ela diariamente. Com exceção das situações nas quais ela inexoravelmente é a “bola da vez”: velórios, morte de parentes, desastres, guerras. É justo afirmar que não há quem não pense profundamente na morte se quer uma vez na existência. Entretanto, como já adotamos aqui, a vida é que se apresenta como um enigma indecifrável. A morte é demasiadamente certeira e não há respostas sobre o que ela “seria”. Sendo assim, a máxima wittgensteiniana nos é muito cara. Em contrapartida, seria ingenuidade de nossa parte ignorar a importância do fato da finitude para a história da filosofia, como propõe Schopenhauer (em Dores do mundo). Porém, a importância que a morte subsidia para a vida é de caráter confirmativo onde uma é a condição de possibilidade da outra. Só há a possibilidade de analisar a própria morte vivendo, existindo.

É a vida e o vivente que conferem sentido à morte, seja através do discurso, seja do imaginário, do religioso, do místico, do folclórico. Ser para a morte é uma constatação demasiada exata como já vimos. Todavia, o perseverar na vida, no tempo em que se tem para continuar existindo, é tão forte ou até mais intenso do que essa caminhada até a inefetividade. “Ser temporal é ser ao mesmo tempo para a morte e ter ainda tempo, ser contra a morte”, diria o filósofo judeu Emmanuel Lévinas. Logo, a morte é que tem sentido dentro da vida e não a vida face à morte. Basta examinar a quantidade de concepções acerca da morte e do morrer dentro do globo. André Comte-Sponville, ilustre filósofo contemporâneo, atualmente professor na Universidade de Paris, é assaz bem-sucedido na sua fala para o justo entendimento do nosso apontamento, em A vida humana:

A morte é a regra, da qual a vida é a exceção. Nesse caso, porém, a regra só tem existência pela exceção que a desafia sem violá-la, que a confirma sem nela se perder. Aquilo que vivemos, a morte, que prevalecerá, não a conseguiria abolir – porque a vivemos, porque teremos vivido eternamente. Todos os seres vivos morrem, e só eles, sem eles a morte não seria nada. Isso significa que é à vida que vale e que dá valor: mesmo a morte só tem importância por ela.

Os convivas heideggerianos diriam: “o buraco é mais embaixo”. Redargüiriam dizendo que a morte é o existencial, o que há de próprio no homem e as expressões acerca dela – sejam religiosas ou filosóficas, à exceção de Heidegger certamente – são modos possíveis de abordar a morte, modos ônticos. A filosofia do “buraco é mais embaixo” corre sérios riscos de se soterrar dependendo da profundidade dessa fenda.

Talvez a morte não possua tanta força como deseja quase toda a tradição filosófica do ocidente (há quem diga que isso seja um pleonasmo). É por isso que o poeta cearense Alcides Pinto reconhece que talvez a “indesejada das gentes” precise de gente para insurgir, mesmo que de gente morta. Se não, como se manifestaria de per se? Assim, “a morte não faz diferença de uma criatura que passa, um vulto qualquer, só que vai deitada, como se fosse dormindo, levada pelos outros, sem força para se mover com os próprios pés”. (Tempo dos mortos)

Desta maneira, concluímos essa rápida e simples provocação com uma passagem do literato e filósofo romeno Emil Cioran, retirada do Breviário de decomposição. O motivo pelo qual tratamos da vida como algo tão enigmático quanto à própria inefetividade está claramente exposta na passagem abaixo.

É porque ela – a morte – não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido. De tanto acumular mistérios nulos e monopolizar o sem-sentido, a vida inspira mais pavor que a morte: é ela a grande desconhecida.

*Raphael Douglas, Recife-PE, mestrando em filosofia na UFPE e professor. Blog: heideggerianices.blogspot.com



sábado, 6 de março de 2010

quarta-feira, 3 de março de 2010

Ontologia antissemita?


E parece que o tema está realmente na moda. Falar de Heidegger e do nazismo é hype. No ano de 2008 fiz aqui um breve resumo das contendas histórico-filosóficas sobre o envolvimento do principal filósofo alemão da contemporaneidade com o partido nacional-socialista. Alguém, escondido atrás de um pseudônimo (desconfio que seja Emmanuel Faye), escreveu no PhiBlogZophe (BLOG DE RECHERCHE SUR LE NAZISME HEIDEGGERIEN) acusando Heidegger de tudo quanto é safadagem nazística e antissemitismo descarado. Para conferir leia os seguintes posts:
Eis que a guerrinha ideológica só está começando. No Rio de Janeiro a coisa virou até curso. Haverá, agora no começo do ano letivo na UERJ, um seminário sobre Ontologia Antissemita. Confesso que desconhecia essa denominação, mas deu uma curiosidade de ir lá ver do que danado se trata. Alias, já posso imaginar. Quer ir? Se informe abaixo.


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terça-feira, 2 de março de 2010

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Nietzsche ou Muaitai das palavras (1)


O que é uma palavra? Pergunte a Nietzsche e obtenha como resposta a sensação de estar assistindo um lutador de Muaitai aplicando um golpe agudo e potente. Nietzsche é porrada filosófica, agressão antimetafísica, uma bifa intelectual, saraivada de realismo, agressão histórica, voadora da suspeita.

O que é uma palavra? A reprodução de um estímulo nervoso em sons. Mas deduzir do estímulo nervoso uma causa fora de nós já é o resultado de uma aplicação falsa e injustificada do princípio de razão. Como poderíamos, caso tão-somente a verdade fosse decisiva na gênese da linguagem, caso apenas o ponto de vista da certeza fosse algo decisório nas designações, como poderíamos nós, não obstante, dizer: a pedra é dura; como se esse 'dura' ainda nos fosse conhecido de alguma outra maneira e não só como um estímulo totalmente subjetivo! Seccionamos as coisas de acordo com gêneros, designamos a árvore como feminina e o vegetal como masculino: mas que transposições arbitrárias! Quão longe voamos para além do cânone da certeza! Falamos sobre uma serpente: a designação não tange senão o ato de serpentear e, portanto, poderia servir também ao verme. Mas que demarcações arbitrárias, que preferências unilaterais, ora por esta, ora por aquela propriedade de uma dada coisa! Dispostas lado a lado as diferentes línguas que, nas palavras, o que conta nunca é a verdade, jamais uma expressão adequada: pois, do contrário, não haveriam tantas línguas. A 'coisa em si' (ela seria precisamente a pura verdade sem quaisquer conseqüências) também é, para o criador da linguagem, algo totalmente inapreensível e pelo qual nem de longe vale a pena esforçar-se.

Fonte:

Nietzsche, F. Sobre Verdade e Mentira. São Paulo: Hedra, 2008. p. 31.



domingo, 21 de fevereiro de 2010

Hereges ou analíticos?

Eu nasci em 1984, ano emblemático do famosíssimo livro de George Orwell. Do ano em que nasci até completar 12 anos já notara que a religiosidade no mundo não era nem de perto aquela que aprendera nos livros de História ou em práticas diárias como as da minha avó. Sentia que a igreja que me rodeava já não possuía tantos fiéis e que de fato não conseguia mais conquistá-los ou não tinha mais meios. Mesmo assim, presenciei muito dela, participei e de fato vi pessoas serem melhores estando dentro da religiosidade autêntica. Impressionei-me diversas vezes com o poder simbólico do sagrado e fui afetado por um sem números de inquietações metafísicas oriundas da grande igreja do mundo. Em suma, mesmo sendo alguém que atingiu certo auge de idade nos anos 90, tive alguma vivência religiosa e não nego e nunca negarei a grande importância disso na minha vida. Lógico que logo naquela época sentia a fragilidade dos ideais cristãos na fala e nas idéias de amigos, dos pais deles, do motorista de ônibus, do político safado que conheci, do padeiro, do médico, etc. Perguntava-me onde iríamos parar. E a resposta me vem hoje com essa gurizada anos 2000. Por deus que estou longe de qualquer proselitismo e de qualquer julgamento moral ou religioso! Mas, essa pequena turma está herege demais!!! Alias, perdão, andam demasiadamente analíticos. Enfim, veja a imagem abaixo e tire as próprias conclusões.





quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Acerca da não-resposta

A indiferença nos machuca, faz-nos sentir ignorados. Mas ao menos a indiferença carrega consigo um “rosto”, é uma postura, pode-se ver e sentir, em suma, nos é endereçado. A ausência de resposta por sua vez é algo de muito mais angustiante na medida em que não oferece um rosto, alguém que se possa encarar, tentar quebrar o gelo, forçar diálogo ou interpretação. A indiferença dá-nos terreno de ação, mesmo que árido. A não-reposta nos priva de qualquer ação razoável. Por exemplo, quando se envia uma mensagem de caráter sentimental, que tenta reatar um relacionamento que se distanciou por motivo de viagem e espera-se fortemente a resposta, se não há retorno, ou melhor, quando a não-resposta se “mostra”, sente-se forte agonia. Terá o amante esquecido? Terá amado outrem? Não recebeu? Recebeu e não desejou responder? O que dizer da situação de se ter um ente querido desaparecido e por anos não conseguir resposta alguma sobre o seu paradeiro? Nada saber é infinitamente pior em termos de angústia e da espera sufocante à uma notícia trágica: tem-se ao menos uma resposta, algo positivo, algo com que se afetar.

Assim é com a morte, essa eterna não-resposta, enigma a decifrar que ofereceu um sem número de interpretações possíveis ao ser humano: vida após a morte, aniquilação, transmigração da alma, expiação dos vícios humanos, momento de encontro com Deus ou com o Diabo, o simples espraiar dos átomos, etc. Se o morrer não fosse um problema metafísico indissolúvel, o suicídio nem seria um escândalo existencialista.




terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Raridade

Título: Campanha abolicionista no Recife : eleições de 1884 : discursos (1885)
Autor: Joaquim Nabuco
Assunto: escravidão
Publicado por: Rio de Janeiro: G. Leuzinger
Ano: 1885
Língua: Português
Patrocinador da digitalização: Universidade de Toronto
Coleção: Toronto
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