segunda-feira, 22 de março de 2010

Emmanuel Faye e Julio Quesada sobre Heidegger



Para entender um pouco mais sobre a afamada história do caráter nazístico da obra heideggeriana, temos aqui um vídeo com dois defensores desta polêmica querela: Emmanuel Faye, autor do livro Heidegger: l'introduction du nazisme dans la philosophie e Julio Quesada, autor do livro Heidegger, de camino al holocausto.



quinta-feira, 11 de março de 2010

É a morte um evento da vida?

Publicado no Amálgama em 19-02-2010

por Raphael Douglas* – O fato biológico da morte é óbvio. Todavia, a mortalidade não pode ser explicada em sua totalidade apenas biologicamente. Então, sem muita retórica, nos defrontamos com a diferença entre a visão biologista da morte e a visão ontológico-existencial. Deve-se assim buscar o entendimento da diferença entre “finar” e “findar”. O “finar” diz respeito à aniquilação do ser vivo, da biologia, da interrupção dos movimentos biológicos comuns a tudo o que é vivente. O “findar” denota o fim próprio do homem. Nenhum ente simplesmente dado pode findar.

Os animais legitimamente não morrem porque não são dotados de mundo, são entes intramundanos, não dotados de um horizonte, nem de “sentido”, eternos enquanto vivos justamente por não serem estruturados como “temporalidade”. Em suma, a morte é uma possibilidade privilegiada do homem, ele é o único animal que tem a possibilidade de se “antecipar”, através da razão, à própria aniquilação. Assim, é justo que o taxemos de “ser-para-a-morte” (Heidegger). Pois bem, acabamos de ser heideggerianos e, como tal, aceitamos a difícil máxima: “A presença só pode deixar de viver na medida em que morre”. Tautológico? Pleonástico? Tenha calma.

Se a obra máxima de Martin Heidegger, Ser e Tempo, for lida de maneira ponderada, se verá que pelo jogo de conceitos e análises da existência humana (entendida como uma correspondência com o Ser e um êxtase para o fim) o homem está inexoravelmente ligado à morte com a possibilidade, face a ela, de re-significar a existência e modificá-la de tal sorte que se descubra autêntica. Logo, a morte é um evento da vida.

No entanto, nossa tarefa neste momento é tentar planejar, com o auxílio de alguns grandes pensadores e, por que não, do nosso próprio esforço, outra concepção acerca da finitude. Ludwig Wittgenstein, no seu Tractatus Logico-Philosophicus, afirma que “a morte não é um acontecimento da vida. Não se vive a morte”. Afirmar isso não é dizer que se possa ou não se possa fazer qualquer experientia mortis, mas sim que não é possível iluminar a própria existência face a um fim iminente e angustiante que advém de algo não real. Logo, não é possível “antecipar-se” à morte: a certeza mais incerta da existência. A morte nunca é portanto assumida; acontece.

Tentando concordar um pouco mais com a posição do filósofo vienense, cremos ser justo analisar o enigma da vida (bem mais incompreensível do que a morte) através de uma grandiosa obra de arte. Gustav Klimt, ilustre e ousado pintor austríaco, gera em 1916 uma obra intitulada Morte e Vida [no início do post]. Nossa breve especulação pode ser sustentada.

À direita, o ciclo da vida se sustém. Nascimento, desenvolvimento, o adolescer, emoções, alegrias, tristezas, reprodução, enfermidades e todos os sentimentos e fases físicas próprias aos homens, obedecem a uma fluidez inexorável que só poderá ter seu fio interrompido através da “chegada” dessa senhora, dessa alteridade misteriosa que vem até nós e toma de assalto o que lutamos para suster, como no connatus essendi proposto por Espinoza, ou seja, o esforço por perseverar seu próprio ser e conseguir meios para que essa manutenção seja mais intensa e eficaz ou ainda “aderir de maneira jubilatória ao seu ser no mundo.”

Nota-se, nesta obra de Klimt, que a morte é ignorada na maior parte da nossa existência. Ela “olha” para nós de forma constante. Todavia, não a analisamos, nem a “olhamos” constantemente, nem discursamos sobre ela diariamente. Com exceção das situações nas quais ela inexoravelmente é a “bola da vez”: velórios, morte de parentes, desastres, guerras. É justo afirmar que não há quem não pense profundamente na morte se quer uma vez na existência. Entretanto, como já adotamos aqui, a vida é que se apresenta como um enigma indecifrável. A morte é demasiadamente certeira e não há respostas sobre o que ela “seria”. Sendo assim, a máxima wittgensteiniana nos é muito cara. Em contrapartida, seria ingenuidade de nossa parte ignorar a importância do fato da finitude para a história da filosofia, como propõe Schopenhauer (em Dores do mundo). Porém, a importância que a morte subsidia para a vida é de caráter confirmativo onde uma é a condição de possibilidade da outra. Só há a possibilidade de analisar a própria morte vivendo, existindo.

É a vida e o vivente que conferem sentido à morte, seja através do discurso, seja do imaginário, do religioso, do místico, do folclórico. Ser para a morte é uma constatação demasiada exata como já vimos. Todavia, o perseverar na vida, no tempo em que se tem para continuar existindo, é tão forte ou até mais intenso do que essa caminhada até a inefetividade. “Ser temporal é ser ao mesmo tempo para a morte e ter ainda tempo, ser contra a morte”, diria o filósofo judeu Emmanuel Lévinas. Logo, a morte é que tem sentido dentro da vida e não a vida face à morte. Basta examinar a quantidade de concepções acerca da morte e do morrer dentro do globo. André Comte-Sponville, ilustre filósofo contemporâneo, atualmente professor na Universidade de Paris, é assaz bem-sucedido na sua fala para o justo entendimento do nosso apontamento, em A vida humana:

A morte é a regra, da qual a vida é a exceção. Nesse caso, porém, a regra só tem existência pela exceção que a desafia sem violá-la, que a confirma sem nela se perder. Aquilo que vivemos, a morte, que prevalecerá, não a conseguiria abolir – porque a vivemos, porque teremos vivido eternamente. Todos os seres vivos morrem, e só eles, sem eles a morte não seria nada. Isso significa que é à vida que vale e que dá valor: mesmo a morte só tem importância por ela.

Os convivas heideggerianos diriam: “o buraco é mais embaixo”. Redargüiriam dizendo que a morte é o existencial, o que há de próprio no homem e as expressões acerca dela – sejam religiosas ou filosóficas, à exceção de Heidegger certamente – são modos possíveis de abordar a morte, modos ônticos. A filosofia do “buraco é mais embaixo” corre sérios riscos de se soterrar dependendo da profundidade dessa fenda.

Talvez a morte não possua tanta força como deseja quase toda a tradição filosófica do ocidente (há quem diga que isso seja um pleonasmo). É por isso que o poeta cearense Alcides Pinto reconhece que talvez a “indesejada das gentes” precise de gente para insurgir, mesmo que de gente morta. Se não, como se manifestaria de per se? Assim, “a morte não faz diferença de uma criatura que passa, um vulto qualquer, só que vai deitada, como se fosse dormindo, levada pelos outros, sem força para se mover com os próprios pés”. (Tempo dos mortos)

Desta maneira, concluímos essa rápida e simples provocação com uma passagem do literato e filósofo romeno Emil Cioran, retirada do Breviário de decomposição. O motivo pelo qual tratamos da vida como algo tão enigmático quanto à própria inefetividade está claramente exposta na passagem abaixo.

É porque ela – a morte – não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido. De tanto acumular mistérios nulos e monopolizar o sem-sentido, a vida inspira mais pavor que a morte: é ela a grande desconhecida.

*Raphael Douglas, Recife-PE, mestrando em filosofia na UFPE e professor. Blog: heideggerianices.blogspot.com



sábado, 6 de março de 2010

quarta-feira, 3 de março de 2010

Ontologia antissemita?


E parece que o tema está realmente na moda. Falar de Heidegger e do nazismo é hype. No ano de 2008 fiz aqui um breve resumo das contendas histórico-filosóficas sobre o envolvimento do principal filósofo alemão da contemporaneidade com o partido nacional-socialista. Alguém, escondido atrás de um pseudônimo (desconfio que seja Emmanuel Faye), escreveu no PhiBlogZophe (BLOG DE RECHERCHE SUR LE NAZISME HEIDEGGERIEN) acusando Heidegger de tudo quanto é safadagem nazística e antissemitismo descarado. Para conferir leia os seguintes posts:
Eis que a guerrinha ideológica só está começando. No Rio de Janeiro a coisa virou até curso. Haverá, agora no começo do ano letivo na UERJ, um seminário sobre Ontologia Antissemita. Confesso que desconhecia essa denominação, mas deu uma curiosidade de ir lá ver do que danado se trata. Alias, já posso imaginar. Quer ir? Se informe abaixo.


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terça-feira, 2 de março de 2010