quarta-feira, 28 de julho de 2010

Placas des-motivacionais (5) Filosoraptor

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Texto original aqui.



segunda-feira, 26 de julho de 2010

Raridade

Título: Fabulas de Esopo: com applicações moraes a cada fabula
Autor: Esopo
Publicado por: Typographia de Pillet Fils Ainé
Ano: 1848
Língua: Portugues
Patrocinador da digitalização: Livraria Pública de Boston
Coleção: americana; blc
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domingo, 25 de julho de 2010

O ensino de filosofia é acima de tudo uma questão filosófica, ou Da irresponsabilidade jornalística

Publicado no Amálgama em 20–04–2010

Entre Reinaldos Azevedos, Diogos Mainardis e Olavos de Carvalhos – e, naturalmente, seus discípulos – é que infelizmente localizamos a crítica filosófica e a crítica da filosofia, enquanto disciplina, no nosso nobre país. Este último, o Olavo, talvez seja o único que conheça o “ofício” filosófico de perto. Ademais, o que vemos é histeria e desconhecimento de causa. Matérias superficiais tergiversam de maneira ultrajante e simplória acerca da questão. Com a lei nº 11.684/2008, que opera o retorno da filosofia e da sociologia ao ensino médio, cria-se um problema com o qual os pseudocríticos ainda não se depararam e provavelmente nunca se depararão enquanto não buscarem no lugar correto: o ensino da filosofia para crianças e adolescentes é ironicamente um problema acima de tudo filosófico. Mais uma vez, para que não seja esquecido: ensinar filosofia aos infantes é uma questão filosófica e não simplesmente política, ideológica ou religiosa.

A esmagadora parte das análises e críticas voltadas ao expediente filosófico nas escolas passa obrigatoriamente por temas de política e politicagem. Sempre! Há algum motivo? Tenho uma tese. Todas elas são usadas para criar uma imaginária notocorda entre a filosofia e o famigerado comunismo. Um exemplo? A matéria “Ideologia na cartilha“, de um jornalista chamado Marcelo Bortoloti na revista Veja. Não sei se o ilustre em questão é formado em filosofia, mas parece desconhecer onde reside exatamente o problema do ensino da velha senhora aos pequenos seres humanos que consomem cerca de quatro horas por dia dos seus neurônios nas acolhedoras salas de aula. Na visão desse tipo de crítico, a filosofia se move em tom panfletário, como se, dentro da filosofia, se pudesse espraiar eficazmente toda sorte de propagandas e apologias político-partidárias.



Diz Bortoloti: “O viés presente nas aulas de sociologia e filosofia tem suas raízes fincadas nas faculdades de ciências sociais – de onde saíram, ou a que ainda pertencem, os professores responsáveis pela confecção dos atuais currículos.” Filosofia fincada em faculdades de Ciências Sociais? Não será aí desconhecimento das ilhas de saber que infelizmente se formaram em nossas universidades? Ele continua: “Desde a década de 70, quando se firmaram como trincheiras de combate à ditadura militar nas universidades, tais cursos se ancoram no ideário marxista, à revelia da própria implosão do comunismo no mundo – e estão cada vez mais distantes do rigor e da complexidade do pensamento do alemão Karl Marx (1818-1883).” Em que universidades ele anda fazendo tais pesquisas? Na USP da petista Marilena Chauí? Alias, irei mais além na pergunta. Tem esse jornalista pesquisado sobre a realidade da filosofia entre os filósofos de fato? Sigamos.

Marxistas, hoje, são os mais impopulares “intelectuais” entre os estudantes e professores de filosofia, à exceção de alguns caquéticos resistentes que estão, ainda, à espera da tão famosa revolução. Marx, inerme leitor da dialética hegeliana, é considerado – entre alguns estudantes de filosofia – pensamento obsoleto e quem a ele faz apologia pratica uma espécie de necrofilia fanático-político-filosófica. Um bom estudante de filosofia aprecia ler o Marx não marxista ao Marx crítico da submissão do proletariado. Se o leitor não possui conhecimento, o jovem Marx redigiu sua tese de doutoramento acerca do materialismo grego. Frankfurt, Marcuse e o Neomarxismo todo, me perdoem! Estou a falar mal apenas da decrepitude marxista que não enxerga um mundo indiscutivelmente diferente e com complexidades outras que não aquelas oriundas da Revolução Industrial.

Mas sem perder o foco, voltando ao jornalista em questão, acredito que ele esteja levando em consideração não os departamentos de filosofia e sim o atual “movimento estudantil”, que é uma tentativa anã e esquizofrênica de introjetar ideais cadavéricos em mentes plenamente vivas. O movimento estudantil sem dúvidas já teve seu momento de utilidade e glória. Hoje em dia não passa de um cosplay político. Então, como se falar em Marx e filosofia ao passo que quem domina nossas universidades hoje são as percepções filosóficas mais contemporâneas? Que heideggeriano aprova a prática marxista e suas resoluções ônticas para problemas que são de ordem existencial? Há quem defenda uma espécie de marxismo heideggeriano, mas quem sou eu para atestar impossibilidades? Que estudante de Filosofia Analítica ou Filosofia da Mente tem paciência para escândalos políticos de chão de fábricas que não existem mais? Será que nem os próprios críticos habitam a sociedade do Visa Electron? Que popperiano dá crédito a uma pseudo-ciência? Eis o erro nevrálgico dos exegetas da filosofia no ensino médio: eles não falam da e sobre a filosofia. Note bem as fontes que o rapaz da reportagem analisada utiliza: o sociólogo Simon Schwartzman, a doutora em Ciências Sociais Eunice Durham, a educadora Teresa Pontual e o sociólogo Bolívar Lamounier. E os filósofos e professores de filosofia? Inexistem? Por que não citar nenhum departamento de filosofia? A sociologia é uma pretensa ciência, ainda que haja pouco progresso consensual. Todavia, ao negligenciar e obliterar os departamentos de filosofia, os professores da disciplina e os filósofos de formação, essas constatações jornalísticas transformam-se em atitudes extremamente desonestas e aviltantes. VEJA bem onde esse tipo de matéria é articulada – muita gente lê, não?

Como se pode mesclar descaradamente sociologia e filosofia num balaio de gatos indiscernível? É como não ver diferenças entre coreanos e japoneses: uma gafe. Educar filosoficamente não é formar cientistas, não faz parte da essência da filosofia que ela se realize como ciência! Aliás, concordamos aqui com a máxima que afirma não podermos tomar a filosofia como ciência “entre outras, nem tampouco por algo que só encontramos quando de algum modo indagamos as ciências quanto às suas posições fundamentais. Não há filosofia por que há ciências, mas, ao contrário, só pode haver ciência quando há filosofia” (Heidegger, Os conceitos fundamentais da metafísica). Da mesma maneira que não se mostra como ciência, também não se apresenta como declaração de uma visão de mundo ou de viés político. Não se ensina filosofia, diria o ancião Immanuel Kant, se ensina a filosofar. Logo, a filosofia seria uma postura, não uma doutrina. Ensinar o filosofar é deixar os adolescentes tomados por questões filosóficas e não entregá-lo como mero instrumento desta ou daquela utilidade. Pois a essência da filosofia se confunde com a essência do próprio homem. Antes de uma disciplina, a filosofia é uma das realizações existenciais do homo sapiens.

Enfim, deixando o melodrama de lado, se algum professor de filosofia pleitear uma vaga para a disciplina de matemática em qualquer escola, receberá risadas na cara por apresentar uma formação que nada tem a ver (ao menos pragmaticamente) com o que estudou na penosa faculdade. Eis a questão: 90% dos docentes que lecionavam filosofia para as tenras cabecinhas adolescentes não possuíam formação dedicada numa graduação especificamente filosófica. Isso nos leva a crer que as aulas não eram muito atraentes, simpáticas e interessantes. Engenheiros químicos, pedagogos, Educadores Físicos, e mesmo os sociólogos faziam pleno Usucapião desta terra originária há tempos sem dono. Desta feita, será uma espécie de 13º trabalho de Hércules lavar as indeléveis marcas deixadas no ensino de filosofia ao longo dos anos e no péssimo exercício atual dessa antiga fração do conhecimento humano.

É exatamente por isso que o presente texto e seu autor afirmam que o ensino de filosofia nas escolas é uma questão essencialmente filosófica e em andamento. Uma série de questões deve ser levantada. A principal é que filosofia é essa que será repassada às crianças e aos adolescentes. Como demonstrar aos pais e aos principais “afetados” por essa nova lei que essa disciplina não é dispensável, como acredita boa parte da sociedade? Como poderão os “profissionais” de filosofia extirpar o estereótipo do sujeito que carrega consigo o uso indiscriminado de drogas, apologia ao suicídio, aos questionamentos metafísicos indissolúveis, à ausência de vontades monetárias, amorosas e sanidade mental?

O ideal é deixar que a roupa suja do controverso ensino da filosofia seja lavada em sua própria casa. Só os matemáticos podem dissertar acerca do ideal exercício da matemática. Apenas os psicólogos podem criar seu código de ética. Apenas os políticos discutem o aumento ou não de seus salários. Apenas os Estados Unidos julgam onde ou não deve haver guerra contra o Terror. E apenas uma coisa é certa neste momento: em briga de marido e mulher, jornalista deve ter cuidado e atenção ao meter a colher.