segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Preconceito: uma trilogia

Saudações amigos. Depois de muito esforço de discussão, disponibilizo aqui três textos que escrevi recentemente acerca de um problema que, apesar de ter re-tomado notoriedade após as eleições presidenciais, tem suas origens em um passado imemorial na história da humanidade. Me sinto no desejo de discutir esse tema com honestidade e sem os falsos atrativos dos discursos edificantes. A discriminação é um fenômeno evidente, diluido homeopaticamente entre todos nós. Nos resta tratá-lo sem os insumos do ancião conceito de tolerância. Entender a diferença começa por enxergá-la como não-indiferença.


Obs: O texto "Mayara Petruso e um Nordeste que não conheço" foi visitado pela produção do programa MTV DEBATE. Por isso, fui convidado a discutir o tema nos estúdios da MTV em São Paulo. O programa foi ao vivo no dia 09/11/10. Quem desejar acompanhar, deixo vídeo e links.





segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A arte é sublime, os artistas não...


Você já se assustou com o fato de que aquele melhor músico que você conhece e admira, ao ser entrevistado, pareça um demente? Ou que o artista plástico que você tanto idolatra seja um bruto? Ou que o escultor que quase chega a dar vida a pedras seja um pedante e prepotente? Ou que o cineasta que você gostaria de se espelhar seja um viciado que mal consegue conversar acerca do que tem dirigido no cinema? Para longe de generalizações baratas, sempre vi a arte como sendo o fim último dos homens. Nunca mudei de opinião. Somos animais metafóricos: sem a arte não conseguimos dar vazão às estruturas simbólicas da existência. Tanto me impressionei com a música desde criança que nunca quis aprender a tocar por medo de desvendar todo o mistério sagrado que rodeava a musicalidade, me sentia incapaz de chegar a tão alto grau de desenvolvimento intelectual, acreditava que para se tornar um grande músico deveria ser virtuoso, sóbrio, sério, em suma, um sábio. Sempre imaginei que para ser artista era condição sine qua non ser sapiente e moderado. Fui crescendo e notando que a arte é como o Daimon socrático, uma inspiração, um talento que não escolhe em quem vai encarnar. Notei também, assim como Montaigne, que sabedoria e erudição não é a mesma coisa. Acreditava serem os sábios necessariamente eruditos por mais simples que fosse sua sabedoria. Não entendamos aqui erudição por academicismo. Notar que o que se sabe pode virar apenas razão ornamental e pedantismo foi me mostrando que eu mesmo, com toda minha imperfeição e limitação criativa, poderia ser artista de seja lá o que... Passei a acreditar que as pessoas, por mais medíocres que sejam, sempre conseguem alguma coisa na vida. Digo isso agora não por prepotência, mas por conhecimento de causa. Na pós-modernidade, como é taxado impropriamente o modernismo tardio, o fazer arte é extremamente fluido, etéreo, inconsistente, fugidio, ou seja, depende demais dos falsos atrativos do conceito. Tento me convencer que a Capela Sistina e uma baleia partida ao meio são entes arte do mesmo patamar de existência. Sou muito novo, mas é impossível me livrar de questões anciãs. O belo é duradouro, diria Aristóteles. Tento discordar disso, mas quando observo que a música de Mozart e Bach (entre uma e outra) dura trezentos anos - e não há que não ache belo- e a música do É o tchan tenha durado penosas duas décadas, comprovo isso. Falar de Mozart e Bach em comparação com É o Tchan é covarde, eu sei. Mas vivo ouvindo que tudo é arte, e é deste esteio retórico que parto. Saio das bienais sempre com um incomodo conceitual. As esculturas de Aleijadinho ou as pinturas de Gustav Klimt tomam a cabeça de um cidadão por todo e sempre. Os adesivos, túneis, urubus em gaiolas, lasers e obras interativas são esquecidos rapidamente. Será que sou retrô? Anacrônico? Démodé? Estou num discurso barato de retomada de modas antigas? Mas é que, no cinema por exemplo, quando assisto filmes comprometidos com questões políticas sérias de um determinado tempo, e me deparo com essa ditadura do curta metragem ou da industria de roteiros alternativos ou os fastfoods, fico a pensar. Deixe de ser anacrônico, classicista e aristocrata, Raphael! Sua compreensão de arte conceitual é rasa e generalista! Calma, calma. Há coisas que acho magníficas e tão válidas como qualquer expressão artística caduca que, conservadoramente, citei aqui. Por exemplo, Yukinori Yanagi em 1996 montou uma idéia contemporânea, simples e não tem hermenêutica, nem intermédio conceitual que não entenda diretamente o que ele quis fazer. O rapaz em questão montou uma série de formigueiros interligados, todos com areia colorida representando bandeiras de vários países. A sacada artística é que as formigas, movendo as partículas de areia de uma bandeira para outra, representem as relações internacionais, as misturas raciais, o que cada cidadão que sai de um país para outro leva e trás, etc. Em suma, ele falava, através de formiguinhas, do processo de globalização: genial!


Eu sei! Eu sei! Na Arte Conceitual o público é obrigado a deixar de ser apenas um observador passivo, o acesso a obra já não é mais tão direto. Que seja. Mas não deixo de me amotinar espiritualmente. Epicteto, ilustre pensador estóico, insistia em dizer que a alma reluta em ser privada da verdade.


E o que os artistas têm a ver com isso? Eles me têm privado da verdade e do bom senso artístico. Moro num lugar onde a cada grau que minha visão pode alcançar há um artista a caminhar. Em suma, Já foi na 29ª Bienal? Não? Ainda está acontecendo. Então pare de ler esse texto anacrônico, com vocabulário senil e vá ter um bom entretenimento. Eu gostei.