quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A verdadeira vida está ausente?


A vida está acima das cadeiras, dos computadores, dos prédios, dos Iphones. Uma vida não vale a pena ser vivida sem musicalidade, sem êxtases que nos desprendem até das roupas do corpo. O homem é um animal metafórico. Tem tendências a flutuar e descolar os pés do chão. Animal metafísico. Mas, se a verdadeira vida está ausente, nós estamos no mundo, dispostos e cheios de tonalidades afetivas. Como falar em finitude se somos nós buracos negros de desejos insaciáveis e de vontades intermináveis? Eles mesmos, os desejos! Que fazem do corpo um libertino, um rebelde, um insaciável. E o que é o corpo? Um não-eu? Quando se diz “meu corpo”, não se comete uma abstração infiel? Eu não tenho um corpo, eu sou um corpo: eucorpo. Ser corpo é corporar. Afinal, há um piloto em nós? É o corpo uma nau e a alma o navegador? Os modernos foderam nossas percepções sobre nós mesmos. Decapitaram o espírito do corpo de tal forma que a face carnal em nós é obstáculo, imperfeição, prisão! Sem o corpo, sem a carne, sem a disposição espacial do nosso esqueleto, não há sequer compreensão. A captação do mundo por um anão não é a mesma de alguém com gigantismo. Alguém obeso não está disposto no mundo como está uma pessoa que sofre de anorexia. O impacto do mundo pra quem vive no Saara não é o mesmo para quem vive na Sibéria. Quem não vê nada morrer, não vive a morte. Quem só observa morte ao redor, da vida esquece. Para um desempregado, o mundo se mostra como oportunidade. Para um depressivo, o mundo possui tons cinza e o Sol não aquece tanto. Se há algum fator mais forte que a morte, esse é o amor. Eros faz Thanatos sucumbir. É através do erotismo que os indivíduos se achegam e se reproduzem, conferindo uma eternidade virtual às espécies. Não é a filiação a extensão da existência de um indivíduo? A glória da genética.