sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Finietzsche him!!


Se você já perdeu muitas tardes da sua vida jogando Mortal Kombat, famoso jogo eletrônico de luta dos anos 90 e até hoje, sabe que cada combate era arrebato por um golpe final, geralmente muito violento, anunciado por um narrador que bradava: “Finish Him!!”. Ao acertar um destes golpes, o player, assim como um interlocutor de uma peleja retórica, sentia-se demasiadamente vitorioso.  É baseado nesse golpe de misericórdia que inauguro mais uma série que trará os mais fortes socos frasais do mais pop filósofo alemão: “Finietzsche him!!”. Afinal, além do maior bigode da história da filosofia, ele sempre reserva os melhores golpes finais quando o assunto é pancadaria dialética.






sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O tempo é o tutano da existência


O tempo é o senhor de todas as coisas. Esta é uma frase que surtiu efeito em minha vida, indo muito além dos clichês auto-ajuda. Aos 14 anos me tornei um existencialóide, mas me apercebi apenas aos 23. O que é um existencialóide? O que importa no momento é que o tempo tem um peso e podemos escolher carregá-lo sozinhos ou com a ajuda de outros. Aprendi com Heráclito, um dos úteros da filosofia, que estamos em constante mudança, ou seja, nada é estático. Quem pode duvidar disso? De fato, tudo muda o tempo todo. É possível sentir o tempo, afinal, dele temos uma intuição. Vê-lo também é possível, na medida em que teima em se instalar na matéria, assim como o lodo se sedimenta nos pisos. É impossível esquecer minha mãe folheando álbuns de família, admirando espantada algumas fotos dos anos 80 e se constrangendo com o penteado espalhafatoso e as ombreiras bregas enfiadas nos blazers. Ficava me questionando como é possível alguém se auto-estranhar. Eu sou eu e ninguém nos separa? Constante mudança? As aulas de Física, ciência na qual sempre fui péssimo, me ensinaram categoricamente que uma constante é justamente o que não muda. Ai foi que, ainda na escola, aprendi o que são as metáforas. Logo depois veio Nietzsche, um dos cistos no útero da filosofia, e me disse que somos, de fato, animais metafóricos. Acho que exatamente por isso o velho Heráclito recebeu o codinome de “obscuro”. Acabei entendendo que mudança e duração são geneticamente atracadas. Para mudar, uma coisa precisa durar. Do contrário, uma barra de gelo não derreteria. Para durar, algo precisa mudar. Se não fosse dessa maneira, como teria perdurado tão insistentemente a Igreja Católica no fio da história? O tempo é o tutano da existência. 

Trecho do livro em construção Da existência ao existencialóide.



sábado, 29 de outubro de 2011

Monsenhor Emílio Silva e os Modernos: Pena de Morte já ou Moderação das Penas?

Se o tema da pena de morte lhe interessa, acabo de publicar sobre o tema na Revista Theoria da Faculdade Católica de Pouso Alegre, Minas Gerais. Compartilho aqui com vocês.


O artigo em questão trata de apresentar sucintamente a posição polêmica do pensador brasileiro Emilio Silva acerca da pena capital e opô-la às idéias de três grandes pensadores modernos, são eles: Montesquieu, Rousseau e Beccaria. Se por um lado o padre Emílio tem como idéia central a necessidade de legitimar a pena de morte como um meio eficaz de restaurar a ordem social quebrantada, para os modernos o morticínio não é capaz de afugentar e nem diminuir o ímpeto criminal. Para estes últimos, se verá, é mas eficaz acostumar espíritos a penas fortes e constantes do que desprender muita energia numa só pena que logo será esquecida. Assim podemos, sem o exagero de termos, detectar já na obra dos pensadores do séc. XVIII uma espécie de behaviorismo criminal ou seja, a idéia de que condicionar os costumes criminais é mais eficiente do que estimular a mortandade no estado de direito, o que traria um enorme mal estar.

Palavras-chave: Filosofia do Direito. Pena de morte. Emílio Silva.

Baixe aqui.



segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Schopenhauer ou o Krav Magá das ideias


Você acha que sua vida anda repleta de desgraças? Suas notas estão um lixo? Você moça, está frígida? Você rapaz, broxando ou com ejaculação precoce? Alguma doença venérea? Levou chifre? Você ainda não tem carro e não agüenta mais os ônibus? Não consegue um iPhone? Seu chefe é um canalha? Cartão de crédito e Cheque Especial lhe tiram o sono? Algum professor lhe persegue? Está doente e não pode mais beber? Tem trabalhado 8 horas por dia? Entristece-se vendo gente mentecapta como Filipe Neto fazendo sucesso e você não? Estourou o dedo no meio-fio? Até Deus lhe abandonou? Pois é ilustres, se Nietzsche é o Muaitai das palavras, Kant é a capoeira da argumentação e Heidegger o mestre da esgrima alemã, um simples ataque do Krav Magá das ideias schopenhaurianas pode lhe livrar de qualquer mal. Quer o segredo para diminuir suas próprias desgraças? Simples! Elas são inevitáveis. Procure sempre um desgraçado mais desgraçado do que você... 

Se liga:

Não conheço nada mais absurdo que a maior parte dos sistemas metafísicos, que explicam o mal como uma coisa negativa; só ele, pelo contrário, é positivo, visto que se faz sentir... O bem, a felicidade, a satisfação são negativos, porque não fazem senão suprimir um desejo e terminar um desgosto.

Acrescente-se a isto que em geral achamos as alegrias abaixo da nossa expectativa, ao passo que as dores a excedem grandemente. Se quereis num momento esclarecer-vos a este respeito, e saber se o prazer é superior ao desgosto, ou se apenas se compensam, comparai a impressão do animal que devora outro, com a impressão do que é devorado.

A mais eficaz consolação em toda a desgraça, em todo o sofrimento, é voltar os olhos para aqueles que são ainda mais desgraçados do que nós: este remédio encontra-se ao alcance de todos. Mas que resulta daí para o conjunto? Semelhantes aos carneiros que saltam no prado, enquanto, com o olhar, o carniceiro faz a sua escolha no meio do rebanho, não sabemos, nos nossos dias felizes, que desastre o destino nos prepara precisamente a essa hora — doença, perseguição, ruína, mutilação, cegueira, loucura, etc.



sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Heidegger ou a cipoada da esgrima alemã


Então você, professor de filosofia, todo animado com a responsabilidade de ensiná-la a uma série de jovens - e crendo na possibilidade efetiva de tal atividade - leva uma cipoada de um monstro da esgrima alemã. É isso meus amigos... Se Nietzsche é o Muaitai das palavras e Kant é a capoeira da argumentação, não duvide das técnicas de esgrima do filósofo chucrute que você lerá abaixo.  Logo eles, os jovens, tão cheios de abertura às novas informações, tão sensíveis à abstração, tão geralmente preguiçosos e dotados de tão belos sentimentos. Exatamente eles são os menos indicados para estudar a vovó filosofia. Ô seu Reinaldo Azevedo! O senhor bem que poderia utilizar a fala de Heidegger para destruir a secretaria de educação de São Paulo que quer absurdamente mais filosofia nas escolas. Brincadeira... Pega essa promoção:


 ‘Com os belos sentimentos faz-se a má literatura’, ‘C’est avec les beaux sentiments que l’on fait la mauvaise literature’. Esta palavra de André Gide não vale só para a literatura; vale ainda mais para a filosofia. Mesmo os mais belos sentimentos não pertencem à filosofia. Diz-se que os sentimentos são algo de irracional. A filosofia, pelo contrario não é apenas algo racional, mas a própria guardiã da Ratio (...) se aquilo que se apresenta como Ratio foi primeiramente e apenas fixado pela filosofia e na marcha da sua história, então, não é de bom alvitre tratar a priori a filosofia como negócio da Ratio.


Touché!






terça-feira, 4 de outubro de 2011

Kant ou a capoeira da argumentação

Se Nietzsche é o Muaitai das palavras, Kant, sem dúvidas, é a capoeira da argumentação. Se um dia você se questionou sobre a possibilidade de conceber ou demonstrar a existência de Deus através de argumentos racionais, acrescentando-lhe ideias, Kant lhe diria:

O conceito de um Ser supremo é uma ideia útil sob muitos aspectos; mas, justamente por ser uma simples ideia, é incapaz, por si só, de ampliar nosso conhecimento a respeito do que existe [...] Todo o trabalho e o estudo investido no tão famoso argumento ontológico [De Santo Anselmo] da existência de um Ser supremo foram, portanto perdidos; e um homem, por meio de simples ideias, certamente não se enriqueceria de conhecimentos, da mesma forma que um mercador não poderia se enriquecer de dinheiro se, para melhorar a sua própria condição, acrescentasse alguns zeros em seu livro de caixa.

Obs: Essa é uma resposta direta ao filósofo medieval Santo Anselmo. Segundo este, no seu famoso argumento ontológico, é possível deduzir a existência de Deus como consequencia lógica de sua natureza perfeita. Se Deus é um ser perfeito, não lhe pode faltar o atributo da existência, oras!



sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Suicídios no CFCH - soluções materiais para problemas existenciais?


A culpa dos sucessivos suicídios em terreno da UFPE é do CFCH, do seu clima e de suas energias? A culpa é, então, do alto cultivo da razão no local? Quem se ilumina demais acaba ofuscado? Conhecereis a verdade e a verdade vos “libertará”? O que tem tornado a sociedade pernambucana mais suicida? É um fato exclusivamente universitário? Uma série de questões não tem sido respondida, sequer as perguntas têm sido razoáveis. O que se vê é muito deboche e estigmatização acerca dos que se vão e dos que ficam. Nada mais canalha do que tratar um tema tão sério com gracejos e anedotas. "Mais um estudante de filosofia que se joga", é a frase tão comum quanto cretina. Então os estudantes resolvem protestar contra um fato que tem se tornado cada vez mais banal. “Gradeamos as varandas de todos os andares da parte traseira do CFCH”, afirma a Reitoria. A sociedade tão egocentrada se preocupa apenas em não continuar se constrangendo com os corpos que explodem constantemente no solo do conhecimento. Logo, a Reitoria tem a obrigação de evitar que essa anomia social continue ocorrendo por lá. “Que se matem na SUDENE!”, é possível ouvir. Protestar contra suicídios é um ato interessante... Que soluções materiais podem ser dadas para problemas existenciais? Que decisões políticas podem desencorajar uma pessoa que não quer mais viver a não se matar? A verdade é una e constrangedoramente simples: deseja-se somente que se matem em outro lugar. Grades? O suicida ao chegar no topo do prédio, observará grades e desistirá imediatamente de uma decisão tão capital? Seguranças? Neurotizar uma prédio inteiro com a presença constante de semi-autoridades? Uma sociedade saudável deveria ter os seus espaços de abandono voluntário da existência: os "suicidários". Mas, entre nós ocidentais, essa é uma possibilidade abominável e absurda. Certos homens desejam prolongar sua vida enquanto devem e não enquanto podem. Eis uma verdade inaceitável dentro de uma sociedade medicalizada, centrada no prolongamento da vida a qualquer custo. A solução é transformar um prédio - no qual a liberdade e a razão deveriam ser os paradigmas dominantes - numa enorme carceragem de grades e vigilância? Ou faz parte de uma decisão racional que a edificação seja hermeticamente protegida? Se a morte fosse um problema metafisicamente dissolúvel, o suicídio não seria sequer um problema.




terça-feira, 27 de setembro de 2011

Só o trabalho dignifica o homem?


Existe um enorme constrangimento social quando um ser humano afirma estar trabalhando pouco ou quase nada. Em suma, quase ninguém tem a audácia de dizer que anda com “nada” para fazer. Durante toda a vida do cidadão, sustenta-se que uma vida digna é aquela cuja cabeça vive ocupada, dedicada constantemente aos afazeres exteriores. Trabalha-se com isso, com aquilo, vende-se feijão, carros são negociados, placas de publicidade são espalhadas pela cidade, colam-se cartazes, graduações são eternamente concluídas (e ai daquele estudante que não vive gritando aos 4 ventos que “VOU ALI ESTUDAR”), eternos cálculos de economistas são concluídos, combate às drogas, venda de cigarros, aluguel de apartamentos, venda de roupas, Consultorias Junior, ad eternum postado no Facebook a cada nova realização para que toda a sociedade ao redor fique sabendo. "Mente vazia é oficina do diabo", repete-se constantemente. Concordo, mas cabeça vazia também pode ser manufatura da razão. O ócio produtivo não é lá grande novidade. Nem os Gregos de hoje em dia conseguem cultivá-lo. Estão mergulhados numa crise, afogados em medidas de austeridade e não há moratória que dê jeito. Quem se pode dedicar ao ócio produtivo se o ócio que dignifica é justamente o improdutivo? Precisamente aquele ócio que descansa a carcaça do trabalhador em sua constante produção. É preciso ter cuidado: ocupar-se apenas com fatos exteriores e mecânicos faz com que o homem se distancie justamente do que mais deveria aproximar-se: o si-mesmo. Se ligue cidadão. A não ser que o dinheiro seja realmente seu único deus, só a auto-análise pode desintoxicar seu espírito marcado por substâncias materiais. Quem me disse isso foi um parceiro antigo. Quer escutá-lo? Fala ai seu Sêneca...

"A condição de todos os ocupados é miserável, contudo o mais miserável é a daqueles que nem se molestam com suas próprias ocupações, que regulam seu sono pelo alheio, que caminham segundo as passadas de outro e que estão sob ordens, mesmo nas mais livres das coisas: amor e ódio. Creia-me, é próprio de um grande homem e de quem se eleva acima dos erros humanos, não consentir que lhe tomem um instante sequer da vida, assim toda sua vida é muito longa, uma vez que se dedicou todo a si próprio, não importa quanto ela tenha durado. [...]Àqueles que tiveram muito tempo da sua vida subtraída pelo povo, ela necessariamente faltou[...]Todos que te reclamam para si te afastam das tuas ocupações. Quantos dias te tomou aquele réu? E aquele candidato? E a velha, já cansada de enterrar herdeiros? E aquele que finge ser doente para excitar a cobiça dos caçadores de testamentos?[...]É tão bom assim morrer ocupado?"




segunda-feira, 26 de setembro de 2011

É possível descolonizar o pensamento?


É possível descolonizar o pensamento? É possível deslogocentrizar as ações da consciência? É possível uma outra racionalidade que não a dos donos do mundo? Há força para suscitar um movimento de tropicalização do pensar que não carregue em si o estigma do lunático comunista universitário? Como evidenciar o puro pensar brasileiro? Como se livrar de um pensamento de enfeite, a “razão ornamental” da qual fala Roberto Gomes?
Os intelectuais imbecis e misólogos, acreditam que não há pensamento por aqui. Como é possível inaugurar uma lógica subdesenvolvida, uma filosofia com cheiro de engenho, um pensamento que seja parecido com o que somos e não com o que devemos ser? Não participamos mais da subjetividade européia, higiênica, de países milenares, que já tiveram sua Idade Média e que hoje bailam numa crise hiperdesenvolvida à custa de sangue africano. Não, nós não somos isto: somos outrem. Com exceção de meia dúzia de sociopatas que odeiam a cultura de massa nacional, que choram lendo Heidegger, Freud, Hegel e outros totalitários e que, por enxergarem o Brasil como uma barca abandonável, se autoexilam, somos a Europa em sua face depauperada. Somos selvagens. Euroandróides cuja parte não robótica esconde nosso verdadeiro pensamento. Primitivos com um poder de criação e pensamento tão elevados que se pode causar sustos e calafrios em colonizadores.
Precisamos de um pensamento que arrazoe o latino, que ajuíze o precário e que seja sutil, mesmo chafurdando na realidade dos tristes trópicos. Um brasileiro niilista é como um europeu na Sapucaí: uma artificialidade burlesca. Que se pense Cuba ao invés da França, que se pense o México ao invés da Alemanha.
Mas e se o problema for genético? Como superar aquilo que se é desde os genes? Não são eles (os europeus) propriamente os nossos pais? Abandonar os clássicos? Como se pode abdicar dos próprios antepassados? São verdades possíveis e necessárias, não se trata desse tipo de ingenuidade. A questão não é negar, nem conservar e muito menos suprassumir nada. Trata-se de rumar por outras vias, vielas, becos, favelas. Num país tão contraditório como o Brasil, quem precisa pensar dialeticamente?
Somos a África, a América e a Europa em síntese: a própria dialética encarnada em mestiçagem. Precisamos ir além das meras apologias, dos bairrismos balizadores, do asco intolerante, do ressentimento inferiorizante e das revoluções de fantasia. É a necessidade de uma ascensão, da desambiguação da nossa verdadeira identidade. Sem dúvidas, devemos nossa racionalidade aos europeus. Mas a nossa infância já se foi, temos agora mais de 500 anos e precisamos viver nossa própria Idade Média.



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Aforismos (28)

Eu queria encaixar alegrias no lugar de prazeres,
por isso "verdadeiras" não passou para o masculino...




terça-feira, 6 de setembro de 2011

Suape ou a micareta industrial


Clique para aumentar

Quem se recorda do Recifolia, micareta extinta em 2003, sabe que esse acontecimento era pouco saudável para a cidade e ainda menos benquisto entre a maioria dos cidadãos. A passagem virulenta dos blocos destruía tudo e só deixava lucro para políticos e empresários. O cidadão e a cidade permaneciam em desvantagem, afetados e incomodados com tamanha desmedida e despropósito. Analogamente, observamos em Suape uma espécie de micareta industrial. Dos 43 mil funcionários atuais, apenas 8 mil são pernambucanos. Boa parte do que é produzido ali, não necessariamente fica no Estado. Para o porto funcionar, não é sequer necessário que mercado consumidor seja local. Seria mais uma sanguessuga? Além disso, uma ampla área de vegetação entre Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho está sendo suprimida indiscriminadamente. O funcionamento ambiental, o nicho de diversas espécies marinhas e os resquícios dos estuários estão sendo enterrados vivos. Quem passa por Suape, ao menos quem o faz desde o mar, presencia o assassinato de diversas áreas de estuário.



O Recifolia era simplesmente uma festa. Coincidência ou não, o ano de 2011 marca o seu questionável retorno. Suape é um parque, mas não se trata de um parque de diversões. Estamos falando de um parque industrial. Quem tem a oportunidade de visitar o local, fica deslumbrado com o nível de progresso e de promessas para o futuro de Pernambuco e do Brasil. O ufanismo típico do pernambucano é prontamente ativado. Tudo lá, naturalmente, é o “maior da América Latina”. O que existe de mais avançado no mundo da indústria não para de chegar e Pernambuco está prestes a ser lançado no mainstream do capitalismo. Os números impressionam dado que tudo é gigantesco. Logo, deveríamos esquecer esse papo retrógrado de ambientalismo e sustentabilidade e demonstrar orgulho de tamanho empreendimento tão perto de nós, certo? Vamos com calma.



A cena da construção de Suape é aterradora, literalmente. Quem observa toda a estrutura do ponto de vista do mar, sai de lá com um sentimento de tristeza. O que há de dantesco nesse mega empreendimento, é do mesmo tamanho da irresponsabilidade ambiental. Uma fração assustadora da área de mangue está sendo aterrada, destruída, solapada, preterida. Em Suape, a natureza não tem mais a essência da grandiosidade com a qual os povos de outrora se deparavam. O que antes era considerado sagrado, hoje se encontra simplesmente disponível às máquinas e às técnicas. A natureza é doravante mero obstáculo, um empecilho a ser superado. E lá estão as toneladas de areia enterrando os mangues ainda vivos.

Suape não parece cumprir os acordos de compensação ambiental que vêm sendo estampados em seu site oficial. Nós últimos 10 anos, o Porto, que existe desde a década de 70 mas só agora vê a glória chegar com força, já desmatou 365,36 hectares de vegetação nativa. “Suape é a jóia da coroa pernambucana. Uma maravilha logística. Uma poupança do povo de Pernambuco feita por mais de 30 anos, sem interrupção e no lugar certo”, é o que diz Francisco Cunha, sócio da TGI Consultoria. Se Suape é nossa poupança, quem são os Fernandos Collor de Mello que andam a sequestrá-la?

E os moradores?
Além do mais, sabe-se que Suape está trabalhando na retirada dos pescadores da Praia do Paraíso, gente que vive há pelos menos 80 anos no local. Sem contar o prejuízo aos patrimônios históricos, o aumento considerável da violência, fruto da imigração descontrolada e o processo de favelização, o excesso de caminhões nas rodovias e o impacto cultural, como por exemplo o fim da tradicional Festa da Lavadeira.

 A atitude teórica do Desenvolvimento Sustentável é esteticamente muito bonita. Mas o sentimento prático de quem vê a derrocada da já agonizante Mata Atlântica não é nada agradável aos sentidos. 

Que questões podem ser erigidas nesse processo pouco luminoso do desenvolvimento do Estado? Qual o preço do progresso? Os fins justificam os meios? A morte inadvertida de um bioma não é uma questão séria? Organizar politicamente a sociedade pernambucana na fiscalização a expansão de Suape não é viável? O que há de confuso nas mudanças do Código Florestal? Como é possível observar a construção do porto com olhos críticos e não com olhos oportunistamente deslumbrados? A quem favorece a presença de Suape? Quais as futuras consequências de tamanha alteração ambiental? E você, o que tem a ver com isso?

Enquanto o cidadão comum continuar acreditando que sempre faz parte da última geração, o único possível habitat do hommo sapiens continuará sendo degradado, até que a luz vermelha da responsabilidade seja acesa com toda a força. Não é necessário ser ambientalista e nem poeta para sentir-se incomodado com os excessos cometidos contra a natureza. A razão foi distribuída entre todos nós de maneira igual. Observando os arredores, apenas alguns espertos a têm usado em favor próprio, enquanto outros têm suas vistas obscurecidas propositalmente. 

Responsabilidade ambiental e ética da responsabilidade não são propostas poéticas e nem estéticas: são ações visando a preservação do que somos e necessitamos. No fim das contas, trata-se de autoconservação e dignidade humana.



domingo, 28 de agosto de 2011

O que é que os gregos fizeram por nós?


Quando se encontra textos e falas de pensadores muito mais preparados e virtuosos do que você "é", a vida ganha mais cor e mais estímulo. Vale muito a pena ler o que tem a dizer Mark Rowlands, pensador galês. O Trecho reproduzido abaixo (completamente incorporado ao meu acervo de Introdução à Filosofia)  foi retirado do livro "Tudo o que sei aprendi com a TV". Boa leitura.

Talvez nem tudo o que sei eu tenha aprendido com a TV — mas uma boa parte, sim. E não é que eu tenha o hábito de ver coisas com pretensões intelectualizadas. Na verdade, minhas pretensões estão longe de ser cerebrais; quando se trata de assistir a alguma coisa, estou mais para o povão. E, como o povão, estou sempre ouvindo os intelectuais dizerem como somos burros e estúpidos. Se pelo menos — dizem eles — pudéssemos ser como os gregos... Não como os gregos de hoje, é claro, que são tão ignorantes quanto nós; mas os gregos antigos.

Eles eram muito mais cultos que nós. Passavam o tempo na praça do mercado — a agora —, discutindo as grandes questões da vida, do universo, e tudo o mais. Nós ficamos dentro de casa, nos cocando e vendo Big Brother. Mas nessa celebração dos antigos e reprovação dos modernos, parece que se esquecem de uma coisa importante. Por que é que os gregos tinham que ir para a praça do mercado e falar de filosofia o tempo todo? A resposta é óbvia: porque eles não tinham TV! Nós não precisamos mais ir até a praça do mercado para filosofar. A TV faz isso por nós, no conforto de nossas próprias casas. A filosofia não morreu em nossa moderna cultura aculturada; foi apenas realocada.

Não pense que isso não tem a ver com você — somos todos filósofos, tendo ou não consciência disso, tendo ou não folheado um livro de filosofia. A filosofia está em toda parte; está em nossa cultura. Salta dos filmes a que assistimos, das revistas e jornais que lemos. E o mais importante, pelo menos em relação a este livro, dos programas de TV que acompanhamos fielmente durante anos. Por causa disso, a filosofia está em nós. Todos nós somos autores, co-autores, produtores, diretores, atores e atores convidados de muitas questões, problemas, debates, combinações e confusões filosóficas — apesar de não termos idéia do que está se passando na maior parte do tempo.

Ser filósofo é fácil, e não temos muita escolha, de qualquer forma. Se você vive a vida e já pensou nela alguma vez, você é um filósofo. Ser um bom filósofo... bem, isso já é uma coisa completamente diferente.



terça-feira, 16 de agosto de 2011

A xenofobia e o eterno retorno do semelhante: sul-americanos se enfrentam em SP.

A repetição de certos eventos ao nosso redor, evidenciam que o inevitável fenômeno da xenofobia começa a ter uma nova edição; ampliada e atualizada. Os antigos ódios têm o mesmo conteúdo, só observamos a mudança das formas. Depois do atirador norueguês, odiando a esquerda do seu país e querendo a saída dos árabes (Mayara Petruso, no Brasil, odeia a esquerda por causa da presença dos nordestinos em São Paulo. Semelhante, não?), agora podemos constatar que bolivianos, paraguaios e peruanos vivem em enfrentamento em SP. Que questões podem ser levantadas? Não seria o humano, não importa a região do mundo, por excelência, um defensor de territórios? Ou a propriedade despertou o "senhor de engenho" que desde sempre existiu em nós? Existe alguma população no mundo que não tenha demonstrado alguma espécie de comportamento xenofóbico além dos cidadãos da Utopia de Thomas Moore? O Muro de Berlim caiu há um bom tempo, mas por que será que entre a Espanha e o Marrocos existem muros de separação? Por que há uma faixa de arame farpado de 200 km dividindo as Coréias? O que justifica a existência de uma Linha de Controle entre Índia e Paquistão? E o que dizer do Muro da Cisjordânia, ainda em construção por parte de Israel? Pensemos hoje uma necessária discussão futura.


Mais detalhes sobre o caso em São Paulo, aqui.




segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Casas Existencialóide – Vendendo verdades pelo menor preço


Vendemos as mais convenientes verdades do mercado. Atenção: só vendemos verdades. Vender a Verdade faz parte do disputadíssimo e perigoso mercado proselitista. Trabalhamos com homeopatia da verossimilhança. Toda verdade é verdadeira, mas não é a única. Não vendemos mentiras; estas saem como amostra grátis.

TROCAS E REPASSES:
Troco uma verdade socrática, duas estóicas e uma platônica por 16 kg de honestidade.

ANTIGUIDADES:
No antiquário ainda restam cinco verdades cristãs e duas islâmicas.

PROMOÇÕES:
Por preço módico, vende-se uma verdade estética kantiana.
Verdades políticas e sociológicas para todos os gostos e interesses.


QUEIMA DE ESTOQUE:
50% de desconto nas verdades psiquiátricas e nas verdades de Schopenhauer.
80% de desconto na seção de Niilismo. Preços tão baixos que são quase NADA.

Fazemos qualquer negócio. Não aceitamos trocas, nem devolução. A não ser que seu argumento seja mais forte.




segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Noruega e a tolerância multiculturalista

Behring Breivik, o atirador norueguês, faz parte de uma organização que demonstra uma forte aversão ao multiculturalismo e sua política de tolerância global. O que há de errado no conceito de tolerância? Por que as políticas multiculturais tendem a igualar o conceito de aceitação e respeito ao conceito de tolerância? Tolerar é ter que suportar tacitamente. Eis ai uma atitude artificial que vem cobrando de todos os seres humanos um comportamento que nem todos podem assumir.

*** 

Quem vem acompanhando o atual quadro político da região mais fria da Europa, não vê os ataques ocorridos na Noruega com espanto e surpresa. O que tornou possível a ação de Breivik, um cidadão declaradamente anti-islâmico e que culpa a Esquerda pela invasão árabe em seu país, é resultado direto da atual lógica da sociedade multicultural. Na própria Noruega, para se ter uma ideia, uma onda de estupros étnicos (Muslim rapes) vem chamando a atenção desde 2005. É possível constatar um aumento notável do número de ocorrências desse crime justificado etnicamente. Em terreno ocidental, norueguesas são punidas por não usarem véus. “Mulheres vestindo pouca roupa convidam homens a estuprá-las”, afirma o sheik libanês Faiz Mohammed.

Pois bem, os atentados na Noruega evidenciam um fenômeno que está presente, inclusive, entre nós brasileiros. O estresse das demandas nascidas da sociedade multicultural começa a dar seus primeiros sinais. É possível constatar que não são poucas as pessoas que têm saído em defesa do direito à “intolerância”. As políticas de tolerância têm se complicado em várias partes do mundo, suscitando uma série de reações de cunho nacionalista. Há no Brasil, assim como na Noruega, movimentos que desejam o distanciamento dos grupos estrangeiros considerados “invasores”. O fenômeno da xenofobia acaba de ganhar nova roupagem.

***  

Nas últimas décadas, as antigas “pequenas esquerdas” explodiram com toda a força. Testemunhamos um tempo de fortes mudanças e de críticos movimentos tectônicos nas inflexíveis placas sociais. É possível afirmar que as antigas lutas das minorias não obedecem mais às discretas refregas localizadas. As minorias, doravante, são a maioria e não foi por boa vontade e aceitação do “outro como outro” que esses grupos, vítimas históricas de discriminação, desprezo elitista e preterição étnica, ganharam espaço. Impuseram-se politicamente, sindicalizando-se, protestando e usando, inclusive, de violência. As megalópoles atuais são enormes sítios do multiculturalismo. A convivência forçada de culturas antes incompatíveis conseguiu até agora não mais do que a instauração da necessidade de uma tolerância multicultural. O conceito de tolerância estava fadado a se fixar. Interessante notar que o fenômeno da tolerância evidencia um grandioso oximoro moral. De fato, testemunhamos um irônico paradoxo da democracia: os intolerantes não são tolerados, logo, a intolerância prevalece.

*** 

Alguns pensadores não enxergam o multiculturalismo com bons olhos. O cidadão, obnubilado pela tolerância repressiva do multiculturalismo, corre o risco de se tornar cego à possibilidade de que o outro pode simular o desejo de bondade, equidade, respeito e justiça, visando interesses próprios. O outro pode se esconder atrás de uma máscara e dissimular situações. O que num momento expressa harmonia e aceitação, pode resguardar um ressentimento discriminatório sem precedentes. Uma classe discriminada e diminuída, passando porventura à dominância, pode ser tão ou mais indiferente e intolerante. Afinal, não é privilégio de nenhum grupo social o ato discriminatório. Logo, segundo esse ideário, é artificial um discurso que a tudo e a todos compreende e aceita. O filósofo esloveno Slavoj Žižek, tem publicado um livro chamado Em defesa da intolerância e afirma que “a natureza onicompreensiva da Universalidade Concreta pós-política, que a todos dá inclusão simbólica – essa visão e prática multiculturalista de ‘unidade na diferença’ (‘todos iguais, todos diferentes’)-, consente, como único modo de marcar a própria diferença, o gesto proto-sublimatório que eleva Outro contingente (por sua raça, seu sexo, sua religião...) à ‘Alteridade Absoluta’ da Coisa impossível, da ameaça posterior a nossa identidade: uma Coisa que deve ser aniquilada se quisermos sobreviver.” O discurso das diferenças, o “catecismo contemporâneo da boa vontade”, vem configurando um conceito de tolerância que não é natural entre os seres humanos. Segundo Alain Badiou, “consciente ou inconscientemente, é em nome dessa configuração que nos é explicado hoje que a ética é ‘reconhecimento do outro’ (contra o racismo, que negaria este outro), ou ‘ética das diferenças’ (contra o nacionalismo substancialista, que queria a exclusão dos imigrantes, ou sexismo, que negaria o ser-feminino), o ‘multiculturalismo’, (contra a imposição de um modelo unificado de comportamento e de intelectualidade). Ou, simplesmente, a boa e velha ‘tolerância’, que consiste em não sentir-se ofendido com o fato de que outros pensam e atuam diferentemente de você.” Aqueles que se espantaram em outubro do ano passado com as reações xenofóbicas de Mayara Petruso, foram testemunhas da ponta de um iceberg cujo corpo inteiro promete uma guerra global contra a obrigação de tolerar a diferença. 



quinta-feira, 7 de julho de 2011

Curso de férias de Filosofia

Que tal transformar alguns dias das férias em conhecimento? Ministrarei um curso de Ética e história (e contra-história) da filosofia. O objetivo é manter a mente em funcionamento através do diálogo acerca dos temas contemporâneos e da visita aos grandes pensamentos da história do ocidente. Mais detalhes no folder abaixo. Inscreva-se e até lá! 

Recife - PE



terça-feira, 28 de junho de 2011

Por que os gregos tinham uma relação tão forte com a mitologia?

Chega de textos por um momento. 

A imagem abaixo, capturada na ilha grega de Ikaria, aponta algumas das prováveis causas. Se estivéssemos vivos há 3.000 anos, presenciando fenômenos naturais como esse e sem nenhuma explicação científica disponível, não seríamos naturalmente homens religiosos? Você não seria um cidadão politeísta presenciando esses 70 raios cortando o céu? Zeus provavelmente estava irado nesse momento. Então, há 2.500 anos, vêm os filósofos para desencantar tudo. Benditos!  

Clique para ampliar (vale a pena)
Foto de CHRIS KOTSIOPOULOS



Aforismos (23)




segunda-feira, 27 de junho de 2011

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Como continuar achincalhando a imagem da filosofia

Numa constrangedora entrevista, Jô Soares e sua platéia nos ensinam como continuar mantendo uma péssima imagem do filósofo e da filosofia. O próprio filósofo em questão ajuda a manter o estereótipo. Aprenda o que quer dizer "fadiga de material". O riso nem sempre indica a graça. As imagens e as falas falam por quaisquer palavras minhas aqui. Para conseguir chegar até o fim, fechei o vídeo por seis vezes.




quarta-feira, 22 de junho de 2011

Recado do dia

[...] Em conseqüência da reflexão, surge uma outra fonte de prazer e por conseguinte também de sofrimento, que jorra somente para ele, exigindo uma atenção descomunal, que é quase superior a todas as outras fontes, a saber, ambição e sentimento de honra e vergonha. Trata-se da sua opinião da opinião de outros a seu respeito, que se torna, sob inúmeras e freqüentemente estranhas figuras, a finalidade de quase todas as pretensões além do prazer físico ou da dor. (Schopenhauer)





domingo, 19 de junho de 2011

Filosofighters

“A guerra é mãe e rainha de todas as coisas; alguns transforma em deuses, outros, em homens; de alguns faz escravos, de outros, homens livres”. (Heráclito)

Que a filosofia progride por negação não é novidade. É natural que o discípulo negue o mestre. Mas, imagine se essa negação não fosse retórica e dialética. Imagine que a lógica do progresso da filosofia fosse “no braço”.

Quem realizou essa potência non-sense foi a revista Super Interessante. Jogue um pouco e sinta na pele o que querem dizer a tese, a antítese e a síntese.

Clique aqui para jogar.




sexta-feira, 10 de junho de 2011

Besttuitadas - #filosofia (5)




Maldita espécie iludindo geral.

Filosofia e frases motivacionais. Tudo a ver!

Vou te arrumar um exaLstor. Estuda moça, estuda!

Mas tomar uma ouvindo aquele brega, é o ouro.

Malditos profissionais de merd*.

Eis a questão...

Maconha e filosofia: uma ligação eterna.

Melhor pensar devagar do que não pensar em nenhuma velocidade.
E velocidade não combina com pensamento.
 A não ser que seja um jogo de xadrez agoniado.

Maldito Schopenhauer!

Já diria o psicólogo de Miguel (a rosca mágica).



terça-feira, 7 de junho de 2011

Aprendendo a protestar e estar na moda simultaneamente.

Aprenda com alunos da UFPB que estão, de uma maneira paródica, mandando um recado ao atual reitor que, pelo visto, tem deixado a instituição às traças. Eles protestam contra o atraso nas obras do bloco de Comunicação em Mídias Digitais. A banda mais repetitiva da cidade criou escola, aliás, universidade.




sexta-feira, 3 de junho de 2011

Filósofos mortos no céu (4)




Besttuitadas - #filosofia (4)




Maldito estrangeirismo!

Olha ai, você que acusa a filosofia de inativismo.

Falar asneiras é fácil. Mas 2 hit combo, é só para mestres.

Nunca tinha notado como Descartes soa bem em espanhol, diz!

Exatamente. Essa é a filosofia do funcionalismo público brasiliano.

É o twitter ensinando a molecada a ter poder (exagerado) de síntese.

Já diria Aristóteles...

Tá certo. Ao menos quando alguém perguntar para que serve filosofia,
você já sabe o que responder (antes de ficar bêbado de preferência).

Deus, obrigado por cultivar mentes inteligentes no mundo ainda. Amém.