sexta-feira, 11 de março de 2011

Filosofia e prostituição



Muito recentemente, visitei um espaço onde o escritor local acusava a filosofia de comportar-se como uma meretriz, ou seja, apontava a filosofia como sendo uma puta. Assim, por definição e – naturalmente – por filiação, todo o séquito de filósofos da história, seria um bando de “filhos da puta”.
É um absurdo Interessante. Se pudéssemos desdobrar esse pensamento, poderíamos afirmar que a filosofia é a puta que pariu toda a tradição do pensamento ocidental. E o escritor continua,
Mas, como a filosofia seria filosofia se não fosse puta, se fosse totalmente pudica, recatada e intocada?
Neste ponto estou de acordo.
Não só estou de acordo, como me recordo imediatamente de um texto que li em tempos bastante juvenis. Emil Cioran, pensador que venho usando e abusando desde que tive o prazer iluminador de entrar em contato, tem uma ideia extremamente adequada ao que arquitetamos agora. Vê-se que filosofia e prostituição têm uma ligação notocordal. São irmãs separadas ainda no berçário.
Só estou em desacordo em um ponto do que diz o dono daquele blog. Acredito que apenas os filósofos da tradição idealista deveriam ser contabilizados ao cortejo de pensadores oriundos dos ventres das moças que compõem o SINDIPROST.
Diógenes de Sínope, o filósofo “cão”, pai da Escola Cínica, abraçaria pelvicamente minha ideia. Na antiguidade clássica, não só ele. De Leucipo a Anaxarco, de Demócrito a Hiparco, de Antífon a Arístipo, de Filebo a Pródico, de Epicuro a Lucrécio e, para além dos tempos antigos, todo e qualquer pensador que acredita piamente que o corpo é o verdadeiro regime ontológico.
Antes do apagar das luzes, não esqueçamos que Bruna Surfistinha, reconhecida escritora e roteiro vivo de cinema, já é considerada uma pensadora brasileira. Exagero? Se Paulo Coelho figura na Academia Brasileira de Letras, por que não incluir a Surfistinha no campo da crítica da razão tupiniquim? É preferível não continuar essa tese. Se alguém desejar, podemos discuti-la. Acompanhemos Cioran.
O filósofo, desiludido dos sistemas e das superstições, mais ainda perseverante nos caminhos do mundo, deveria imitar o pirronismo de trottoir que exibe a criatura menos dogmática: a prostituta. Desprendida de tudo e aberta a tudo; esposando o humor e as idéias do cliente; mudando de tom e de rosto em cada ocasião; disposta ser triste ou alegre, permanecendo indiferente; prodigando os suspiros por interesse comercial; lançando sobre os esforços do seu vizinho sobreposto e sincero um olhar lúcido e falso, ela propõe ao espírito um modelo de comportamento que rivaliza com o dos sábios. Não ter convicções a respeito dos homens e de si mesmo: tal é o elevado ensinamento da prostituição, academia ambulante de lucidez, à margem da sociedade como a filosofia. “Tudo o que sei aprendi na escola das putas”, deveria exclamar o pensador que aceita tudo e recusa tudo, quando, a exemplo delas, especializou-se no sorriso cansado, quando os homens são, para ele, apenas clientes, e as calçadas do mundo o mercado onde vende sua amargura como suas companheiras seu corpo.



8 comentários:

Zilda Santiago disse...

Eu penso que você é maluco e a família não sabe...rsrsrsrsr

Ana Paula disse...

Então a filosofia é a puta que pariu todos os pensadores do universo?
Adorei o texto: boa sacada, divertido e atual!
Preconceitos à parte, é certo minhas filhas assistirem ao filme sobre a história de Bruna Surfistinha, enxergarem glamour ali e acharem que ela é uma heroína brasileira do século XXI?
Puta que pariu de novo!

MONTEIRO TENORIO, Raphael. disse...

Bruna Surfistinha, Ronaldinho Gaúcho, Polvo Paul, Lady gaga.. É tudo necessário. Se o homem vivesse 48h de tédio real, todos os indivíduos se matariam. Ocupar o tempo com o fácil e perecível. Será que é de todo mal? hehehe

MONTEIRO TENORIO, Raphael. disse...

E outra, Bruna Surfistinha nesse filma tá boa demais, desonesto isso. Uma realidade já fantástica, ainda mais fantasiada. Ah, vá!

Cleciopegasus disse...

Lembrei entrevista recente com Ferreira Gullar, no Roda Viva:

Marília Gabriela: Quais os teus filósofos prediletos?

Ferreira: Todos. Cada vez que leio um deles, acho ele o melhor. Menos Nietzsche. Dizer que o mundo não tem sentido: grande novidade! Ah, também não gosto de Sartre. Essa coisa de que a vida é caminho para a morte... Quero ideias que me tragam vida porque a morte já é algo certo (texto com adaptações).

Não concordo muito com a opinião de Gullar, mas compartilho da raiva secreta dele, um tipo de raiva que fala por trás do encantamento.

Acho que uma das delícias de amar os filósofos é sentir, vez por outra, aquela coceirinha de dizer: você é um belo filho da puta! E essa coceirinha vem de uma espécie de cócega que eles fazem no nosso pensamento ora com seus idealismos ora com suas coisas-em-si. E me fazem perguntar: nem só de pão vive o homem? ou o homem só vive de pão?

Agora, com teu texto que me proporcionou a grande alegria de ser apresentado a Cioran, fiquei ainda mais instigado para ver Bruna Surfistinha. Se bem que tive a honra de conhecer pessoalmente uma mulher de batalha cuja vida talvez seja mais instigante: Nancy Feijó, da Associação Pernambucana das Profissionais do Sexo.

Confesso que quando comecei a ler teu texto, me deu um arrepio e pensei: xi, será que o Rafael vai ficar puto comigo pelo que escrevi (heheheh, não pude evitar o trocadilho.

Grande abraço e obrigado pela menção!! Você é um filho da filosofia, no melhor sentido!

Israel (xeu) disse...

Bravo Raphael, você nos mostra que filosofia é compatível com humor... e esse texto me fez lembrar dessa anedota: Quando perguntaram a Madame de Staël como explicava que as mulheres bonitas tivessem mais sucesso junto dos homens do que as mulheres inteligentes, ela respondeu:
– Porque há poucos homens cegos, mas muitos parvos.

Leonel Inject The Venom disse...

Cioran ja dizia que é a idéia do suicídio que motivava ele a viver.
Bem... se formos ver a filosofia como um prostituta, sinceramente a filosofia é um ato de amor deveria ser comparada com a emancipação do homem, porem a grande problemática é o paradoxo assim como você pode aprender com a filosofia você pode se afundar mais e mais na lama. É tudo uma questão de interpretação como podemos entender a filosofia ja que somos criados por "prostitutas do saber" na quentão bem socrática, quando ele critica os sofistas de conturbarem o conhecimento, a principal barreira do conhecimento esta nas universidades e nos ditos professores e intelectuais um bando de positivistas baratos que perderam a noção de emancipação e vivem uma questão bem pos moderna de querer ver o agora sem ter noção de um futuro... o intelectual pensa mais em si hoje em dia do que nos outros, visam em formar homens pro sistema capitalista e não em humanos produtivos ( humanos produtivos na questão marxista do homem).

a grande prostitua o sistema capitalismo que arreganha suas entranhas para os "homens" o aprisionando na paixão e na ilusão de amor e liberdade.

no caso da Bruna sufistinha "PQP!" li o livro... é de uma reflexão tão intensa que me causou uma transcendência mental. É fato que a industrial cultural cria conceitos desvalorizando o ser e a arte, mas ela esta chegando a um nível absurdo, é Crepusculo, Bruna sufistinha, restart, sem falar do "justen biba", gerando uma violência sutil e uma apologia a perversão.
até que nível a alienação humana vai chegar? Adorno, Habermas, Erich From e Benjamim ao ver até que ponto a indústria cultural chegou teriam o mesmo sentimento que cioran...

www.LeonTheVenom.blogspot.com

HVB disse...

Puta merda, Alma, eu sou uma Puta-Poeta!