terça-feira, 19 de abril de 2011

O que é fenomenologia?


Não existe palavra mais utilizada no meio artístico atual do que o belo léxico Fenomenologia. Sempre que se deseja sofisticar um discurso ao máximo ou parecer chique, pode-se meter no meio do texto um “fenomenologicamente falando”. Mas quem sabe realmente o que é isso? Explicar o que é fenomenologia é uma tarefa fenomenologicamente complicada. Eu poderia usar, de maneira fenomenológica, uma frase de um filósofo francês chamado Maurice Merleau-Ponty. Citar filósofos franceses também é sinal de sofisticação. Acompanhe.


“Fenomenologia trata-se de descrever, não de explicar nem de analisar [...] É a tentativa de uma descrição direta de nossa experiência tal como ela é, e sem nenhuma deferência à sua gênese psicológica e às explicações causais que o cientista, o historiador ou o sociólogo dela possam fornecer [...] O mundo está ali antes de qualquer análise que eu possa fazer dele, e seria artificial fazê-lo derivar de uma série de sínteses que ligariam as sensações, depois os aspectos perspectivos do objeto, quando ambos são justamente produtos da análise e não devem ser realizados antes dela [...] A fenomenologia é antes de tudo a desaprovação da ciência e uma volta às coisas mesmas. Retornar às coisas mesmas é retornar a este mundo anterior ao conhecimento do qual o conhecimento sempre fala, e em relação ao qual toda determinação científica é abstrata, significativa e dependente, como a geografia em relação à paisagem — primeiramente nós aprendemos o que é uma floresta, um prado ou um riacho.”

Em suma, fenomenologicamente falando, trata-se de tomar uma atitude que não reduza as possibilidades de compreensão de um fenômeno, ou mesmo de um objeto, enfiando-lhe artificialmente uma explicação científica que empobreça todas as suas potencialidades. Uma cadeira só é uma cadeira até o momento em que precisarmos utilizá-la como arma branca para autodefesa. O que é o tédio? Responder a pergunta pelo fenômeno do tédio, consiste em não se deixar seduzir por explicações psicológicas, históricas, sociais, neurocientíficas e ir, com uma filtragem espiritual, até o fenômeno mesmo do tédio. Porque um texto filosófico é entediante? É o texto que é entediante ou o leitor que é entediável? Em suma, fenomenologia pressupõe a tomada de uma atitude que faça uma completa faxina conceitual para que um fenômeno seja descrito com a maior pureza possível. É a priorização de possíveis pontos de vista.

Ainda não entendeu? Então esqueça a entediante explicação filosófica e acompanhe a imagem abaixo.





Um comentário:

Jefferson Maciel disse...

Muito bom o texto.
Para os principiantes (eternos, como eu) é sempre bom um texto do tipo "o que é?".
Fiquei querendo relacionar minha área de pesquisa com a fenomenologia.
Trabalho com taxonomia e classicamente ela sempre foi reduzida a uma disciplina que meramente descreve as espécies a fim de encontrar padrões (morfológicos, moleculares, celulares, químicos) que justifiquem de fato que determinado organismo pertencer à uma espécie. Como os estudos taxonômicos são normalmente de cunho descritivo e não envolvem uma (sofisticada) hipótese nem mesmo uma (sofisticada) pergunta, então os outros cientistas não consideram a taxonomia uma ciência e sim arte ou qualquer outra coisa.
Para muitos que não enxergam as consequencias práticas de desmerecer a taxonomia como ciência, o debate parece infindável e sem sentido.
Se minha descrição do problema aqui foi suficiente, será que a taxonomia poderia ser relacionada a fenomenologia?
E caso a resposta seja positiva, será que daria um texto?
Não estou sugerindo um mote mas uma parceria.