sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Suicídios no CFCH - soluções materiais para problemas existenciais?


A culpa dos sucessivos suicídios em terreno da UFPE é do CFCH, do seu clima e de suas energias? A culpa é, então, do alto cultivo da razão no local? Quem se ilumina demais acaba ofuscado? Conhecereis a verdade e a verdade vos “libertará”? O que tem tornado a sociedade pernambucana mais suicida? É um fato exclusivamente universitário? Uma série de questões não tem sido respondida, sequer as perguntas têm sido razoáveis. O que se vê é muito deboche e estigmatização acerca dos que se vão e dos que ficam. Nada mais canalha do que tratar um tema tão sério com gracejos e anedotas. "Mais um estudante de filosofia que se joga", é a frase tão comum quanto cretina. Então os estudantes resolvem protestar contra um fato que tem se tornado cada vez mais banal. “Gradeamos as varandas de todos os andares da parte traseira do CFCH”, afirma a Reitoria. A sociedade tão egocentrada se preocupa apenas em não continuar se constrangendo com os corpos que explodem constantemente no solo do conhecimento. Logo, a Reitoria tem a obrigação de evitar que essa anomia social continue ocorrendo por lá. “Que se matem na SUDENE!”, é possível ouvir. Protestar contra suicídios é um ato interessante... Que soluções materiais podem ser dadas para problemas existenciais? Que decisões políticas podem desencorajar uma pessoa que não quer mais viver a não se matar? A verdade é una e constrangedoramente simples: deseja-se somente que se matem em outro lugar. Grades? O suicida ao chegar no topo do prédio, observará grades e desistirá imediatamente de uma decisão tão capital? Seguranças? Neurotizar uma prédio inteiro com a presença constante de semi-autoridades? Uma sociedade saudável deveria ter os seus espaços de abandono voluntário da existência: os "suicidários". Mas, entre nós ocidentais, essa é uma possibilidade abominável e absurda. Certos homens desejam prolongar sua vida enquanto devem e não enquanto podem. Eis uma verdade inaceitável dentro de uma sociedade medicalizada, centrada no prolongamento da vida a qualquer custo. A solução é transformar um prédio - no qual a liberdade e a razão deveriam ser os paradigmas dominantes - numa enorme carceragem de grades e vigilância? Ou faz parte de uma decisão racional que a edificação seja hermeticamente protegida? Se a morte fosse um problema metafisicamente dissolúvel, o suicídio não seria sequer um problema.




terça-feira, 27 de setembro de 2011

Só o trabalho dignifica o homem?


Existe um enorme constrangimento social quando um ser humano afirma estar trabalhando pouco ou quase nada. Em suma, quase ninguém tem a audácia de dizer que anda com “nada” para fazer. Durante toda a vida do cidadão, sustenta-se que uma vida digna é aquela cuja cabeça vive ocupada, dedicada constantemente aos afazeres exteriores. Trabalha-se com isso, com aquilo, vende-se feijão, carros são negociados, placas de publicidade são espalhadas pela cidade, colam-se cartazes, graduações são eternamente concluídas (e ai daquele estudante que não vive gritando aos 4 ventos que “VOU ALI ESTUDAR”), eternos cálculos de economistas são concluídos, combate às drogas, venda de cigarros, aluguel de apartamentos, venda de roupas, Consultorias Junior, ad eternum postado no Facebook a cada nova realização para que toda a sociedade ao redor fique sabendo. "Mente vazia é oficina do diabo", repete-se constantemente. Concordo, mas cabeça vazia também pode ser manufatura da razão. O ócio produtivo não é lá grande novidade. Nem os Gregos de hoje em dia conseguem cultivá-lo. Estão mergulhados numa crise, afogados em medidas de austeridade e não há moratória que dê jeito. Quem se pode dedicar ao ócio produtivo se o ócio que dignifica é justamente o improdutivo? Precisamente aquele ócio que descansa a carcaça do trabalhador em sua constante produção. É preciso ter cuidado: ocupar-se apenas com fatos exteriores e mecânicos faz com que o homem se distancie justamente do que mais deveria aproximar-se: o si-mesmo. Se ligue cidadão. A não ser que o dinheiro seja realmente seu único deus, só a auto-análise pode desintoxicar seu espírito marcado por substâncias materiais. Quem me disse isso foi um parceiro antigo. Quer escutá-lo? Fala ai seu Sêneca...

"A condição de todos os ocupados é miserável, contudo o mais miserável é a daqueles que nem se molestam com suas próprias ocupações, que regulam seu sono pelo alheio, que caminham segundo as passadas de outro e que estão sob ordens, mesmo nas mais livres das coisas: amor e ódio. Creia-me, é próprio de um grande homem e de quem se eleva acima dos erros humanos, não consentir que lhe tomem um instante sequer da vida, assim toda sua vida é muito longa, uma vez que se dedicou todo a si próprio, não importa quanto ela tenha durado. [...]Àqueles que tiveram muito tempo da sua vida subtraída pelo povo, ela necessariamente faltou[...]Todos que te reclamam para si te afastam das tuas ocupações. Quantos dias te tomou aquele réu? E aquele candidato? E a velha, já cansada de enterrar herdeiros? E aquele que finge ser doente para excitar a cobiça dos caçadores de testamentos?[...]É tão bom assim morrer ocupado?"




segunda-feira, 26 de setembro de 2011

É possível descolonizar o pensamento?


É possível descolonizar o pensamento? É possível deslogocentrizar as ações da consciência? É possível uma outra racionalidade que não a dos donos do mundo? Há força para suscitar um movimento de tropicalização do pensar que não carregue em si o estigma do lunático comunista universitário? Como evidenciar o puro pensar brasileiro? Como se livrar de um pensamento de enfeite, a “razão ornamental” da qual fala Roberto Gomes?
Os intelectuais imbecis e misólogos, acreditam que não há pensamento por aqui. Como é possível inaugurar uma lógica subdesenvolvida, uma filosofia com cheiro de engenho, um pensamento que seja parecido com o que somos e não com o que devemos ser? Não participamos mais da subjetividade européia, higiênica, de países milenares, que já tiveram sua Idade Média e que hoje bailam numa crise hiperdesenvolvida à custa de sangue africano. Não, nós não somos isto: somos outrem. Com exceção de meia dúzia de sociopatas que odeiam a cultura de massa nacional, que choram lendo Heidegger, Freud, Hegel e outros totalitários e que, por enxergarem o Brasil como uma barca abandonável, se autoexilam, somos a Europa em sua face depauperada. Somos selvagens. Euroandróides cuja parte não robótica esconde nosso verdadeiro pensamento. Primitivos com um poder de criação e pensamento tão elevados que se pode causar sustos e calafrios em colonizadores.
Precisamos de um pensamento que arrazoe o latino, que ajuíze o precário e que seja sutil, mesmo chafurdando na realidade dos tristes trópicos. Um brasileiro niilista é como um europeu na Sapucaí: uma artificialidade burlesca. Que se pense Cuba ao invés da França, que se pense o México ao invés da Alemanha.
Mas e se o problema for genético? Como superar aquilo que se é desde os genes? Não são eles (os europeus) propriamente os nossos pais? Abandonar os clássicos? Como se pode abdicar dos próprios antepassados? São verdades possíveis e necessárias, não se trata desse tipo de ingenuidade. A questão não é negar, nem conservar e muito menos suprassumir nada. Trata-se de rumar por outras vias, vielas, becos, favelas. Num país tão contraditório como o Brasil, quem precisa pensar dialeticamente?
Somos a África, a América e a Europa em síntese: a própria dialética encarnada em mestiçagem. Precisamos ir além das meras apologias, dos bairrismos balizadores, do asco intolerante, do ressentimento inferiorizante e das revoluções de fantasia. É a necessidade de uma ascensão, da desambiguação da nossa verdadeira identidade. Sem dúvidas, devemos nossa racionalidade aos europeus. Mas a nossa infância já se foi, temos agora mais de 500 anos e precisamos viver nossa própria Idade Média.



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Aforismos (28)

Eu queria encaixar alegrias no lugar de prazeres,
por isso "verdadeiras" não passou para o masculino...




terça-feira, 6 de setembro de 2011

Suape ou a micareta industrial


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Quem se recorda do Recifolia, micareta extinta em 2003, sabe que esse acontecimento era pouco saudável para a cidade e ainda menos benquisto entre a maioria dos cidadãos. A passagem virulenta dos blocos destruía tudo e só deixava lucro para políticos e empresários. O cidadão e a cidade permaneciam em desvantagem, afetados e incomodados com tamanha desmedida e despropósito. Analogamente, observamos em Suape uma espécie de micareta industrial. Dos 43 mil funcionários atuais, apenas 8 mil são pernambucanos. Boa parte do que é produzido ali, não necessariamente fica no Estado. Para o porto funcionar, não é sequer necessário que mercado consumidor seja local. Seria mais uma sanguessuga? Além disso, uma ampla área de vegetação entre Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho está sendo suprimida indiscriminadamente. O funcionamento ambiental, o nicho de diversas espécies marinhas e os resquícios dos estuários estão sendo enterrados vivos. Quem passa por Suape, ao menos quem o faz desde o mar, presencia o assassinato de diversas áreas de estuário.



O Recifolia era simplesmente uma festa. Coincidência ou não, o ano de 2011 marca o seu questionável retorno. Suape é um parque, mas não se trata de um parque de diversões. Estamos falando de um parque industrial. Quem tem a oportunidade de visitar o local, fica deslumbrado com o nível de progresso e de promessas para o futuro de Pernambuco e do Brasil. O ufanismo típico do pernambucano é prontamente ativado. Tudo lá, naturalmente, é o “maior da América Latina”. O que existe de mais avançado no mundo da indústria não para de chegar e Pernambuco está prestes a ser lançado no mainstream do capitalismo. Os números impressionam dado que tudo é gigantesco. Logo, deveríamos esquecer esse papo retrógrado de ambientalismo e sustentabilidade e demonstrar orgulho de tamanho empreendimento tão perto de nós, certo? Vamos com calma.



A cena da construção de Suape é aterradora, literalmente. Quem observa toda a estrutura do ponto de vista do mar, sai de lá com um sentimento de tristeza. O que há de dantesco nesse mega empreendimento, é do mesmo tamanho da irresponsabilidade ambiental. Uma fração assustadora da área de mangue está sendo aterrada, destruída, solapada, preterida. Em Suape, a natureza não tem mais a essência da grandiosidade com a qual os povos de outrora se deparavam. O que antes era considerado sagrado, hoje se encontra simplesmente disponível às máquinas e às técnicas. A natureza é doravante mero obstáculo, um empecilho a ser superado. E lá estão as toneladas de areia enterrando os mangues ainda vivos.

Suape não parece cumprir os acordos de compensação ambiental que vêm sendo estampados em seu site oficial. Nós últimos 10 anos, o Porto, que existe desde a década de 70 mas só agora vê a glória chegar com força, já desmatou 365,36 hectares de vegetação nativa. “Suape é a jóia da coroa pernambucana. Uma maravilha logística. Uma poupança do povo de Pernambuco feita por mais de 30 anos, sem interrupção e no lugar certo”, é o que diz Francisco Cunha, sócio da TGI Consultoria. Se Suape é nossa poupança, quem são os Fernandos Collor de Mello que andam a sequestrá-la?

E os moradores?
Além do mais, sabe-se que Suape está trabalhando na retirada dos pescadores da Praia do Paraíso, gente que vive há pelos menos 80 anos no local. Sem contar o prejuízo aos patrimônios históricos, o aumento considerável da violência, fruto da imigração descontrolada e o processo de favelização, o excesso de caminhões nas rodovias e o impacto cultural, como por exemplo o fim da tradicional Festa da Lavadeira.

 A atitude teórica do Desenvolvimento Sustentável é esteticamente muito bonita. Mas o sentimento prático de quem vê a derrocada da já agonizante Mata Atlântica não é nada agradável aos sentidos. 

Que questões podem ser erigidas nesse processo pouco luminoso do desenvolvimento do Estado? Qual o preço do progresso? Os fins justificam os meios? A morte inadvertida de um bioma não é uma questão séria? Organizar politicamente a sociedade pernambucana na fiscalização a expansão de Suape não é viável? O que há de confuso nas mudanças do Código Florestal? Como é possível observar a construção do porto com olhos críticos e não com olhos oportunistamente deslumbrados? A quem favorece a presença de Suape? Quais as futuras consequências de tamanha alteração ambiental? E você, o que tem a ver com isso?

Enquanto o cidadão comum continuar acreditando que sempre faz parte da última geração, o único possível habitat do hommo sapiens continuará sendo degradado, até que a luz vermelha da responsabilidade seja acesa com toda a força. Não é necessário ser ambientalista e nem poeta para sentir-se incomodado com os excessos cometidos contra a natureza. A razão foi distribuída entre todos nós de maneira igual. Observando os arredores, apenas alguns espertos a têm usado em favor próprio, enquanto outros têm suas vistas obscurecidas propositalmente. 

Responsabilidade ambiental e ética da responsabilidade não são propostas poéticas e nem estéticas: são ações visando a preservação do que somos e necessitamos. No fim das contas, trata-se de autoconservação e dignidade humana.