sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O tempo é o tutano da existência


O tempo é o senhor de todas as coisas. Esta é uma frase que surtiu efeito em minha vida, indo muito além dos clichês auto-ajuda. Aos 14 anos me tornei um existencialóide, mas me apercebi apenas aos 23. O que é um existencialóide? O que importa no momento é que o tempo tem um peso e podemos escolher carregá-lo sozinhos ou com a ajuda de outros. Aprendi com Heráclito, um dos úteros da filosofia, que estamos em constante mudança, ou seja, nada é estático. Quem pode duvidar disso? De fato, tudo muda o tempo todo. É possível sentir o tempo, afinal, dele temos uma intuição. Vê-lo também é possível, na medida em que teima em se instalar na matéria, assim como o lodo se sedimenta nos pisos. É impossível esquecer minha mãe folheando álbuns de família, admirando espantada algumas fotos dos anos 80 e se constrangendo com o penteado espalhafatoso e as ombreiras bregas enfiadas nos blazers. Ficava me questionando como é possível alguém se auto-estranhar. Eu sou eu e ninguém nos separa? Constante mudança? As aulas de Física, ciência na qual sempre fui péssimo, me ensinaram categoricamente que uma constante é justamente o que não muda. Ai foi que, ainda na escola, aprendi o que são as metáforas. Logo depois veio Nietzsche, um dos cistos no útero da filosofia, e me disse que somos, de fato, animais metafóricos. Acho que exatamente por isso o velho Heráclito recebeu o codinome de “obscuro”. Acabei entendendo que mudança e duração são geneticamente atracadas. Para mudar, uma coisa precisa durar. Do contrário, uma barra de gelo não derreteria. Para durar, algo precisa mudar. Se não fosse dessa maneira, como teria perdurado tão insistentemente a Igreja Católica no fio da história? O tempo é o tutano da existência. 

Trecho do livro em construção Da existência ao existencialóide.