sexta-feira, 2 de novembro de 2012

"Morremos na morte de outrem" (Evaldo Coutinho)

Morremos na morte de outrem
Falecido em 2007 no Recife, Evaldo Coutinho, um dos únicos filósofos brasileiros no sentido genuíno do termo, erigiu um pensamento interpessoal acerca da morte e da finitude. Arquiteto, esteta, advogado e membro da Academia Pernambucana de Letras, deixou nove obras oficiais que sustentam um sistema filosófico que mescla filosofia, arte, estética, arquitetura e cinema. Trabalhou uma fenomenologia com sentimento brasileiro, com aroma de Engenho, com visual de arquitetura Neocolonial e com sensação de pontes sobre rios. A tanatologia nesse pensador é social e ao mesmo tempo ensimesmada. Um homem velho, se pode depreender, tendo conhecido diversas outras pessoas, leva consigo ao morrer todas as lembranças e as vivências que possuía junto aos outros no mundo. Suponhamos que eu tenha morrido em 2008. Se de lá para cá todos que me conhecem tivessem morrido, eu cairia no esquecimento total, aniquilado não só na biologia, mas na existência real não-efetiva que ainda sou. Todos estão morrendo nas mortes de outrem. Enquanto o outro vive – e foi conosco no mundo – tem a capacidade de suster minha presença como alguém ausente. Assim acontece com alguém que acaba de me conhecer. Eis que neste acontecer possuo mais uma testemunha da minha existência. Na morte do Eu tudo quanto é “existenciamento” adquirido desaba junto. Nesse sentido, a ideia de “morrer mil mortes” faz grande sentido. Estamos morrendo diariamente na morte dos que nos conhecem. Nossa extinção nunca é meramente biológica, somos levados por outrem em sua passagem. Anuncia-se ai o início de uma reconstituição de testemunhos e da vida de quem se foi. A possibilidade de uma biografia se realiza justamente nos relatos e depoimentos de quem susteve a vida de outrem ao seu redor. Se fosse possível que todas as pessoas que conhecem um indivíduo – e testemunharam sua vida até então – desaparecem repentinamente, o sujeito teria uma identidade nadificada. Precisaria construir outras relações com novas testemunhas. Seria necessário recomeçar.

Em O lugar de todos os lugares, Coutinho ajuíza:

Quando morre alguém, à sua morte sou levado em conjunção com essa obscuridade nele, fisionomicamente diluído nela, negando-me a mim no seio desse perecimento, extinto comigo todo meu repertório, o ponto intestemunhável desse alguém [...] Em outras palavras, o meu repertório enquanto se me apega, some-se no falecimento de outrem, e tanto mais densamente quando esse outrem o conhecia em grande parte. [...] sobrevindo a morte no campo das testemunhas se faz perecer em toda integridade, tantas vezes quantas são as mortes. Neste sentido, a pessoa se afigura o centro num jogo de apareceres e desapareceres de si própria [...] A acumulação de mortes no curso de testemunhada existência, significa, paradoxalmente, a destinação com que todos se afetam no esforço de prolongar a dita existência.

Já em Ser e estar em nós, afirma:

Antes que chegue o momento de se apagar a nossa luz, nascemos e morremos à medida que penetramos no álbum de outrem e nele nos perdemos por extinção do volume repleto de tantos retratos; essas existências diminutas de nós mesmos, não são mais do que modalidades que se condicionam ao nosso ato de ser, cujas decorrências serão interrompidas com a nossa morte.







domingo, 28 de outubro de 2012

Elucubrações precoces ou A Crítica da Razão Espermatosófica

A espécie lhe controla. Se esvazie e pense. 

Elucubrações precoces ou A Crítica da Razão Espermatosófica.
O verdadeiro uso da razão - os pensamentos mais puros e límpidos que têm os homens, no sentido masculino do termo - acontece no período entre a ejaculação e o reinício da espermatogênese. A maior parte do que é pensado fora desse curtíssimo intervalo de tempo vem da vesícula seminal, a nossa escravidão volitiva. A glória constante do instinto sobre a razão. 





segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O eleitor Walking Dead e o Sistema Proporcional


Eis uma nova categoria de animal político: o eleitor Walking Dead. Como assim? Explico. Boa parte dos eleitores brasileiros opera como zumbis: correm inconscientemente atrás da cabeça dos outros. Terminadas as eleições, iniciam-se os lamentos. Perguntas que deveriam ter sido suscitadas há quatro anos (ou mais), teimam em aparecer apenas após o pleito eleitoral. Por que um vereador é mais votado do que todos os outros e mesmo assim não entra? Sofistique a pergunta e demande onde está a calda eleitoral da chapa que o cidadão supervotado se afiliou. Por que o ficha suja ou aquele que aumentou o próprio salário foi reeleito? Melhore a pergunta e questione em que chapa estava escondido o antigo ladrão. Esse sistema, que esfacela gente como Edilson Silva do PSOL (vereador pelo Recife, conseguiu 13.661 votos individuais), foi suscitado para evitar que partidos menores sejam 100% obliterados. Mesmo assim, há cabeças de chave que são honestos, tem vocação política e são preteridos. Infelizmente, não foi no Brasil que inventaram o Sistema Proporcional assentado na distribuição das sobras. Reclamar agora, após tantas décadas de utilização, não vai ajudar. O ideal é pensar acerca e, aos contrariados, iniciar a fomentação de um debate que leve, talvez, à uma ideia de plebiscito que repense o proporcional e reorganize o majoritário. O 1° dever do cidadão é obedecer as leis. O 1° direito é participar da elaboração dessas mesmas leis, votando como sábio e não como um zumbi. É tarde demais para soluções de última hora. 



domingo, 18 de março de 2012

Homenagem ao Dia do Fã #diadofã



18 de março é considerado o dia do fã. Em cada um de nós dormita um pouco de fanatismo. Em uns se manifesta levemente, em outros leva à demência. Para comemorar a data com extrema classe, indico a leitura do texto Genealogia do fanatismo de Emil Cioran, que pode ser encontrado em sua obra Breviário de Decomposição. Boa leitura.

“Em si mesma toda ideia é neutra ou deveria sê-lo, mas o homem a anima, projeta nela suas paixões e suas demências; impura, transformada em crença, se insere no tempo, adota a forma de acontecimento: o passo da lógica para a epilepsia está consumado… Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas.
Idólatras por instinto tornam incondicionados os objetos de nossos sonhos e de nossos interesses. A história não é mais do que um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos em honra de pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. Mesmo quando se afasta da religião, o homem permanece sujeito a ela; consumindo-se em forjar simulacros de deuses, os adota depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre a evidência e o ridículo. Sua capacidade de adorar é responsável por todos os seus crimes: ele que ama indevidamente a um deus obriga os outros a amá-lo, planejando exterminá-los se recusam.
Não há intolerância, intransigência ideológica ou proselitismo que não revelem o fundo bestial do entusiasmo. Que perca o homem sua faculdade de indiferença: converte-se num potencial assassino; que transforme sua ideia em deus: as consequências são incalculáveis. Nunca se mata tanto quanto se mata em nome de um deus ou de seus sucedâneos: os excessos suscitados pela deusa Razão, pela ideia de nação, de classe ou de raça são semelhantes aos da Inquisição ou da Reforma. As épocas de fervor se sobressaem nas façanhas sanguinárias: Santa Tereza não podia deixar de ser contemporânea dos autos de fé e Lutero da matança dos camponeses. Nas crises místicas, os gemidos das vítimas são paralelos dos gemidos de êxtase…
Patíbulos, calabouços e masmorras nunca prosperam tanto quanto à sombra de uma fé, dessa necessidade de crer que tem infestado os espíritos para sempre. O diabo empalidece junto a quem dispõe de uma verdade, de sua verdade. Somos injustos com os Neros ou os Tibérios: eles não inventaram o conceito de herético: não foram senão sonhadores degenerados que se divertiam com as matanças. Os verdadeiros criminosos são os que estabelecem uma ortodoxia sobre o plano religioso ou político, os que distinguem entre o fiel e o cismático.
Enquanto nos recusarmos a admitir o caráter intercambiável das ideias, o sangue corre…
Debaixo das resoluções firmes se ergue um punhal; os olhos inflamados pressagiam o crime. Jamais o espírito da dúvida, afligido pelo hamletismo, foi pernicioso: o princípio do mal reside na tensão da vontade, na inépcia para o sossego, na megalomania prometeica de uma espécie que reinventa o ideal, que arrebenta debaixo de suas convicções e a qual, por haver-se comprazido em depreciar a dúvida e a preguiça — vícios mais nobres do que todas as virtudes —, se embrenhou num caminho de perdição, na História, nessa mescla indecente de banalidade e apocalipse… Ela está plena de certezas: suprime-as e suprimireis sobretudo as suas consequências: reconstituireis o paraíso.
O que é a Queda senão a busca de uma verdade e a certeza de havê-la encontrado, a paixão por um dogma, o estabelecimento de um dogma? Disso resulta o fanatismo — tara capital que dá ao homem o gosto pela eficácia, pela profecia e pelo terror —, lepra lírica que contamina as almas, as submete, as tritura e as exalta…
Só escapam os céticos (ou os preguiçosos e os estetas), porque não propõem nada, porque — verdadeiros benfeitores da humanidade — destroem os preconceitos e analisam o delírio. Sinto-me mais seguro junto a um Pirro do que junto a um São Paulo, porque um saber de anedotas é mais doce do que uma santidade desenfreada. Em um espírito ardente encontramos a ave de rapina disfarçada; não poderíamos nos defender com êxito das garras de um profeta… Quando eleva a voz, seja em nome do céu, da cidade ou de outros pretextos, afastai-vos dele: Sátiro de vossa solidão, não os perdoa o viver sem as suas verdades e seus arrebatamentos; quer fazê-los compartilhar de sua histeria, do seu bem, impô-lo a nós e desfigurar-nos. Um ser possuído por uma crença e que não buscasse comunicá-la a outros é um fenômeno estranho ao mundo, donde a obsessão pela salvação torna a vida irrespirável.
Olhem em torno de vós: Por toda parte vermes que predicam; cada instituição traz uma missão; os povoamentos têm seu absoluto como templos; a administração com os seus regulamentos: metafísica para uso de macacos… Todos se esforçam por remediar a vida de todos: aspiram a isto até os mendigos, inclusive os incuráveis; as calçadas do mundo e os hospitais estão cheios de reformadores. A ânsia de chegar a ser fonte de acontecimentos atua sobre cada um como uma desordem mental ou uma maldição livremente escolhida. A sociedade é um inferno de salvadores. O que buscava Diógenes com sua lanterna era um indiferente…
Basta que eu escute alguém falar sinceramente de ideal, futuro, de filosofia, escutá-lo dizer “nós” com uma inflexão de segurança, convocar os “outros” e sentir-se seu intérprete, para que o considere meu inimigo. Vejo nele um tirano falido, quase um verdugo, tão odioso como os tiranos e verdugos de grande classe. É que toda fé exerce uma forma de terror, tanto mais temível quando os “puros” são os seus agentes.
Suspeita-se dos ladinos, dos velhacos, dos trapaceiros, entretanto, não saberíamos imputar-lhes nenhuma das grandes convulsões da história; não acreditando em nada, não espionam vossos corações, nem vossos pensamentos mais íntimos; os abandonam a vossa acomodação, o vosso desespero ou a vossa inutilidade; a humanidade lhes deve os poucos momentos de prosperidade que tem conhecido; são eles os que salvam os povos que os fanáticos torturam e os “idealistas” arruínam. Sem doutrinas, não têm mais do que caprichos e interesses, vícios acomodatícios, mil vezes mais suportáveis do que o despotismo dos princípios; porque todos os males da vida vêm de uma “concepção de vida”. Um homem político educado deveria aprofundar-se nos sofistas antigos e tomar lições de canto; e de corrupção.
O fanático é incorruptível: assim como mata por uma ideia, pode igualmente morrer por ela; nos dois casos, tirano ou mártir, é um monstro. Não há seres mais perigosos que os que sofreram por uma crença: os grandes perseguidores se recrutam entre os mártires aos quais não se cortou a cabeça. Longe de diminuir o apetite pelo poder, o sofrimento o exaspera: por isso o espírito se sente mais a gosto na companhia de um fanfarrão do que de um mártir; e nada lhe repugna tanto como esse espetáculo no qual se morre por uma ideia. Farto do sublime e de carnificinas sonha com um tédio provinciano a escala universal, com uma História cujo estancamento seria tal que a dúvida se apresentaria como um acontecimento e a esperança como uma calamidade."



De como o homem do anno 2.000 será o espectador da guerra actual

Em 1919, Carlos Malheiros Dias (1875 - 1941), um jornalista e historiador português, sucessor de Eça de Queiroz na ABL, publica um livro cujo título é A esperança e a Morte. Em um dos capítulos, numa tentativa de predizer o futuro, ele ressalta a incapacidade dos seus contemporâneos - ou de qualquer agente da História - de enxergar as reais consequências das metamorfoses que acontecem ao vivo. No caso específico, trata-se da recém terminada Primeira Guerra Mundial. Acompanhe abaixo, no texto original de 1919, o capítulo De como o homem do anno 2.000 será o espectador da guerra actual:













sexta-feira, 16 de março de 2012

Da pendularidade do tempo



O presente é possível na medida em que é sustentado pela energia do que já foi e pela atração do que será. O passado simplesmente não passou, está aqui, agora, fixando sua presença a cada momento. Quanto mais futuro existenciamos, mais passado compreendemos e vivenciamos. Quanto mais velhos, mais emotivos tornamo-nos. O que é a nostalgia? É fazer vigorar com toda força no agora o que já foi. O presente é o repositório das outras “duas” instâncias de tempo. Logo, quanto mais futuro, mais passado. O passado e o futuro são agora. O tempo apenas é linear nos relógios e na cronologia historiográfica. Existencialmente, é pendular. O tempo se temporaliza através da interpenetração entre todas as instâncias de tempo. Sem essas condições, como se poderia sustentar a ideia de que choques do passado (traumas) podem nos impactar atualmente? 



sábado, 25 de fevereiro de 2012

Tudo para o olho! Os filósofos cheiram e lambem?


Costuma-se considerar válido que, na ciência, todo manejo se acha apenas a serviço da pura observação, da descoberta e abertura investigadoras das ‘coisas elas mesmas’. Tomado no sentido amplo, o ‘ver’ regula todos os ‘dispositivos’, conservando a primazia. (Heidegger, Ser e Tempo)

Na análise acima, de um dos mais famosos alemães da filosofia, se confirma que na Gnosiologia, ou teoria do conhecimento, cânone imortal da tradição filosófica, a visão domina a apreensão do mundo. O ver e o ouvir, sem exagero, preponderam sobre o lamber e o cheirar. Não se encontra comumente um filosofar sobre o paladar e o olfato. Não de maneira estritamente filosófica. Acompanhe o pai da ciência:

Todos os homens, por natureza, tendem ao saber. Sinal disso é o amor pelas sensações. De fato, eles amam as sensações por si mesmas, independentemente da sua utilidade e amam, acima de todas, a sensação da visão. Com efeito, não só em vista da ação, mas mesmo sem ter nenhuma intenção de agir, nós preferimos o ver, em certo sentido, a todas as outras sensações. E o motivo está no fato de que a visão nos proporciona mais conhecimento do que todas as outras sensações e nos torna manifestas numerosas diferenças entre as coisas. (Metafísica, A, 980ª – 25)

As tradicionais teorias estéticas da história da filosofia estariam arruinadas se o sentido da visão fosse recortado da trama gnosiológica. Existem motivos (além dos óbvios) para que a visão sustente tamanha primazia? Não seriam justamente o olfato e o paladar os sentidos mais animalizados do homem? E não seria a animalidade uma das categorias nas quais o ser humano sempre manteve mais conflitos e crises morais? Michel Onfray nos dá uma boa dica:

Pois a desconsideração ou o esquecimento do nariz na história da filosofia merecem um estudo por si sós! Seria inútil procurar reflexões, mesmo que modestas, ou análises dignas desse nome concernentes aos cheiros, aos perfumes, aos aromas nas obras de filosofia dedicadas ao julgamento do paladar, à estética, à análise dos sentimentos, emoções ou percepções artísticas. Tudo  para o olho! E uma complacência igualmente para com a orelha, pois esses dois órgãos colocam o mundo a distância, ao contrário do paladar, do tato e do olfato, que supõem a carne e o corpo em sua totalidade. (Contra História da Filosofia, Vol. I)

Você já se deu conta de que a imagem dos grandes filósofos sempre foi trabalhada de maneira ideal, de modo que se tornem ídolos forjados conceitualmente? Parece-nos que não há carne, sensações comuns, que não vomitam, que não ficam bêbados ou defecam. Há pensadores, caso clássico é Karl Marx, cujo séquito não suporta que o deus comunista seja maculado. Sobre isso, o pensador romeno Emil Cioran sustenta uma posição pouco carinhosa.

Afastei-me da filosofia no momento em que se tornou impossível para mim descobrir em Kant alguma fraqueza humana, algum acento de verdadeira tristeza: em Kant e em todos os filósofos. Comparada à música, à mística e à poesia, a atividade filosófica provém de uma seiva diminuída e de uma profundidade suspeita, que guardam prestígios somente para os tímidos e os tíbios. Aliás, a filosofia – inquietude pessoal, refúgio nas ideias anêmicas – é o recurso de todos que se esquivam à exuberância corruptora da vida. (Breviário de Decomposição)  

Se um dia você afirmou que na sua vida a filosofia “nem fede, nem cheira”, sua alegação não estava de todo errada.   









sábado, 11 de fevereiro de 2012

Filósofos cidadãos: ensinando justiça no Brasil


Filósofos cidadãos
Ensinando justiça no Brasil
Retirado do Boston Review.

Carlos Fraenkel
Tradução de Raphael Douglas 


Sair da caverna e ver as coisas como elas realmente são: isso é o que é a filosofia segundo Almira Ribeiro. Ribeiro ensina filosofia numa escola em Itapuã, um lindo, pobre e violento bairro da periferia de Salvador, capital do estado da Bahia no nordeste do Brasil. Ela é a pessoa mais filosófica que eu já conheci.
 Mais de quatro milhões de escravos trazidos da África ao Brasil foram vendidos em Salvador, a primeira residência dos governantes coloniais portugueses. É ainda a cidade mais negra do Brasil. No bairro de Ribeiro, crianças jogam bola ou fazem capoeira, rezam em igrejas pentecostais ou adoram deuses africanos. Muitos estão envolvidos com drogas, “todo ano perdemos estudantes para o crack,” ela me disse. E eles estudam filosofia duas horas por semana dado que uma lei de 2008 decretou que escolas no Brasil devem ter instrução filosófica. Nove milhões de jovens têm agora aulas de filosofia durante três anos.
 “Mas ver as coisas como ela realmente são não é o suficiente”, insiste Ribeiro. Como na parábola de Platão na República, os estudantes devem voltar da caverna e aplicar o que aprenderam. Suas vidas lhes oferecem ricas oportunidades para esse tipo de aplicação. O contraste entre os novos hotéis de luxo ao longo da praia e das ruas engarrafadas de Itapuã, faz surgir questões sobre igualdade e justiça. Crianças chutando uma lata podem introduzir uma discussão sobre democracia: o futebol é uma das poucas práticas realmente democráticas por aqui; o sucesso depende do mérito e não do privilégio de classe. Movendo-se entre filosofia e prática, os estudantes podem rever suas visões à luz de Platão, Hobbes, ou ao que Locke tinha a dizer acerca da igualdade, justiça e democracia e discutirem, eles mesmos, seus papéis como agentes políticos.
Para promover essa discussão, Ribeiro tem que tomar um profundo derrotismo político. Votar no Brasil é obrigatório, mas muitos pensam que é inútil. Em 2010, a maioria dos votos para um único membro do congresso foi para Tiririca, um palhaço popular que sustentava o slogan, “eu não sei o que um deputado faz, mas vote em mim e eu te digo”. João Belmiro, outro professor de filosofia, acha isso escandaloso. A filosofia, segundo sua visão, trará mudanças em breve.
“Existem outras formas de participação política”, diz ribeiro aos seus alunos. Ela lhes dá o número de telefone da prefeitura para que reclamem acerca de infra-estrutura e lhes pede para encontrarem algo nas suas ruas que querem consertar. Quando um estudante liga, nada acontece. Mas quando quinze o fazem, a cidade reage. “Você vê aquele buraco?”, ela me pergunta. “Foi fechado. E a iluminação da rua? Foi posta. Graças a nossas aulas de filosofia... Os políticos não podem deixar descontentes os cidadãos que votarão neles numa próxima eleição.” Na mesma intenção, ela está neste momento organizando uma associação de professores de filosofia. Uma questão urgente é encontrar pessoal qualificado. Outro projeto é melhorar a relação com o departamento de filosofia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o centro acadêmico da região. A maioria dos professores que conheço se queixam de que os filósofos acadêmicos ou os ignoram ou os olham por cima.
Isso não é uma surpresa considerando que a lei de 2008 é, acima de tudo, um projeto político. Em 1971 a ditadura militar que governou o Brasil de 1964 até 1985 eliminou a filosofia das escolas. Professores de escolas, catedráticos dos departamentos de educação e ativistas políticos defenderam seu retorno, enquanto a maioria dos filósofos acadêmicos era indiferente ou suspeita. A ditadura parece ter compreendido o potencial da filosofia para criar cidadãos engajados; isso substituiu a filosofia por um curso sobre Educação Moral e Cívica e outro sobre Organização Social e Política do Brasil (“para inculcar boas maneiras e valores patrióticos e para justificar a ordem política dos generais”, um colega da UFBA relembra seus tempos de colégio).
A justificativa oficial para a lei de 2008 é que a filosofia "é necessária para o exercício da cidadania." A lei – a maior tentativa do mundo de trazer a filosofia para esfera pública – representa, portanto, um experimento democrático. Pelo menos entre os professores, muitos compartilham da visão de Ribeiro de que a filosofia vai fornecer um caminho para uma maior participação cívica e da igualdade. Pode-se fazer ainda mais? Pode-se ensinar os alunos a questionar e desafiar os fundamentos da própria sociedade?
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