domingo, 18 de março de 2012

Homenagem ao Dia do Fã #diadofã



18 de março é considerado o dia do fã. Em cada um de nós dormita um pouco de fanatismo. Em uns se manifesta levemente, em outros leva à demência. Para comemorar a data com extrema classe, indico a leitura do texto Genealogia do fanatismo de Emil Cioran, que pode ser encontrado em sua obra Breviário de Decomposição. Boa leitura.

“Em si mesma toda ideia é neutra ou deveria sê-lo, mas o homem a anima, projeta nela suas paixões e suas demências; impura, transformada em crença, se insere no tempo, adota a forma de acontecimento: o passo da lógica para a epilepsia está consumado… Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas.
Idólatras por instinto tornam incondicionados os objetos de nossos sonhos e de nossos interesses. A história não é mais do que um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos em honra de pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. Mesmo quando se afasta da religião, o homem permanece sujeito a ela; consumindo-se em forjar simulacros de deuses, os adota depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre a evidência e o ridículo. Sua capacidade de adorar é responsável por todos os seus crimes: ele que ama indevidamente a um deus obriga os outros a amá-lo, planejando exterminá-los se recusam.
Não há intolerância, intransigência ideológica ou proselitismo que não revelem o fundo bestial do entusiasmo. Que perca o homem sua faculdade de indiferença: converte-se num potencial assassino; que transforme sua ideia em deus: as consequências são incalculáveis. Nunca se mata tanto quanto se mata em nome de um deus ou de seus sucedâneos: os excessos suscitados pela deusa Razão, pela ideia de nação, de classe ou de raça são semelhantes aos da Inquisição ou da Reforma. As épocas de fervor se sobressaem nas façanhas sanguinárias: Santa Tereza não podia deixar de ser contemporânea dos autos de fé e Lutero da matança dos camponeses. Nas crises místicas, os gemidos das vítimas são paralelos dos gemidos de êxtase…
Patíbulos, calabouços e masmorras nunca prosperam tanto quanto à sombra de uma fé, dessa necessidade de crer que tem infestado os espíritos para sempre. O diabo empalidece junto a quem dispõe de uma verdade, de sua verdade. Somos injustos com os Neros ou os Tibérios: eles não inventaram o conceito de herético: não foram senão sonhadores degenerados que se divertiam com as matanças. Os verdadeiros criminosos são os que estabelecem uma ortodoxia sobre o plano religioso ou político, os que distinguem entre o fiel e o cismático.
Enquanto nos recusarmos a admitir o caráter intercambiável das ideias, o sangue corre…
Debaixo das resoluções firmes se ergue um punhal; os olhos inflamados pressagiam o crime. Jamais o espírito da dúvida, afligido pelo hamletismo, foi pernicioso: o princípio do mal reside na tensão da vontade, na inépcia para o sossego, na megalomania prometeica de uma espécie que reinventa o ideal, que arrebenta debaixo de suas convicções e a qual, por haver-se comprazido em depreciar a dúvida e a preguiça — vícios mais nobres do que todas as virtudes —, se embrenhou num caminho de perdição, na História, nessa mescla indecente de banalidade e apocalipse… Ela está plena de certezas: suprime-as e suprimireis sobretudo as suas consequências: reconstituireis o paraíso.
O que é a Queda senão a busca de uma verdade e a certeza de havê-la encontrado, a paixão por um dogma, o estabelecimento de um dogma? Disso resulta o fanatismo — tara capital que dá ao homem o gosto pela eficácia, pela profecia e pelo terror —, lepra lírica que contamina as almas, as submete, as tritura e as exalta…
Só escapam os céticos (ou os preguiçosos e os estetas), porque não propõem nada, porque — verdadeiros benfeitores da humanidade — destroem os preconceitos e analisam o delírio. Sinto-me mais seguro junto a um Pirro do que junto a um São Paulo, porque um saber de anedotas é mais doce do que uma santidade desenfreada. Em um espírito ardente encontramos a ave de rapina disfarçada; não poderíamos nos defender com êxito das garras de um profeta… Quando eleva a voz, seja em nome do céu, da cidade ou de outros pretextos, afastai-vos dele: Sátiro de vossa solidão, não os perdoa o viver sem as suas verdades e seus arrebatamentos; quer fazê-los compartilhar de sua histeria, do seu bem, impô-lo a nós e desfigurar-nos. Um ser possuído por uma crença e que não buscasse comunicá-la a outros é um fenômeno estranho ao mundo, donde a obsessão pela salvação torna a vida irrespirável.
Olhem em torno de vós: Por toda parte vermes que predicam; cada instituição traz uma missão; os povoamentos têm seu absoluto como templos; a administração com os seus regulamentos: metafísica para uso de macacos… Todos se esforçam por remediar a vida de todos: aspiram a isto até os mendigos, inclusive os incuráveis; as calçadas do mundo e os hospitais estão cheios de reformadores. A ânsia de chegar a ser fonte de acontecimentos atua sobre cada um como uma desordem mental ou uma maldição livremente escolhida. A sociedade é um inferno de salvadores. O que buscava Diógenes com sua lanterna era um indiferente…
Basta que eu escute alguém falar sinceramente de ideal, futuro, de filosofia, escutá-lo dizer “nós” com uma inflexão de segurança, convocar os “outros” e sentir-se seu intérprete, para que o considere meu inimigo. Vejo nele um tirano falido, quase um verdugo, tão odioso como os tiranos e verdugos de grande classe. É que toda fé exerce uma forma de terror, tanto mais temível quando os “puros” são os seus agentes.
Suspeita-se dos ladinos, dos velhacos, dos trapaceiros, entretanto, não saberíamos imputar-lhes nenhuma das grandes convulsões da história; não acreditando em nada, não espionam vossos corações, nem vossos pensamentos mais íntimos; os abandonam a vossa acomodação, o vosso desespero ou a vossa inutilidade; a humanidade lhes deve os poucos momentos de prosperidade que tem conhecido; são eles os que salvam os povos que os fanáticos torturam e os “idealistas” arruínam. Sem doutrinas, não têm mais do que caprichos e interesses, vícios acomodatícios, mil vezes mais suportáveis do que o despotismo dos princípios; porque todos os males da vida vêm de uma “concepção de vida”. Um homem político educado deveria aprofundar-se nos sofistas antigos e tomar lições de canto; e de corrupção.
O fanático é incorruptível: assim como mata por uma ideia, pode igualmente morrer por ela; nos dois casos, tirano ou mártir, é um monstro. Não há seres mais perigosos que os que sofreram por uma crença: os grandes perseguidores se recrutam entre os mártires aos quais não se cortou a cabeça. Longe de diminuir o apetite pelo poder, o sofrimento o exaspera: por isso o espírito se sente mais a gosto na companhia de um fanfarrão do que de um mártir; e nada lhe repugna tanto como esse espetáculo no qual se morre por uma ideia. Farto do sublime e de carnificinas sonha com um tédio provinciano a escala universal, com uma História cujo estancamento seria tal que a dúvida se apresentaria como um acontecimento e a esperança como uma calamidade."



2 comentários:

Cleciopegasus disse...

Parte 1: É difícil me contrapor ao pensamento de Emil Cioran. À medida que o leio, sinto como se minhas palavras e meus silêncios tivessem sido abortados antes mesmo da fecundação. Fernando Pessoa redime o ridículo, concedendo-lhe indulgência em forma de amor. Cioran, mesmo sendo avesso a tudo que religião respira, não consegue fugir da função de inquisidor, condenando à “morte” todos os que não comungam de sua crença na impossibilidade da comunhão.

Tentativas de fugir da solidão existencial se tornam, no discurso dele, uma forma de as pessoas se forçarem umas as outras a compartilharem a opressão que as sufoca. Nesta perspectiva, o consenso se torna a vitória do vírus devastador da verdade, que ergueria seu trono perante uma multidão sem fim de mortos-vivos para os quais o privilégio da dúvida deixa de ser possível.

Edificantes são as palavras de Cioran quando expõem a tirania e a miséria que habitam dissimuladamente o coração de valores como a fé e a verdade. Ele consegue detectar como pode ser tomado pela lepra o lirismo presente em sentimentos que costumamos interpretar como o bem absoluto. Se bem que fica até difícil fazer um elogio a este filósofo, visto que considerar suas palavras edificantes significaria, sob o olhar dele, transformar estas palavras em monumentos ao terror e ao estupro do direito de duvidar.

Além disso, será sempre difícil ser sincero com Cioran porque ele considerará um inimigo todo aquele que falar perto dele sobre sinceridade, ideal ou futuro.

Continua...

Cleciopegasus disse...

Parte 2:
A verdade, os ideais, a fé. Esta tríade, para Cioran, roubou do ser humano o direito de se deixar profanar pela dúvida, pela preguiça e de se guiar pela lanterna da indiferença e do cinismo, passando adiante a tocha carregada pelo filósofo Diógenes.

Mas, Cioran leva tão a ferro e fogo estes sentimentos, como se neles se escondesse, pelos séculos dos séculos, uma conspiração para dominar o mundo. Ele encara os sentimentos que aspiram à transcendência como atentados violentíssimos ao despudor ou como colonizadores que querem fazer caber a pulso o latifúndio da eternidade no microcosmo da subjetividade.

Para ele, os mártires são fascistas que, por obra e graça do destino, tiveram seus pescoços cortados. Mas, os mártires não foram, muitas vezes, pessoas que escolheram acreditar que a liberdade de expressão do indivíduo era mais importante que manter a cabeça no lugar às custas do respeito à violência institucionalizada que força cultura, convenção e espírito a serem partes integrantes de um amálgama?

Diante das ideias desconcertantes (talvez esse elogio agradasse minimamente Cioran) deste pensador, resta terminar o texto não com argumentos, mas com perguntas.

Só é possível fazer parte da existência dos outros como terrorista que, nas escoras da pressão e do totalitarismo, funda os alicerces de sua influência?

A eterna dúvida não seria também um tipo de êxtase fanático que nos assalta? O que torna tão certa a ideia de que o êxtase e o delírio são privilégios da busca pela verdade e que a dúvida é abrigo da liberdade e da ponderação?

Valores incondicionais seriam sempre imposturas de seres corruptos incapazes de enxergar a própria cegueira e dispostos a alastrar a tirania da verdade como um tipo de versão nostálgica da peste negra?

A incondicionalidade, além do sentido que Cioran lhe atribui, não poderia ser encarada como um “estar de passagem”? Explico-me. O amor incondicional, por exemplo, aquele que ama sem exigir nada em troca. Impossível, de fato. Afinal, tudo exigiria algo em troca... Esta é a lógica implícita ao pensamento de Cioran: é impossível caminhar nas terras do outro sem deste outro exigir algo em troca. Porém, penso eu – e talvez esteja minimamente certo – se não fossem os gestos de amor incondicional, por mais diluídos e inevidentes que sejam, até mesmo os semáforos seriam inúteis. Aliás, todos os sinais seriam inúteis.

A lei e o terror não teriam força, por si sós, de fazer os sinais operarem corretamente. Em parte, os sinais são obedecidos (em parte são coação). Mas, em uma parte consideravelmente maior, são amor incondicional. É isso que torna possível a pessoas, independentemente de se conhecerem, optarem por se render ou não aos sinais.

Não atravessar o sinal vermelho pode ser cumprir uma obrigação, mas também é uma forma de amar incondicional e anonimamente alguém que, muito talvez, não veremos mais. Da mesma forma, o amor incondicional pode ser entendido menos do que ausência de condições e mais como o questionamento das condições.

Nesse sentido, é simples compreender o gesto de fazer o bem sem esperar algo em troca. Não esperar algo em troca significa menos um altruísmo ingênuo e desinteressado do que uma forma de expressar a indiferença aos condicionamentos vigentes ou, quem sabe, um modo de guardar memórias do tipo “além de mim mesmo” para no futuro ser capaz de, na senda de Epicuro, desintoxicar-se do "si mesmo" quando o “si mesmo” for uma grande dor (coisa que acontece com certa frequência para quem leva minimamente a sério os espelhos espalhados nos labirintos da existência).