segunda-feira, 1 de abril de 2013

A (con)fusão entre o público e o privado nas redes sociais



Não é novidade que vivenciamos uma era majoritariamente individualista. Vivemos uma situação histórica na qual o cuidado de si, o autocentramento e a egoidade regem o comportamento dos sujeitos. Como afirma acertadamente Nelson Saldanha, deixamos de ser cidadãos da praça e nos transformamos em indivíduos do jardim[1]. Ou seja, a esfera privada não só se projetou por sobre a esfera pública, como se (con)fundiu com esta última. Você é o que você compartilha, assegura Gil Giardelli[2], especialista em sociedades em rede. Esse gigantesco afluxo de informações - tanto públicas quanto privadas - começa a demandar um novo modus operandi social. Isso se deve ao fato de que o que é de caráter privado se publiciza e o que deveria estar em domínio público se privatiza. Você que começa a ler esse ensaio tem uma grande chance de ser usuário de alguma rede social e sabe de antemão do que estamos falando. Quantas horas por dia você gasta nesse tipo de ambiente? Com quantas pessoas você se comunica exclusivamente pelas redes? Já conseguiu algum emprego através delas? Já foi desligado de algum trabalho por emitir opiniões inadequadas? Criou algum laço afetivo? Ou, ao contrário, teve um relacionamento destruído? Nos últimos anos, temos testemunhado um verdadeiro apogeu das redes sociais. Ainda muito recentemente, o fenômeno tinha pouco alcance. Rede social, um conceito lá não muito novo, existe desde que o homem abandonou o estado de natureza e passou a habitar socialmente. Família, amigos, comunidade, escola, faculdade, trabalho, ou seja, todas as redes que são evidentes desde sempre - e que sempre tiveram clara a fronteira entre os costumes públicos e os privados – plasmaram-se em convívio virtual, provocando uma confusa e perigosa combinação. Como antecipou Eric Hobsbawm, historiador britânico, a internet transformou tudo e tem apenas 17 anos de existência. As redes sociais online se transformaram em um elemento relacional muito importante para algumas pessoas, o que as leva a ir muito além da escrita de mensagens ou a realizarem uploads de conteúdos simples. Doravante, se converteram em complexas organizações de comunicação, de movimentações coletivas, de publicidade e propaganda, de empregabilidade, de política, de educação, de gestão, de diversão e, não podemos esquecer, de intrigas éticas. Muitas empresas e centrais de informação passaram a depender destas ferramentas.

Nas Redes, o público e o privado vêm sofrendo perigosa fusão.

A vida social de milhões de pessoas se faz pautar pelas tendências que se sucedem em meio às timelines. Crises éticas, escândalos morais, tensões relacionais, desocultação de segredos, conflitos trabalhistas e quiproquós em geral encontram terreno fértil nas redes. Abalos conjugais aumentam devido à condutas pouco devotadas no Facebook e um número considerável de demissões têm origem nas animosidades criadas entre empregados e empregadores nos ambientes virtuais. Em suma, muitas das funcionalidades oferecidas por essas redes têm caráter útil e benéfico. Entretanto, onde há luz avizinha-se o obscuro. Não se trata mais de simples entretenimento. As redes fazem parte do ethos dos indivíduos, molda subjetividades e – mais uma vez - vêm causando confusão entre as esferas pública e privada. Divórcios expostos, costumes domésticos exibidos indiscriminadamente, a vida como vitrine. A rede social simboliza a apoteose da queda do homem público, ou seja, o cidadão ligado aos antigos costumes públicos. As redes têm a substância mesma da necessidade da intimização das relações. Esse claustro relacional é condição do aparecimento do espaço público vazio de sentido nos grandes centros urbanos. Os condomínios que se fecham à cidade são um bom exemplo. Não é o caso que elementos como o Facebook, Twitter, Youtube, entre outros, sejam a causa em si da decadência da esfera pública, da ascensão da esfera privada e da crise entre ambas. As redes sociais simplesmente se encaixam nessa nova lógica. Os lofts e flats são a imagem arquitetônica da progressiva necessidade isolacionista do homem contemporâneo. Carros Smart, fast-foods, shoppings, academias de ginástica, aniversários pré-prontos, cerimônias cada vez mais informais. A rede social é apenas mais uma das respostas ao processo de interiorização do Eu. Como alega Richard Sennet, sociólogo e historiador norte-americano, “o desenvolvimento da personalidade hoje em dia é o desenvolvimento da personalidade de um refugiado”[3]. Visto isso, podemos levar algumas questões. No que consiste a mudança estrutural da esfera pública? Por que a figura do “homem público” está em declínio? Como se dá a interpenetração progressiva da esfera pública como o setor privado? Como se deu a polarização da esfera social e da esfera íntima? Por que o público pensador de cultura passou a ser um público consumidor de cultura? Ademais, a necessidade de se expor parece uma exigência inevitável ao homem. Sendo assim, é possível concordar com Guy Debord, escritor fracês, quando afirma que todos nós estamos imersos numa verdadeira sociedade do espetáculo[4] em que tudo é passível de objetificação, onde tudo pode ser vendido: a vida e a morte. A exposição da intimidade, não seria diferente, faz nascerem fetiches de consumo. As Redes Sociais são fenômenos que se encaixam perfeitamente no espírito do tempo que, segundo o psicanalista Christian Dunker, é um tempo no qual “antes de conhecer-se, é preciso cuidar de si, ocupar-se consigo”[5]. O atual costume de “publicar” os fatos cotidianos começa a nos exigir antigas virtudes, entre elas a prudência. Toda ética é uma ótica, por isso pode tornar-se uma ciência: a da conduta. Dado que vivemos uma espécie de “ditadura das intimidades”, novas identidades vêm sendo fomentadas e “vividas” no mundo que não é mais tão virtual assim. Cabe discutir por que vivemos essa época sem precedentes na história e como normativizar comportamentos onde problemas de conduta num plano virtual (pessoais ou profissionais) interferem cotidianamente no desenvolvimento das relações ditas “reais”. É possível pensar uma ética, material ou formal, para a era das Redes Sociais? É possível suscitar uma “netiqueta”? Como pensar uma deontologia para as relações em rede? Como vimos, torna-se difícil detectar quem não as utilize. Seja para fins profissionais, familiares, informativos, sociais, estéticos ou sentimentais. O impacto desse novo elemento estrutural de coexistência pede análise e direcionamento do “saber viver”. É preciso discutir, analisar e propor códigos de conduta condizentes com esse recente nicho comportamental. A sociedade burguesa, completamente marcada pela lógica do comércio e das facilidades do consumo, depauperou os costumes públicos e tradicionais, tornando os laços sociais frágeis, instantâneos e “líquidos”, no sentido que dá o sociólogo polonês Zygmunt Bauman[6]. Como o costume exige que a sociedade trabalhe em seu favor, as Redes Sociais acabaram por se tornar um receptáculo ideal dessa confusão entre o íntimo e o público, em que ambas se fundem inevitavelmente. Se as redes interferem tão decisivamente em nossa subjetividade e intersubjetividade, nos cabe o aperfeiçoamento da conduta. Exercemos no mundo digital o que outrora exercitávamos no espaço público das grandes cidades. As redes mostram como deixamos de ser uma plateia, no sentido de testemunhas, ou seja, a força da opinião pública, para passarmos apenas ao status de espectadores. Mesmo com todos os riscos éticos, as redes nos trazem novas e positivas perspectivas de interação. Luiz Felipe Pondé, pensador conservador, afirma em tom irônico que “as redes sociais são a maior vitrine da humanidade, nelas vemos sua rara inteligência e sua quase hegemônica banalidade.”[7] Segundo ele, as “revoluções” realizadas via redes são insurreições de boutique ou, como se veicula pela internet, protestos de gente sentada. Mesmo assim, é possível observar um funcionamento substancial de mobilizações coletivas, petições, protestos pacíficos, veiculação de críticas, aumento das vendas, sofisticação do marketing, valorização das marcas, entre outros inúmeros processos de otimização social. Todos esses elementos foram facilitados pela fluidez da informação espraiada nas social networks. Esses fenômenos não podem ser simplesmente preteridos. Pelo certo ou pelo errado, pelo ser ou pelo dever-ser, as redes fazem parte da nossa realidade, no sentido mais amplo do termo. Logo, nos exigem um novo ethos, ou seja, novos procedimentos sociais. 




[1] SALDANHA, Nelson. O jardim e a praça: o público e o privado na vida social e histórica. Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 2005. 
[2] GIARDELLI, Gil. Você é o que você compartilha. E-agora: como aproveitar as oportunidades de vida e trabalho na sociedade em rede. São Paulo: Editora Gente, 2012.
[3] SENNETT, Richard. O Declínio do Homem Público: as tiranias da intimidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 318.
[4] DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo: comentário sobre a sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
[5] DUNKER, Christian. Estrutura e constituição da clínica psicanalítica. Uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento. São Paulo: Annablume, 2011. p. 198.
[6] BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido. Acerca de la fragilidad de los vínculos humanos. Madrid: Fondo de Cultura Económica, 2005.



4 comentários:

Mariana disse...

imagina isso hoje em dia...

Gui disse...

concordo com a Mariana

Celso disse...

Realmente as redes sociais estão cada vez mais dominando nossas vidas, estamos esquecendo da nossa vida real, para focarmos na nossa vida virtual, não sei aonde iremos parar.

Cezar disse...

Parabéns pelo artigo, realmente estamos perdendo nossa vida real.