domingo, 14 de abril de 2013

O homofóbico pecado mortal de não ser gay nem evangélico no Brasil de hoje

O que de fato é uma Minoria?

No Brasil de hoje há dois tipos de minorias: as minorias irrelevantemente menores e as minorias majoritariamente intocáveis. Estas últimas são as bancadas cujas vozes sustentam os mais elevados níveis de decibéis políticos do país. Um momento... Não espere nesse texto uma sofisticada teoria política, uma filosofia inócua, uma sociologia psiquiátrica ou uma antropologia messiânica. Nem mesmo uma masturbação intelectual defendendo seja lá o que for. É um escrito dietético, produto do nosso tempo. Por Deus e em nome da sexualidade mundial: eu não quero confusão! Nem Marco Feliciano quer confusão! O cidadão é somente a mais sofisticada arma de desvio de atenção em massa já criada por Brasília. Deixo aqui meus parabéns aos peixes grandes por esta belíssima e feliciana manobra! Pretendo apenas convocar o leitor para uma simples tarefa do pensamento. Parto do princípio de que qualquer ativismo é perigoso. A "verdade" em excesso, mesmo para propagar um suposto bem, pode passar por cima de outros interesses "universais". Prometo ter cuidado: as teorias criam tantos fanáticos quanto a religião. Permitam-me um momento de discurso clichê: tenho amigos gays, evangélicos, ateus, agnósticos, alvirrubros, tricolores, paulistanos, paraenses, negros, asiáticos, cadeirantes, porteiros, militantes neoliberais e comunistas de grife. O predicado imputado ao ser humano basicamente não altera minhas relações com os indivíduos. Talvez eu precise, vez ou outra, adaptar o discurso para que nossos diálogos sejam harmoniosos. Eu disse harmonioso, ou seja, um meio termo entre o diplomático e o dócil. A recíproca é verdadeira dado que também tenho minhas manchas predicativas. Sou nordestino, proletário, pedestre, diabético, oriundo da anciã área de humanas, barbado e usuário de linguagem semiesquizofrênica. Amigos, sejamos honestos: existe uma diferença abissal entre tolerância e aceitação. A tolerância está para a razão assim como a aceitação está para o sentimento. Se não se aceita a diferença, resta apenas tolerar.  Não estou tratando aqui de vizinhos, amigos, alunos, parentes, gente da minha circunvizinhança. O perigo é o ativismo e toda sorte de violência oriunda daí. Na política, a verdade é a informação que mais impressiona, o conceito mais eficientemente invasor. Vivemos tempos de tantas verdades, que o excesso de iluminação acaba por nos ofuscar e não percebemos nenhuma com nitidez. Impõe o discurso quem tem a voz mais alta e não necessariamente aos berros. A atual disputa entre a bancadas evangélica e LGBT é, como se costuma dizer, briga de cachorro grande. Não existem mais as antigas lutas das minorias. A maioria, doravante, são as minorias. Honestamente, sabemos quem merece a alcunha de Minoria. Mulheres não são minoria, negros tampouco. Homossexuais e evangélicos são instâncias minoritárias? Não! São discursos numerosamente sólidos. Minorias são os cadeirantes, os que portam deficiências visuais, os ciclistas, as doulas e as mulheres que desejam parir em casa, os que pregam o bem-estar animal, os que anseiam por privacidade na internet, os portadores da Síndrome de Tourette, Síndrome de Down, os indígenas expropriados de uma existência digna. Perdoem-me as atuais “minorias majoritárias”, mas discursos outros também precisam de microfones, de produções audiovisuais, de palanques, de financiamentos, de Ministérios, de Comissões e de cargos públicos. Polarizações políticas são nocivas e ações afirmativas podem ameaçar a autonomia. O que sobra no jogo político para quem não é gay ou evangélico? Atenção! Eu disse no jogo político, ou seja, dinheiro público, partidos, sessões parlamentares, tuitaços, marchas, bancadas e refregas do poder. Apenas um imbecil ousa afirmar que a luta LGBT é ilegítima ou que as reivindicações religiosas são inválidas. É ainda menos inteligente sugerir qual das causas está com a razão. Admiro a coragem irrefreável do deputado Jean Wyllys e a obstinação retórica do conservador Silas Malafaia. Entretanto, seria agradavelmente democrático o entendimento de que há outras prioridades, outros discursos e outras minorias a serem postas em pauta num país que é abrigo de um sem número de desigualdades crônicas.



2 comentários:

Cleciopegasus disse...

http://www.existencialoide.org/2009/04/lamour.html

Saulo C. Moreira disse...

Gostei das ressalvas, só fiquei chocado por ter pegado leve demais com Silas Malafaia e a bancada teocrática em geral. Nenhum discurso de ódio pode ser tolerado, dando a impressão que tudo é apenas "ponto de vista" e que qualquer posição é apenas "mais do mesmo".