sábado, 30 de março de 2013

[Resenha] Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet

Uma leitura que pode lhe deixar positivamente paranoico.
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“Onde mora o perigo, é lá que também cresce o que salva.” (Friedrich Hölderlin)



“Este livro é o grito de advertência de uma sentinela na calada da noite”. De fato, não se trata de mais uma obra sobre o alcance e o poder do conhecimento desenvolvido no mundo da internet. Dessas possibilidades já se tem demasiada ciência e muito desse saber flui fortuito, lôbrego, debaixo de um véu de interesses de vigilância e controle. Uma guerra, ou melhor, uma ciberguerra está em curso e movimentos como o Wikileaks e o Anonymous vêm tentando expor ao mundo um verdadeiro jogo sujo, oriundo da nociva militarização do ciberespaço. “Nenhuma descrição do mundo sobrevive ao primeiro contato com o inimigo”, afirma Julian Assange, o cérebro por trás do Wikileaks. Quem é o inimigo? Os Estados? As corporações? A Esquerda? A Direita? Para entender de onde parte o perigo é preciso se munir de certa dislexia política. Sabemos quem é o inimigo e ele está claramente oculto, sub-reptício, se move camuflado, um fenômeno ameaçador a ser combatido. O que é um fenômeno? Aquilo que se manifesta. O que tem se manifestado sub-repticiamente e que tanto preocupa os cypherpunks, entusiastas da criptografia como via de mudanças sociopolíticas? Uma distopia palpável: o crônico cerceamento da liberdade, o controle da vida íntima, a invasão do jardim moral e o abandono das praças éticas. Estamos falando da iminência de uma sociedade de vigilância totalitarista global. Não temos mais privacidade. Nossas comunicações podem ser interceptadas, armazenadas e, eventualmente, usadas contra nós. O inimigo da internet é a vigilância. A humanidade como um todo está sendo controlada. Cartões de crédito, smartphones, aviões não tripulados e redes sociais. Todos a serviço de uma cultura da espionagem em massa. O Facebook, instrumento de comunicação aparentemente inofensivo, é um quintal onde se é convidado a tirar as roupas e isso é feito de modo voluntário em troca de uns créditos sociais. É o perfeito panoptismo! Eis a motivação primeira do esforço cypherpunk: privacidade aos fracos, transparência para os poderosos. Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, entregue ao público de língua portuguesa pela Boitempo Editorial, é uma verdadeira atualização de um diálogo em estilo platônico, uma vez que os interlocutores mostram-se preocupados com o desvirtuamento de um ideal: a liberdade. A internet, um espaço inicialmente livre, se vê agora sob o cerco dos tentáculos de interesses que são o produto de um ameaçador laço de amizade entre Estados (e suas facções) e megaempresas de vigilância em massa. A conversação entre Assange e os ciberativistas Jacob Appelbaum, Andy Müller-Maghun e Jérémie Zimmermann é a indicação da saída de uma caverna em que sedutoras sombras com aparentes contornos de liberdade sustentam, na verdade, um conteúdo perigosamente escravizador. O que existe hoje fora do alcance dos braços do Estado ou das armadilhas das grandes corporações? Aos leigos, ou seja, a maior parte de nós, o livro é um convite, do ponto de vista de insiders, ao conhecimento de alguns desses tentáculos como o SOPA (Stop Online Piracy Act), o PIPA (Protect IP Act), o ACTA (Anti-Counterfeiting Trade Agreement), a NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA), O Patriot Act, o WTF (Wikileaks Task Force), o SCA (Stored Communications Act), entre outras forças de caráter repressivo. A criptografia é a última tentativa não beligerante de ação contra a vigilância transnacional. A geografia das relações em rede e as facilidades de mapeamento e rastreamento de pessoas e grupos tornaram-se, doravante, uma perigosa máquina de guerra. Os cypherpunks são os espartanos e a criptografia suas Termópilas. O elemento criptográfico estará em tudo e pode-se dizer que será cada vez mais um dos elementos principais por trás das guerras físicas. “A criptografia pode resolver o problema da interceptação em massa que ameaça a civilização do mundo inteiro”. Cada página é um esforço de explicação de como criar ferramentas de uma nova democracia – como a popularização de softwares e hardwares livres - e estimular a desalienação do indivíduo para que tome as próprias medidas de segurança e anonimato enquanto as políticas de privacidade ainda estão insipientes ou obscuras. É impossível não se sentir paranoico ao final da leitura deste livro. Todavia, uma paranoia no sentido positivo dado que o objetivo da obra é nos instalar o medo, ministrar um curto-circuito em nossa letargia coletiva, ensinar através de uma pedagogia da antecipação aos riscos, acordar através de uma heurística do temor e educar na escola do domínio próprio.