Por que Existencialóide?

Definições sempre empobrecem a intenção essencial das coisas, mas são necessárias. Adiáveis, mas necessárias. Seria simplista dizer que a palavra existencialóide, percebida pejorativamente, é a simples fusão de outras duas. Existencialista + debilóide. Existencialista, que em tempos passados era moda fashion intelectual, geralmente é considerado aquele que sustenta que existir é ser carga para si mesmo, que ser livre é dar conta de si mesmo com honestidade e suportar as conseqüências das próprias escolhas. O debilóide não informa necessariamente o caráter de alguém imbecil ou demente (talvez às vezes), serve apenas para indicar a condição débil de quem se propõe a antecipar-se ao que muita gente evita e foge. A essência de um existencialóide, assim me sinto, é a relação de atracção com a finitude. O mundo tem fragrância de finitude. Está impregnada nos desenhos animados, na música, nos jogos de video game, nos antigos amores, no crescimento das crianças, no aumento do peso corpóreo. A idéia de infinito é tentadora, mas não consola de verdade. É exatamente por vir sugando o tutano da finitude, que os anos de minha vida têm sido completamente existencialóides. No ano de 2008, iniciei meus dias com esse sentimento de nostalgia e de perplexidade com a velocidade do tempo. O tempo que passou começou a se tornar presente. Vivendo do passado? Não. Dando vigor ao presente, revisando o que já fui, projetando o que nem sei se serei. Achei que seria apenas o ano 2008. Por isso o nome desse espaço ser "um ano existencialóide". De lá para cá o sentimento continuou. Será que vou acabar completando uma década existencialóide? Na verdade, tenho sido assim há muito, apenas me apercebi disso há pouco. Tenho vivido cada dia não como se fosse o último, mas sempre com a possibilidade do fim em vista. Para alguns, enxergar a finitude dos eventos enquanto eles ainda acontecem pode prejudicar a fruição do momento. Acredito, ao contrário, que se vive mais intensamente um evento quando se cultiva plena convicção que ele é transitório e, deste modo, se desejo vivê-lo com plenitude, não me iludo com sensações de eternidade, ainda que essa sensação inautêntica me agrade. Por isso, acredito que a eternidade não é uma instância de tempo, é um sentimento. Enquanto há o sentimento de eternidade nada termina realmente. Isso não é trágico, é lúcido. Lucidez é domínio? Nem sempre. Pode parecer triste, mas o sorriso da sua mãe um dia acaba, o amigo de sempre um dia se vai, toda espera tem termo, a cerveja termina e a conta está cara, aquela obturação feita há uma década cai, a música que te dá comprazimento estético dura em média cinco minutos, a dor - por mais aguda que seja - passa. A vontade, seja lá qual for o objeto, quando satisfeita, finda e recomeça. O Parthenon um dia vai cair assim como o eterno Império Romano caiu. A terra que sempre foi o centro do universo levou uma patada tripla com Copérnico, Kepler e – finalmente - com Galileu e uma revolução (que já passou) foi realizada. Todas as experiências que nos mostram quanto limitados nós somos, são altamente válidas. Experiência é um termo usado para descrever os alfinetes que a vida nos enfia sem nenhuma técnica de acupuntura. 

É o fim que faz o agora ter consistência.